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Universidade,
Qual Universidade?,
Reforma, Qual Reforma?
Prof.
Jaldes Reis de Meneses* |
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1.
Introdução
Em um texto
clássico
da filosofia
do século
passado (Dialética
do esclarecimento,
1985) –
que, aliás,
comemora 60
anos de publicação
nesse 2004 –,
Adorno e Horkheimer
aludem à
questão
de que o pensamento
científico
contemporâneo
deixou, em algum
momento de seu
trajeto, de
perscrutar a
si mesmo, de
inquirir os
fundamentos
de seu conceito,
suas origens
e finalidades.
O pensamento
assumiu uma
lógica
de operation
medida pelo
êxito
imediato e,
como tal, tornou-se
um instrumento
de dominação,
mito. O drama
da ciência
é também
o drama do conhecimento
na sociedade
em geral, ambos
enlaçados.
Sendo fiel
à letra
do pensamento
de Adorno e
Horkheimer,
é preciso
recordar que,
para eles, nos
mitos ancestrais
de representação
da natureza
já se
encontrava o
núcleo
racional da
razão
(com o que concordamos),
porém
apresentamos
uma diferença
no desenvolvimento
da premissa
– a conclusão
(na verdade,
uma sugestão
ambígua
no texto) de
que a razão,
invariavelmente,
retorna, pervertida,
à condição
de mito. Pode
ser que sim,
pode ser que
não,
pois devemos
considerar a
história,
apesar das constrições
severas do hoje,
ainda uma questão
em aberto.
Sem embargo
da diferença,
devemos considerar
a mensagem dos
dois frankfurtianos
como um manifesto
e um alerta
de um processo
real de perversão
do pensamento,
em curso quando
foi escrito,
na clivagem
entre o capitalismo
imperialista
e o capitalismo
tardio (o último
sendo nada mais
nada menos do
que a continuidade
avançada
do velho capitalismo,
doravante em
uma forma mais
pura, imperialista
e sem revolução,
uma cocaína
sem impurezas
entregue ao
movimento absoluto
das leis do
capital). Adorno
e Horkheimer
eram felizes
e não
sabiam, pois
as transformações
advindas do
capitalismo
tardio estavam
em seu começo.
Caso a coruja
de Minerva resolva
alçar
seu vôo
nas noites e
madrugadas de
hoje, visando
investigar o
trabalho dos
homens na história,
constatará
que as prédicas
mais pessimistas
estão
se realizando.
O que ocorre,
por exemplo,
com a Universidade,
no Brasil e
no mundo, a
instituição
que deveria
ser a do pensamento?
O diagnóstico
geral considera
a universidade
em crise, o
que em princípio
não é
ruim, pois a
crise pode ser
um sinal de
vitalidade.
Contudo, existe
também
a crise terminal.
Podemos estar
no limiar da
morte da universidade.
Entendamo-nos:
a instituição
não mudará
de nome (a marca
tem boa cotação
no mercado),
continuará
a formar jovens
e realizar pesquisas,
porém
não responderá
mais pelo seu
conceito genérico
originário
de universalidade
e morada do
pensamento crítico.
Se voltarmos
os olhos às
recentes transformações
e processos
de reforma universitária
no mundo (Brasil,
Itália,
Grã-Bretanha,
Coréia,
etc.) perceberemos
que começa
a ganhar corpo,
em certo grau
de irreversibilidade,
uma instituição
nova, mercantil,
instrumental,
produtivista,
pragmática,
antiintelectual,
de predomínio
da tecnologia
e da administração
sobre a ciência
e as humanidades,
do privado sobre
o público.
Uma Universidade
incapaz de pensar
seus pressupostos
não é
um devaneio,
mas um corolário
das vicissitudes
atuais da razão.
Talvez esteja
começando,
sorrateiramente,
a emergir, em
condição
hegemônica,
um ethos universitário
indiferente
aos grandes
destinos da
sociedade –
uma universidade
dos meios, jamais
dos fins.
Se tal processo
de subordinação
total dos fins
aos meios não
é irreversível,
constitui, no
entanto, o léxico
e a sintaxe
dominantes no
debate da reforma
universitária:
o financiamento
e a expansão
da rede ensino
superior (privada
e pública),
os dois temas
privilegiados,
são tratados
como e houvesse
um grande consenso
sobre os fundamentos
da Universidade,
sendo expressivo
desse autismo
contra as idéias
o programa Universidade
Paratodos (ProUni)
do MEC, de compra
de vagas (pseudo)ociosas
em instituições
privadas de
ensino superior.
Neste ínterim,
vale o alerta
de que o eixo
básico
do processo
em curso não
é precisamente
de privatização
tout court das
universidades
públicas,
mas mais complexo,
de diluição
ou mesmo abolição
das fronteiras
entre o público
e o privado,
o Estado e o
mercado, os
meios e os fins,
tal como no
caso da proposta
das organizações
sociais do governo
passado –
só assim
pensando compreenderemos
o sofisma governista
da compra das
vagas privadas
como publicização/estatização
(aprofundaremos
o tema das relações
históricas
entre o público
e o privado,
visando compreender
o Universidade
Paratodos, na
última
seção
do artigo).
Os programas
do governo atual
e anterior são
diferentes,
mas as intenções,
a lógica
e a matriz intelectual
são a
mesma.
Está
faltando autêntica
vida intelectual
e memória
histórica
no debate sobre
a reforma universitária.
Os mortos prescindem
de memória.
Sintomático
de nossa afirmação
foram os primeiros
pronunciamentos
do Ministro
Tarso Genro,
depois de escolhido
pelo Presidente
Lula: na concepção
de Tarso, os
fundamentos
intelectuais
da reforma já
estão
assentados,
faltando somente
definir os instrumentos
operativos do
novo papel da
universidade
no desenvolvimento
nacional, escamoteando
que, envolto
na cortina de
fumaça
dos instrumentos
e dos números,
estão
em jogo os diversos
projetos e alternativas
sociais em contenda
pela direção
política
e intelectual
dos rumos da
universidade.
Este artigo
pretende, de
maneira singela,
pontuar alguns
elementos históricos
e de fundamento,
visando interferir
no debate atual
da reforma universitária
brasileira.
Advertimos que
não avançaremos
em globo, neste
artigo, nas
vicissitudes
da reforma anunciada
pelo governo
Lula, mas gostaríamos
de deixar claro
que os fundamentos
propostos pelo
governo tão
somente atualizam,
em nova fase
histórica,
o paradigma
vigente (herança
dos governos
militares e
de FHC), não
constituindo
ruptura com
o status quo,
mas até
um aprofundamento.
Criação
histórica
relativamente
recente (primeira
metade do século
XX), a universidade
no Brasil reflete
a crise mundial
da instituição
na particularidade
de uma formação
social dependente.
A particularidade
da situação
brasileira no
mundo faz provir
dois vetores
amalgamados,
que se apresentam
na condição
de desafios
à imaginação:
um primeiro,
diz respeito
às determinações
genérico-universais
da crise do
trabalho intelectual-universitário,
incidentes no
Brasil, e o
segundo, atinente
às agruras
da dependência
intelectual,
científica
e tecnológica,
típicos
de um país
situado na semiperiferia
do capitalismo
mundial. Um
leitor atento
observará
certa mudança
de tom entre
o aspecto lúgubre
na tematização
do primeiro
vetor –
as determinações
genérico-universais
da crise do
trabalho intelectual-universitário
– e um
módico
otimismo nas
possibilidades
sociais, democráticas
e desenvolvimentistas
que uma universidade
verdadeiramente
reformada pode
ainda impelir
no Brasil. É
verdade, mas
preferimos creditar
as sutis mudanças
de tom à
própria
posição
contraditória
do Brasil no
contexto do
capitalismo
mundial.
2.
A instituição
universitária:
marcos históricos
da crise atual
Não
há como
bem conhecer
a problemática
da reforma sem
remissão
à história
da universidade.
Temos duas grandes
questões
estratégicas
que dimanam
da origem, ambas
ligadas ao estatuto
da autonomia
universitária:
primeiro, a
instituição
universitária
é a segunda
instituição
mais antiga
no mundo ocidental
– perde
em longevidade
somente para
a Igreja católica
–, e surgiu
como reação
ao controle
da vida intelectual
pelos mosteiros
e os poderes
locais no mundo
feudal; depois,
a universidade
é anterior
aos Estados
nacionais –
a principal
instituição
política
do mundo moderno
e contemporâneo
-, e, sempre
apresentou,
quando pôde,
restrições
e insubordinações
à tutela
estatal, embora,
algumas vezes,
de natureza
corporativa
e até
conservadora
(basta lembrar
a crise da universidade
no século
XVIII, radicada
numa certa desconfiança
do cânon
universitário
instituído
em relação
ao conteúdo
profano da ciência
moderna).
Que tipo de
trabalho intelectual
a universidade
organizou nos
seus primórdios?
A universidade
surgiu (Paris
e Bolonha) à
maneira das
corporações
de ofício
de artesãos,
na confluência
entre a alta
e a baixa idade
média
(séculos
XI, XII e XIII),
visando a separação
entre o trabalho
manual –
as demais corporações
– e o
trabalho intelectual
–, abrigado
na universidade
(Le Goff, 1994).
Profissão
específica,
deslocada das
demais atividades
corporativas,
ensinar e o
interesse em
aprender passaram
a ter, a partir
daí,
na Europa, um
estatuto autônomo
e uma certa
condição
existencial
independente
da ideologia
total cristã
– era
o tempo da voga
das especializações
do direito,
da retórica,
da gramática,
da teologia,
da dialética,
da música
(derivações
da escolástica
católica)
e da medicina
(influência
árabe).
O intelectual,
no alvorecer
da instituição
universitária,
foi designado
corretamente
por Weber (1992:
433) como intelectual
artesão
(uma figura
histórica
semelhante ao
intelectual
tradicional
de Gramsci,
talvez com a
diferença
do acento, dado
pelo italiano,
da ligação
do intelectual
junto ao Estado),
ou seja, um
sujeito que
trabalhava seus
objetos de erudição
individualmente,
com a paciência
de um ourives,
que tinha o
controle quase
absoluto do
seu meio de
produção
e do seu processo
de trabalho,
de seu ritmo,
de sua biblioteca,
de suas fontes,
de seus interlocutores.
Cumpre, neste
ínterim,
observar que
a instituição
universitária,
na origem, abrigava
a figura do
intelectual
artesão,
sendo estranho
ao ethos originário
formas contemporâneas
de trabalho
intelectual
coletivo e especializado,
que começam
a ganhar terreno
no século
XIX e tornam-se
dominantes no
século
XX (Couto, 1999).
Separado o
trabalho manual
do trabalho
intelectual
– vale
dizer a práxis
operativa (ou
poiésis,
conforme os
gregos) da práxis
teórica
–, depois
da criação
da instituição
universitária,
em pouco tempo,
os intelectuais
começaram
a inquirir racional
e experimentalmente
a natureza e
a sociedade,
especialmente
a partir do
advento da revolução
científica
dos séculos
XVII-XVIII.
Devemos lembrar,
aqui, o papel
social da ilustração:
avessa ao ensino
tradicional
universitário
– à
retórica,
à teologia,
à metafísica
– o projeto
ilustrado –
especialmente
Diderot –
pregava uma
universidade
mais ligada
à vida
empírica,
mais utilitarista.
Os filósofos
da ilustração,
no mais das
vezes fazendo
uma crítica
de fora das
universidades,
desataram um
processo fundamental:
as ciências
da natureza,
e depois as
chamadas ciências
sociais (estas
já na
segunda metade
do século
XIX), separaram-se
da filosofia,
a antiga célula-mãe.
Explicitam-se
de vez as diferenças
entre o intelectual
e o cientista,
o erudito e
o especialista,
o humanista
e o técnico.
Ensaia-se um
drama de largo
escopo, detectado
pela primeira
vez pelos autores
românticos
e depois pelos
melhores marxistas,
como Lukács
(1989: 41) e
a Escola de
Frankfurt: as
formas do trabalho
intelectual
mimetizam as
do trabalho
manual –
o trabalho coletivo
–, no
que têm
de emancipatório
(a liberação
humana da forças
da natureza)
e também
de alienante
(o controle
do trabalho
por forças
exógenas
econômicas
e políticas,
capital e Estado).
Enfim, começa
a esvaecer a
figura do intelectual
artesão:
a antiga forma
corporativa
de organização
do trabalho
intelectual
assume as formas
coletivas do
trabalho no
capitalismo.
A conhecida
passagem de
Gramsci (2001:
241) em Americanismo
e fordismo,
na qual ele
qualifica o
fordismo como
um movimento
de “passagem
do velho individualismo
para a economia
programática”,
embora referente
principalmente
ao trabalho
manual, pode
servir de analogia
à passagem
do trabalho
do intelectual
artesão
(o “velho
individualismo”)
para o intelectual
coletivo (a
“economia
programática”).
O problema
de fundo do
domínio
do trabalho
intelectual
coletivo sobre
o artesanal
(ou tradicional),
na universidade
contemporânea,
é que
o respeito à
autonomia universitária
remete às
formas artesanais,
ao passo que
os cientistas,
hoje, têm
escasso controle
sobre a agenda
e os objetivos
da pesquisa.
O centro do
controle está
nas mãos
do Estado e
das grandes
empresas: as
raízes
mais remotas
da crise da
Universidade
sempre remetem
a essa contradição
entre o intelectual
artesão
e o intelectual
coletivo, entre
a forma originária
e a forma das
novas organizações
do trabalho
intelectual
coletivo.
Deixando de
lado as origens
(mas sem esquecer
suas imantações),
se quisermos
um marco histórico
da Universidade
contemporânea,
devemos remete-lo
à criação
da Universidade
de Berlin em
1810 –
o famoso modelo
da Universidade
humboldtiana,
que vincou o
paradigma da
inextricabilidade
do ensino e
da pesquisa,
bem como esteve
ligada ao começo
de esforço
da unificação
nacional do
Estado alemão.
O modelo humboldtiano
foi uma grande
novidade, pois
conseguiu adaptar
os princípios
da autonomia
universitária
à figura
histórica
emergente do
Estado nacional:
ciência
e projeto de
desenvolvimento
nacional começaram
a estabelecer
um elo jamais
havido no modelo
medieval anterior.
Mais bem-sucedida
das sínteses
universitárias
da era liberal
e nacionalista
do capitalismo,
o modelo humboltiano
pregava a liberdade
acadêmica,
a prioridade
da ciência
pura sobre a
ciência
aplicada, mas
fazia do ensino
e da pesquisa
universitária,
ao mesmo tempo,
um orgulho nacional,
uma vitrine
na competição
com outros modelos
nacionais universitários.
A fissura entre
a intelectualidade
ilustrada e
a universidade,
comum principalmente
na França
do século
XVIII, chegava
a um ponto de
acordo.
Em nossa opinião,
porém,
o modelo humboldtiano
era uma forma
nova, mas de
transição,
assentada no
predomínio
do trabalho
intelectual
artesanal, este,
de alguma maneira,
ainda um resíduo
da medievalidade:
embora tenha
fixado novas
bases para a
carreira acadêmica,
o modelo humboldtiano
organizava,
na maioria das
licenciaturas,
intelectuais
tradicionais,
ligados às
ciências
(então,
vigia uma separação
rigorosa das
fronteiras entre
ciência
e tecnologia)
e às
humanidades.
A adaptação
do conteúdo
à forma,
do trabalho
intelectual-universitário
ao modo de produção
capitalista,
pode-se dizer,
só granjeou
a dimensão
de processo
no começo
do século
XX – advindos
principalmente
de experimentos
nas Universidades
norte-americanas
-, e acelerou
no entorno da
Segunda Guerra
Mundial. Desde
daí,
a ligação
entre a ciência
e os interesses
estratégicos
dos Estados
mais poderosos
– emblemáticos
na criação
de instrumentos
permanentes
de pesquisa
militar -, tornou-se
um dos principais
elementos para
compreensão
do mundo contemporâneo.
Qual, enfim,
o modelo da
organização
da ciência
hoje? As bases
do paradigma
estão
no Projeto Manhattam,
a organização
do trabalho
que produziu
a bomba atômica:
rigoroso segredo
estatal dos
objetivos, atração
de pesquisadores
devido à
abundância
de financiamento,
redes temáticas
descentralizadas,
abolição
de fronteiras
entre ciência
“pura”
e ciência
“aplicada”.
Diante do marco
decisivo do
Projeto Manhattan,
lembrando palavras
de Einstein
(arrependido,
depois de ter
sugerido em
carta ao presidente
Roosevelt, antes
do começo
da guerra, pesquisas
secretas controladas
pelo Departamento
de Estado sobre
a fricção
do átomo),
o cientista
não pode
mais desligar
seu mister dos
objetivos de
quem encomenda
a pesquisa –
sob pena de
ser um crápula
ou um alienado
(Mészáros,
1996: 278-310).
2.
A reforma universitária
nos anos sessenta
Tivemos uma
salutar pressão
sobre a Universidade,
vinda principalmente
dos estudantes,
nos anos sessenta.
Foi do movimento
estudantil que
vieram as problemáticas
da crise e da
reforma da Universidade,
pugnando democratização
e acesso. Mas
foi um movimento
ambivalente,
de promessas
libertárias
e acomodação
seguinte. Visto
da perspectiva
de hoje, a “geração
68”, em
sua maioria,
acomodou-se
ao status quo,
assim como seus
valores libertários
foram capturados
“na forma”
pela publicidade,
mas não
se pode dizer
que as lutas
do movimento
estudantis tenham
sido em vão:
algumas aquisições
democráticas
de hoje deitam
raízes
nestas batalhas
pioneiras.
Os rebeldes
de 1968 constituíam
a primeira geração
dos que não
testemunharam
diretamente
as agruras da
guerra mundial.
No caso europeu
e norte-americano,
eram os filhos
dos operários
fordistas que
batiam às
portas do ensino
superior –
inacessível
aos pais –,
clamando o deselitização
da Universidade.
Com efeito,
as lutas de
1968, derruíram
as últimas
fronteiras do
trabalho intelectual
artesanal nas
universidades
de ponta, produzindo
efeitos positivos
e negativos.
De negativo,
imbricou exageradamente
o trabalho universitário
em ciências
humanas com
a indústria
cultural, que
passou a ter
influência
direta inclusive
sobre a produção
intelectual
universitária;
de positivo,
derrubou as
cátedras
universitárias,
refúgio
das tradições,
mas principalmente
do obscurantismo.
Em um movimento
cultural mais
fundo, o que
ocorreu em 1968
foi o marco
da explicitação
da passagem
da alta cultura
modernista,
e seu tipo específico
de erudição
individual (Adorno
pode ser visto
como um personagem
simbólico
da alta cultura
modernista),
para o pós-moderno,
este último
mais que um
estilo, um verdadeiro
“espírito
do tempo”
de incorporação
populista das
maneiras da
cultura de massas
à vida
universitária
(Jameson: 1996).
Não
vamos alongar
um balanço
acurado dos
efeitos dos
movimentos de
1968, mas dois
elementos se
sobressaem.
Em primeiro
lugar, ao modelo
humboldtiano
de indissociabilidade
entre ensino
e pesquisa,
veio acostar-se
a extensão,
e, através
desta, uma miríade
de atividades
de prestação
de serviços
e produção
de bens materiais.
Parafraseando
o sociólogo
pós-moderno
português
Boaventura de
Sousa Santos
(1995: 187-233),
a Universidade
passou a ser
uma instituição
de fins sem
fim, acarretando
uma crise de
identidade que
remete à
pergunta –
o que é
mesmo a Universidade?
Em segundo,
e mais importante,
os movimentos
plebeus de 1968
politizaram
radicalmente
a questão
da reforma universitária,
abordando a
questão
como definitivamente
ela é:
uma questão
de poder, de
relações
de força.
A tecnocracia
e o sedutor
ardil da neutralidade
– o discurso
competente,
na conhecida
crítica
de Chauí
(1989: 03-13)
– foram
amplamente desmascarados
em 1968.
É interessante
notar como mudaram
os termos do
debate sobre
a reforma universitária,
ontem e hoje.
Ontem, falava-se
em relações
de poder e universidade
crítica;
hoje, fala-se
em eficiência
e custo-benefício.
Ideológica
alteração
de léxico.
3.
Elementos do
debate brasileiro
sobre a Reforma
Universitária
Devemos lembrar
– porque
vem sendo esquecido
-, que a bandeira
da reforma universitária
foi levantada
pela primeira
vez no Brasil
pelo movimento
estudantil em
1960/61, nos
dois Seminários
Nacionais de
Reforma Universitária
da UNE, em Salvador
(BA) e Curitiba
(PR). A visão
estudantil era
vincular a reforma
universitária
a outras reivindicações
populares, como
a reforma agrária
e a lei de remessa
de lucros. Podemos
ler uma síntese
da assertiva
acima, por exemplo,
na famosa Declaração
da Bahia, primeiro
dos importantes
documentos programáticos
do movimento
estudantil sobre
a reforma universitária:
“De maneira
alguma atrairia
a consideração
[pelos estudantes]
de uma Universidade
tomada abstratamente,
retirada do
processo histórico
que a Nação
atravessa. Incumbe-nos
esboçar
a missão
de uma Universidade
existencialmente
entendida, comprometida
com as necessidades
concretas do
povo brasileiro.
Universidade
historicamente
datada e sociologicamente
situada na segunda
metade do século
XX, num País
em fase de desenvolvimento”
(Poerner, 1979:
190-195).
O movimento
estudantil e
o bloco histórico
nacional-popular
foram derrotados
em 1964. A reforma
universitária
que tivemos
no Brasil não
foi a do movimento
estudantil,
mas a dos militares,
através
do Decreto-lei
número
4042 (depois
a Lei número
5540), com direta
assessoria norte-americana
(resultante
da série
de estudos e
propostas que
configuraram
os “Acordos
MEC-USAID”),
em setembro
de 1968. Data
daí a
introdução
da “lógica
tecnocrática”
na gestão
universitária,
conduzindo a
vida acadêmica
nas universidades
públicas
a um patamar
antes desconhecido
de burocratização
e racionalização:
departamentalização,
sistema de créditos,
instituição
do ciclo básico,
vestibular unificado,
fragmentação
do grau acadêmico
de graduação,
institucionalização
da pós-graduação,
etc. O governo
militar apropriou-se
das reivindicações
dos estudantes
e alguns intelectuais
brasileiros
de esquerda
em 1968, especialmente
a ampliação
do número
de vagas, visando
à democratização
e a deselitização
do ensino superior
(igualdade de
oportunidade
para todos),
e a organização
de uma estrutural
racional de
pesquisa científica
visando o desenvolvimento,
e deu uma reposta
de registro
trocado. A questão
do acesso foi
resolvida pela
fantástica
expansão
de uma rede
privada mercantilista,
e a produção
científica
foi comandada
por uma gestão
tecnocratizada,
condizente com
as estruturas
profundas de
um capitalismo
monopolista
militarizado
em implantação
(Fernandes,
1975).
Em diapasão
de oposição,
várias
críticas
foram feitas.
Delas, podemos
citar a de Darcy
Ribeiro (1997):
os militares,
na voragem da
expansão
do capitalismo
monopolista
no Brasil, criaram
uma Universidade
reflexa, um
projeto de modernização
cego às
constrições
da formação
histórico-social
subdesenvolvida,
uma cópia
do modelo da
Universidade
norte-americana.
Neste sentido,
cabe o comentário
de que é
preciso sempre
tomar cuidado:
as vicissitudes
da Universidade,
em plano mundial
(tratadas topicamente
nas seções
anteriores),
também
rebatem no Brasil,
mas, aqui, passam
por uma mediação,
medram em uma
sociedade heterogênea,
desigual, patrimonialista,
de tradição
cultural beletrista.
O projeto militar,
portanto, amalgamou,
em um quebra-cabeça
indisforme,
duas realidades,
as do atraso
e as do capitalismo
tardio (ou avançado).
É impressionante
como os efeitos
da Reforma Universitária
dos militares
são perduráveis.
Nem o movimento
docente nem
as eleições
diretas de Reitor
(conquista na
Universidade
das lutas pelo
fim da ditadura)
lograram êxito
na modificação
desse modelo.
As sólidas
bases do mesmo
estão
aí até
hoje, moldando
o ensino superior
nas Universidades
Federais e regulando
as Universidades
privadas, configurando
– justiça
se faça
–, a única
reforma universitária
realmente estruturante
que tivemos
até agora.
A perdurabilidade
e a natureza
da reforma universitária
de 1968 justificam
a validade de
se sustentar
necessidade
urgente de uma
reforma universitária
no Brasil. Mas,
universidade,
qual universidade?
Reforma, qual
reforma?
A questão
da reforma universitária
retornou ao
debate político
brasileiro nos
anos 80, durante
a chamada transição
democrática
(Florestan Fernandes
e Jânio
de Freitas diziam
transação),
como ficou denominado
o processo de
passagem da
ditadura militar
ao regime civil.
Vivíamos
um processo
de mobilização,
devendo ser
ressaltado,
no âmbito
das Universidades,
os esforços
empreendidos
pelos docentes,
através
da ANDES, sintetizado
como formulação
geral no documento
Proposta das
Associações
Docentes e da
Andes para a
Universidade
Brasileira (1981).
Reivindicando
as bandeiras
históricas
do movimento
democrático
(nucleado na
consigna do
ensino público
e gratuito),
o documento
argüia
a necessidade
de estabelecimento
de um padrão
único
(depois chamado
de unitário)
do ensino superior,
visando a regulação
do sistema pelo
padrão
das melhores
instituições.
Devemos refletir
sobre a proposta
do padrão
unitário:
conquanto alguns
setores criticassem
o que consideravam
“utopismo”
da proposta,
apenas os esforços
do Estado no
sentido de estabelecer
tal padrão
saneariam a
dualidade do
sistema de ensino
superior instaurado
pelos militares,
de cruel discrepância
de qualidade
entre o setor
público
e a maioria
das instituições
do setor privado.
Não
foi o que aconteceu.
No plano da
institucionalidade
da “Nova
República”
(governo Sarney)
pouca coisa
mudou no paradigma
universitário
herdado. Houve
uma iniciativa
polêmica
logo no início
do governo,
quando o MEC
(gestão
Marco Maciel)
criou uma comissão
de intelectuais
como Carlos
Nelson Coutinho
e José
Arthur Giannotti
(com a participação
da UNE) para
estudos sobre
uma nova Reforma
Universitária.
Os trabalhos
da aludida comissão,
de composição
heterogênea,
sintetizados
no documento
Uma nova política
para a educação
superior brasileira
(1985), não
produziu um
acordo político
consistente
e suas conclusões,
tidas como genéricas,
foram esvaziadas
pelo governo.
Mais do que
a chamada “comissão
de alto nível”,
o que balizou
o governo Sarney
foi o relatório
do GERES (Grupo
Executivo sobre
a Reformulação
da Educação
Superior), no
qual estão
consignadas,
pela primeira
vez, no período
democrático,
algumas idéias
privatistas,
atinentes à
estruturação
do setor público,
sobre financiamento,
isonomia e carreiro
docente, regime
jurídico,
etc., que pautarão,
no período
seguinte, o
debate sobre
a reforma universitária.
A Assembléia
Nacional Constituinte,
em contraponto
ao GERES, foi
uma espécie
de interlúdio.
Embora não
tenha se dedicado
especificamente
à Reforma
Universitária
(nem poderia,
obviamente)
lá foram
consagrados,
no capítulo
dedicado à
educação,
pela primeira
vez na história
constitucional
brasileira,
os preceitos
da autonomia
universitária
(artigo 207)
e da gratuidade
do ensino público
(artigo 208).
Promulgada
a nova Constituição,
por oito anos,
os principais
embates de concepção
sobre educação
transferiram-se
para o processo
de elaboração,
tramitação
e aprovação
de uma nova
LDB (Lei de
Diretrizes e
Bases da Educação),
que resultou
numa importante
derrota dos
setores responsáveis
pelas consignas
progressistas
da Constituição
de 1988. Rigorosamente,
a LDB (Lei número
9.394/96), já
no governo Fernando
Henrique (gestão
Paulo Renato
no MEC), flexibilizou
e desregulamentou
o ensino superior:
abriu espaços
para uma nova
onda de expansão
do ensino superior
privado, através
do ardil de
em lugar de
um credenciamento
cuidadoso visando
à instalação
de novos cursos
de graduação,
permitir a abertura
dos mesmos quase
sem nenhum critério,
condicionando
o controle de
qualidade ao
momento posterior
da avaliação
institucional.
Em outro diapasão,
uma leitura
genérica
da autonomia
no artigo 207
da Constituição
também
facilitou a
expansão
do ensino superior
privado; conforme
esta leitura,
como as instituições
são autônomas,
podem fazer
o que quiser,
valendo-se da
concorrência
de mercado como
instrumento
de seleção
das melhores
instituições.
Desmesurado
observar que,
nesta démarche,
a Universidade
perde qualquer
valor nacional
e estratégico,
sendo um negócio
como outro qualquer.
Neste sentido,
a ANDIFES (Associação
Nacional dos
Dirigentes das
Instituições
de Ensino Superior)
incorporava,
com algumas
diferenças,
o espírito
da proposta
de padrão
unitário
da ANDES quando
propôs,
em 1996, uma
regulamentação
do artigo 207,
através
da proposta
de um projeto
de Lei Orgânica
da Universidade
Brasileira,
visando à
regulação
de todo o sistema
universitário
pelo padrão
das federais,
consolidando
o sistema nacional
de ensino superior
e criando um
novo ente jurídico
(a universidade
pública).
Conquanto algumas
indefinições
sobre a carreira
nacional docente
e dos técnico-administrativos
– que
dividiu tacitamente
os reitores
das regiões
Sul-Sudeste
e Norte-Nordeste
(divisão
menor que poderia
ser negociada
em benefício
do padrão
único
do sistema nacional
ser preservado
nas regiões
mais atrasadas)
–, caso
tivesse sido
levado em consideração
pelo Congresso
Nacional, a
eventual aprovação
do projeto da
ANDIFES teria
sido um importante
avanço
no desenvolvimento
do ensino superior
brasileiro.
Contudo, o executivo
federal estava
mais interessado
em liberalizar
o “negócio”
do ensino superior.
Depois, a mesma
ANDIFES recuou
– certamente
por motivos
táticos
advindos de
uma análise
de isolamento
político
na conjuntura
privatista –,
e, ato contínuo,
propôs,
em 2002, um
Projeto de Lei
Orgânica
das Universidades
Federais, que
matinha o mesmo
espírito
anterior, porém
abrindo mão
de legislar
sobre a regulação
das escolas
privadas.
4.
“Era FHC”,
início
da “Era
Lula”:
continuidade
ou ruptura no
ensino superior?
Seria superficial
afirmar que
o governo FHC
apenas liberalizou
o ensino privado.
Oriundo das
Universidades
estaduais paulistas,
do CEBRAP e
da FGV, o grupo
de Fernando
Henrique e Paulo
Renato, que
inclui intelectuais
do naipe de
Luiz Carlos
Bresser Pereira,
José
Arthur Giannotti
e Eunice Durham
(que já
colaborara no
governo Collor),
entre outros,
vinha, há
um bom tempo
(pelo menos
desde os embates
dos anos oitenta)
amadurecendo
opiniões
sobre o Estado
e o ensino superior
brasileiro,
adotando avant
la lettre uma
posição
ideológica
bastante parecida
com a chamada
terceira via
de Tony Blair
e Anthony Giddens.
Em que pese
o antipopulismo
de cátedra
originário,
o grupo de intelectuais
paulistas se
inscrevia em
uma linha marxista
de tipo desenvolvimentista
(neste sentido,
distanciada
da crítica
ao progresso
da Escola de
Frankfurt),
que aos poucos
foi adotando
como imperativo
categórico
o conjunto de
constrições
da globalização
financeira,
abandonando
o velho desenvolvimentismo.
Assim como nas
formulações
de Giddens (2001),
tratava-se,
doravante, de
reconhecer os
imperativos
da globalização
e atualizar
o Estado e as
formas de propriedade
estatal à
nova realidade.
Pelo grau de
articulação
teórica,
recordemos,
topicamente,
as proposituras
de Luiz Carlos
Bresser Pereira
e José
Arthur Giannotti.
Referente aos
ideólogos
do governo Lula,
não é
o caso de menciona-los
agora, mas no
curso da exposição.
Conquanto não
aborde diretamente
a reforma universitária,
o projeto de
reforma administrativa
do aparelho
de Estado, do
ex-ministro
da administração
de FHC (Bresser
Pereira), tinha
diretas incidências
sobre a Universidade:
propunha transforma-la
no que intitulava
de organizações
sociais de caráter
público
não-estatal.
O ex-ministro
sugeriu uma
estrutura de
aparelho de
Estado que lembra
a do antigo
Estado capitalista
liberal, hegemônico
na Europa, nos
Estados Unidos
e no Brasil
até o
colapso econômico
de 1929, época
em que, via
de regra, a
estrutura do
aparelho estatal
resumia-se ao
executivo, à
segurança
pública,
ao parlamento
e à diplomacia.
Conforme o
desenho projetual
de Bresser Pereira
(1996: 283),
o aparelho de
Estado brasileiro
seria constituído
historicamente
de quatro setores,
para os quais
ele concebe
algumas reformas:
-
O
núcleo
estratégico,
constituído
da cúpula
dos três
poderes.
-
As atividades
exclusivas,
que não
podem ser
repassadas
a terceiros
(receita federal
e segurança
pública).
-
Um setor de
serviços
definidos
como não-exclusivos
ou competitivos,
por serem
ofertados
tanto no setor
público
como no setor
privado. Neste
setor, o ex-ministro
incluiu áreas
fundamentais
como a educação
e saúde
e propôs
a forma jurídica
de propriedade
intitulada
de organização
social.
-
Um setor de
produção
de bens e
serviços
para o mercado,
os antigos
monopólios
estatais como
petróleo,
telefonia
e energia
elétrica.
Esses setores,
no fundamental,
foram privatizados
no Brasil.
A proposta
de Bresser Pereira
pode ser tranqüilamente
definida, sem
clichê,
como socialiberal
(mesmo campo
ideológico
no qual se inscrevem
Blair e Giddens),
tendo por principal
semelhança
o fato de a
mesma basear-se
no controle
da gestão
das organizações
sociais pelo
mercado. Como
afirmou Chauí
(2001: 175-193):
houve, aqui,
uma sutil modificação
no caráter
político
da esfera pública,
transmutada,
doravante, em
administração
privada de organizações
civis; os órgãos
públicos
abandonam a
condição
originária
de instituição
social –
passível
de controle
da sociedade
– e assumem
a de organização
social –
passível
de concorrência
mercantil definida
pelos resultados.
O disfarce encontrado
por Bresser
Pereira para
justificar esse
tipo de controle
dos serviços
de educação
e saúde
pelo mercado
foi o de envidar
esforços
visando à
formação
no país
de um setor
intitulado de
público
não-estatal,
inspirado, conforme
reconhece o
próprio
ex-ministro,
no modelo cultural
de organização
da sociedade
civil dos Estados
Unidos e da
Grã-Bretanha
– “(...)
estou propondo
aos senhores
que a universidade
brasileira tenha
mais ou menos
o mesmo modelo
que tem a universidade
americana ou
a universidade
inglesa. Modelo
estrutural,
institucional,
que nós
mudemos as nossas
instituições
aqui para caminharmos
nessa direção”
(2000: 47).
O grande logro
histórico
do projeto de
organização
social é
o de que, no
Brasil, o público,
depois de 1930
(portanto, depois
da crise do
Estado liberal
excludente),
esteve vinculado,
de uma maneira
ou de outra,
à esfera
e ao protagonismo
do Estado. A
sociedade civil
brasileira deve
conservar aprofundando
– e privilegiando
–, a intervenção
na esfera público-estatal,
avançando
no controle
público
dessa esfera.
Que tal o controle
social do Banco
Central? O orçamento
participativo
nas prefeituras
administradas
pelo PT, pelo
menos em seu
início
(hoje a experiência
encontra-se
estacionada
ou até
regrediu), tinha
esse significado:
tratava-se de
ir ocupando,
aos poucos,
mas de maneira
crescente, espaços
populares de
poder na execução
orçamentária
municipal, de
modo a competir
com outros interesses
em presença
na partilha
do fundo público.
Serve a lição
histórica:
os processos
de acumulação
de capital e
poder nunca
foram contrabalançados,
no movimento
da correlação
de forças,
entre nós
(salvo em raros
exemplos pontuais
mais recentes),
pelo ativismo
forte de instituições
sociais de interesse
público.
Cidadania e
trabalho não
conseguiram,
através
de um longo
processo de
luta política,
apesar dos esforços
tenazes, constituir
uma sólida
esfera pública
de regulação
econômica
do capital,
na qual fossem
consignados
direitos civis
e sociais razoavelmente
imunizados dos
ciclos de expansão
e contração
capitalista.
Mais que um
Estado de bem-estar
social em moldes
europeus, constituímos
historicamente
um Estado de
regulações
ad hoc.
O programa Universidade
Paratodos (ProUni),
concebido pelo
ministro Tarso
Genro e o assessor
Fernando Haddad,
não rompe
a lógica
acima descrita.
Pelo contrário.
Em primeiro
lugar, devemos
questionar o
conceito de
vagas ociosas
nas instituições
privadas: o
que na verdade
existe são
vagas virtuais,
uma mágica
escriturária,
atinente ao
número
ofertado pela
instituição
no edital do
vestibular.
Ora, como a
gerência
do setor privado
é flexível,
os custos (salários,
instalações
físicas,
etc.) das vagas
dizem respeito
à cobertura
das vagas realmente
ocupadas após
a matrícula,
não às
virtuais (Helene,
2004: 66). Não
faz sentido,
portanto, como
faz o ministro
Tarso Genro
(2004: 10),
argüir
o conceito econômico
de “capital
morto”
– que
vem a ser parte
do capital constante
despedida na
compra de máquinas
e instalações
(capital fixo),
em um ciclo
de reprodução
do capital do
passado –
para justificar
o programa,
pois além
de não
estamos em uma
fábrica,
a lógica
econômica
em análise
parece ter a
forma da outra
parte da composição
do capital constante,
a circulante
(as vagas compõem
o ciclo de negócios
da universidade
privada de maneira
semelhante às
matérias
primas, como
o algodão
ou as fibras
sintéticas
na industria
têxtil).
Talvez por isso
(compor a parte
circulante do
capital constante
e não
o capital morto),
as chamadas
“vagas
ociosas”
serão
compradas “mediante
baixo custo”,
como lembra
o ministro (2004:
10).
Não
é no
âmbito
estrito das
categorias da
economia política,
contudo, que
reside a principal
crítica
a ser feita.
Há uma
segunda: a diluição,
ou até
a abolição,
de fronteiras
entre a esfera
pública
e a esfera privada,
no estabelecimento
de uma relação
na qual o Estado
pode prover
e financiar,
indistintamente,
qualquer uma
das duas esferas,
mediante a finalidade
abstrata do
serviço
prestado; no
caso, o ensino.
Assim procedendo,
estaremos tão
somente atualizando
e aprofundando,
em um novo momento
correspondente
a novas necessidades,
a lógica
histórica
vigente no ensino
superior brasileiro,
desde os tempos
da modernização
conservadora
dos militares
(como esperamos
ter minimamente
demonstrado
ao longo do
artigo), pois
se trata de
compra de vagas
sem regulação
pública
(prevê-se
apenas um contrato
entre a faculdade
e o MEC) e sem
definição
de um padrão
unitário
(mantendo-se,
portanto, a
discrepância
de qualidade
entre a maioria
das instituições
publicas e privadas).
Embora seja
um crítico
retórico
da proposta
de transformação
da universidade
em organização
social (2004:
04) do governo
anterior, aparentemente
fazendo coro
com Chauí,
Tarso Genro
opera com quase
os mesmos preceitos
de Bresser Pereira
no que tange
à montagem
de uma esfera
pública
não-estatal
parecida com
a sociedade
civil dos Estados
Unidos e da
Grã-Bretanha,
ou seja, preconiza
a consolidação
entre nós
de uma esfera
de serviços
sociais competitivos,
envolvendo serviços
sociais do Estado
e do mercado,
a serem hipoteticamente
definidos pelos
resultados públicos.
Para ele (2004:
04), o público
deve ser definido
não somente
pelo “caráter”,
mas pelo “sentido”.
Porém,
definir pelo
“sentido”
não será
criar uma espécie
de “zona
de sombras”,
um campo indefinido,
entre o público
e o privado,
no qual o segundo
levará
vantagens? Como
o programa Universidade
Paratodos opera
com uma definição
pelo “sentido”
(só pode
advir do “sentido”
as curiosas
expressões
do ministro,
tais como estatização,
publicização
e expropriação,
a propósito
de isenção
de impostos)
e não
pelo “caráter”,
objetivamente,
não fortalecerá
o privado em
detrimento do
público?
Preferimos afirmar,
em contraponto,
que o público,
quanto de se
trata de serviços
sociais, deve
ser definido
principalmente
por um necessário
conteúdo
(que envolve
e supera “caráter”
e “sentido”)
não mercadorizável
(ou em processo
de desmercadorização),
abarca meios
e não
somente fins
públicos.
De boas intenções
(de bons sentidos?),
o inferno anda
cheio.
Last but not
least, passemos
a Giannotti.
No caso de Giannotti,
suas idéias
sobre a crise
da Universidade
não podem
ser desligadas
de sua análise
sobre as mutações
do capitalismo
contemporâneo.
Daí dimana
uma visão
conformista
das possibilidades
de países
de tope médio
como o Brasil
na concorrência
científica
e tecnológica,
pois, para Giannotti
(1987: 111),
é “inócuo
(...) tentar
competir nas
ciências
e tecnologias
de ponta; não
temos recursos
materiais nem
intelectuais
para isso. Só
nos resta a
saída
de montar uma
política
para a ciência
pobre”.
Giannotti argüi
a verdades,
porém,
parcialmente:
um problema
eminentemente
político,
que diz respeito
às escolhas
e possibilidades
da Nação,
parece transformar-se
numa lógica
rígida,
numa espécie
de clausula
pétrea.
O autor acerta
quando afirma
que a principal
característica
da inovação
tecnológica
hoje é
a velocidade
programada na
obsolescência
das tecnologias
e o controle
monopólico
das patentes
em poucos países
e empresas.
Sem dúvida
perdemos o bonde.
Tal realidade
acarreta, como
afirma Oliveira
(2003: 121-150),
que perdemos
as “brechas”
desenvolvimentistas
da época
do fordismo
(Era Vargas),
quando o subdesenvolvimento
e o Estado permitiam,
a nações
com possibilidades
de criação
de um forte
mercado interno,
a efetivação
de uma poupança
forçada
pelos meios
de acumulação
primitiva; e
a maturação
do tempo da
inovação
tecnológica,
em plano internacional,
consentia a
virtualidade
da cópia.
Dado a oportunidade
perdida da época
histórica,
não alçamos,
pelos duros
caminhos das
“virtudes
do atraso”,
a independência
tecnológica
das principais
nações
do globo.
Contudo, não
há situação
sem saída.
Evidentemente,
para sair do
impasse atual,
o Brasil precisa
realizar dois
ativismos políticos
fortes, com
a colaboração
indispensável
de uma universidade
reformada em
outros termos:
um audacioso
programa de
redistribuição
de renda pela
via do emprego
formal e qualificado,
pois não
existe mais
a “brecha”
das formas pré-capitalistas
e semiqualificadas
de trabalho
combinar um
processo “virtuoso”
de desenvolvimento
com as novas
formas de acumulação
capital-intensivas,
e maciços
investimentos
públicos
em ciência
e tecnologia,
objetivando
montar uma matriz
autônoma
de criação
de patentes
em tecnologia
de ponta (especialmente
na esfera do
conhecimento
molecular-digital).
Na encruzilhada
do subemprego
cooperativo
(bancado pelas
políticas
sociais compensatórias
do Estado),
informalidade
e alta tecnologia
importada, aliás,
reside a fonte
do fenômeno
contemporâneo
da “exclusão”
social –
catadores de
lixo, apanhadores
de latinhas
de cerveja e
vendedores ambulantes
de microeletrônicos
diretamente
integrados –
subordinação
real, e não
mais formal
– ao processo
de valorização
e realização
do capitalismo
contemporâneo.
Realizar esses
dois grandes
ativismos políticos
é a grande
prova da história
do governo Lula.
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