Por Jaldes Reis de Meneses

Comemora-se no mundo inteiro os acontecimentos do 11 setembro – o indiscutível feito histórico em que membros do grupo fundamentalista árabe Al-Qaeda, na posse de aviões civis de carreira, explodiram em ataque suicida as duas Torres do Word Trade Center (símbolo do capital financeiro) e do Pentágono (poder militar), antes lembrando que fracassou o ataque ao símbolo maior do poder político, o avião destinado à Casa Branca, não cumpriu o destino e espatifou-se numa fazenda, graças à ação heróica, de efeitos bastante reais, da própria tripulação do vôo 93 da United Airlines.

Jamais o território americano no século XX, recém findo, tinha sido objeto de um ataque de guerra. De pronto, para surpresa de muitos, revelou-se que poderio norte-americano estava não estava de imediato a postos para o contra-ataque. A imediata reação não houve, mas sim uma nítida desorientação de comando, cujo emblema nítido chegou-nos através da imagem do presidente George W. Bush, flagrado com ar atrapalhando em visita a uma creche na Flórida, dos que, nas horas difíceis, não sabem bem o que fazer. O chefe de Estado desapareceu por uma tarde inteira, deixando um vazio de poder.

Durante algumas horas a nação mais poderosa do mundo parecia ter desorganizado o Estado, embora, nas sombras, o serviço secreto (que falhara clamorosamente em prever o ataque) estivesse agindo, monitorando os passos do presidente, ensaiando a conta-ofensiva, que chegou feito um tratamento de choque, visando provocar uma catarse no espírito patriótico do povo americano. De repente, arquivando o individualismo solitário da sociedade neoliberal de consumo, as pessoas foram interpeladas a se verem como irmãos, como membros de uma única comunidade heróica (religiosa e puritana). Os divertimentos mundanos da Broadway ficaram à mosca.

A onda de catarse fora a oportunidade que faltava aos assessores neoconservadores que cercavam o presidente Bush filho de lançar as teses da guerra preventiva ao terror e (re)editar, no vácuo do fim da concorrência soviética pelo poder mundial, o projeto de Império americano. Deve-se observar que as bases do projeto de Império já estavam inscritas na campanha da primeira Guerra do Golfo (1991), comandada por Bush pai, mas foram suspensas pelo projeto multiculturalista liberal de Bill Clinton. Por obra das artes da Al-Qaeda, um presidente de mandato contestado e sem projeto estratégico coerentemente definido (até aquele momento, o discurso de Bush filho voltava-se para dentro dos EUA, com ênfase num conceito insípido – surpr eendentemente neo-rousseauniano para um conservador –, de “compaixão”), enfim, adquiriu um programa de ação, uma interpelação hegemônica ao povo americano, reunindo, numa só cápsula, intelectuais neoconservadores e fundamentalistas cristãos. Chegara à hora de empreender à “nova cruzada” do Bem contra o Mal, no qual as teorias do “choque de civilizações” (Samuel Huntington) entre o ocidente e o Islã caiam como excelente pretexto.

Impressionante, passados 10 anos, como todas essas idéias do “choque de civilizações” e do “Império” ficaram datadas. Resistem como assombrações, mas são idéias derrotadas, e neste sentido a primeira década do milênio ficará marcada como de fracasso das idéias do neoconservadorismo e do “choque de civilizações”.

Agora giro um pouco o foco do artigo da direita à esquerda. Tivemos algumas opiniões de gozo e revanche com o acontecimento (gozar pela revanche é sempre uma forma de má consciência, além de impotência). Os gozos invocaram o sortilégio das coincidências, ou, como desejam os crentes, das premonições.

Logo no calor do fato, lembrou-se que no mesmo dia de 1973, no Chile, o presidente Salvador Allende, apeado por um golpe de Estado com explicita colaboração da CIA, pôs fim à própria vida no Palácio La Moneda. Antigos esquerdistas latino-americanos se sentiram como que “vingados” com a coincidência, em mostra obscena de retorno de um recalque, uma ferida não cicatrizada. O ataque a Manhattan, difusamente, já tinha seu imaginário: desarquivou-se um poema de Carlos Drummond de Andrade, “Elegia 1938”, no qual, em verso que voltou a ser famoso, o poeta afirma ao mesmo tempo vontade e impotência – “não podes, sozinho, dinamitar as ilha de Manhattan”. Depois, último sortilégio, 11 de setembro é a data de aniversá rio de nascimento do filósofo alemão Theodor Adorno, o desencantado teórico da “dialética negativa” do tempo histórico, o homem que descrês da possibilidade da poesia após o holocausto em Auschwitz. Pode haver algum fio da meada nas coincidências disparataras?

Retrospectivamente, parece-me que sim, mas aduzindo que esses sortilégios só passaram a ter sentido com o “grande Evento” (Événement) produzido pela Al-Qaeda. Ao tecer um sentido retrospectivo em fatos e atos aparentemente disparatados, é possível transpor o terreno das superstições a adentrar o terreno da história. Os fatos nunca falam em si e por si, vão pedir esclarecimento através do arsenal de idéias disponíveis. Afinal, tecer considerações de sentido retrospectivo sobre o tempo não era o trabalho dialético da coruja de Minerva de Hegel? – aquela que saía da toca para inspecionar na madrugada o trabalho dos homens enquanto eles estavam dormindo.

Sem dúvida, antes de tudo, o ataque de 11 de setembro produziu mudanças na sensibilidade histórica. No período compreendido entre a queda do Muro de Berlim (1989) e o ataque às Torres Gêmeas (2001), a sensibilidade histórica dominante compunha-se principalmente de duas teses bloqueadoras da imaginação social: no establishment político, vigorava a teoria do “fim da história” (Francis Fukuyama) – a crença de que a democracia liberal seria o último dos regimes políticos –, ao passo que, alternativamente, no que sobrou das esquerdas viúvas da débâcle da URSS, a audiência se voltava preferencialmente para as teorias pós-modernas de celebração, que pres supunham que as “grandes narrativas”, especialmente o marxismo, perderam aderência à realidade, tratando-se, doravante, de atuar nos limitados interstícios do cotidiano, de olho na particularidade específica de cada movimento social, eximindo-se de afrontar diretamente o poder de Estado.

Não há alternativas, era o bordão incessantemente repetido.

Paradoxalmente, tanto a teoria do fim da história como a do fim das metanarrativas compunham duas faces da mesma moeda. Embora distintas ideologicamente, as duas teses genéricas liquidavam a possibilidade do grande Evento (com letras maiúsculas). Adeus revolução francesa, adeus Revolução russa. A crítica mais sintética da desimportância do Evento na história pode ser resumida na bela frase do historiador francês Fernand Braudel, para quem “Os acontecimentos são como vagalumes na noite brasileira: eles brilham, mas não iluminam o caminho”. Pois bem, junto com o ataque às Torres Gêmeas, o grande “Evento” fez implodir essas duas concepções de história, verdadeiros sensos comuns do fim de século XX. Toda essa bruma ideológica de cegueira para a importância histórica do Evento espatifou-se.

Na verdade, o debate historiográfico sobre o Evento é relativamente antigo, remonta ao século XIX, a propósito do balanço do processo da Revolução Francesa. Coube talvez ao aristocrata liberal francês Alexis de Tocqueville ter elaborado o argumento mais engenhoso sobre a desimportância do Evento. Deste então o argumento fez fortuna e passou a ser repetido: segundo Tocqueville as mudanças produzidas pelas revoluções burguesas do século XIX já vinham sendo feitas homeopaticamente e de maneira indolor pelas monarquias absolutas.

O desenvolvimento do argumento leva ao seguinte corolário: não seria a irrupção do Evento um sacrifício ocioso? Anos mais tarde, Georg Lukács (1969) polemiza admiravelmente o argumento de Tocqueville: “Que significado tem o modo pelo qual os homens julgam o seu próprio passado (…)? A cultura burguesa (…) demonstrou através de Tocqueville (…) que a luta contra o feudalismo teve certa continuidade, a partir de Luís XVI, na direção da centralização (…). Isso é parcialmente verdadeiro. Mas há um episódio determinante e decisivo, ou seja, aquele que diz respeito à fratura revolucionária, à destruição da Bastilha. Hoje, decorridos bem mais de um século e meio, o povo de Paris, a cada ano, comemora a festa de 14 de julho, ficando não com a continuidade de Tocqueville, mas com a descontinuidade da destruição da Bastilha.”

A teoria social já vinha recuperando a noção de Evento desde antes do ataque às Torres Gêmeas. No escaninho pós-estruturalista, por exemplo, na chamada fase da surpreendente virada para a importância do sujeito, Michel Foucault, já pensava a revolução iraniana (1979) como a irrupção de um novo sujeito histórico. Para decepção de muitos, o novo sujeito histórico iraniano transformou-se em um regime tirânico, lançando luz sobre a insuficiência do conceito de Foucault, insuficiente para pensar o “dia seguinte” do carnaval revolucionário. Essas são as críticas, corretas, do filósofo Slavoj Zizek (2008) às incursões de Foucault no Evento da Revolução Iraniana (1979). No entanto, a noção de Evento de Zizek, em bora faça argüição ao problema do “dia seguinte”, não oferece solução adequada. Por um relance, Zizek vislumbra o fio da meada da solução, quando, lembrando o tom dos últimos textos políticos de Lukács (2008), fala da continuidade da revolução como a possibilidade de instauração de uma “democracia cotidiana”. Contudo, paradoxalmente, o “dia seguinte” (a construção da “democracia cotidiana”), em Zizek, é de continuidade, em novos moldes, em vez da extinção, do regime de terror.

É ausente em Zizek (como também falta a Alain Badiou e Giles Deleuze, autores em cuja interlocução ele elabora sua noção de Evento) algo remotamente parecido com o conceito de “revolução intelectual e moral”, elaborado por Antonio Gramsci (1999). Resumidamente, o pensador italiano dividia os processos históricos em dois períodos, o período da luta (sangrento, de confronto aberto entre os contendores) e o período ético-político (de elaboração das superestruturas jurídicas e culturais do novo Estado). No período ético-político não cabe a presença, nem minimamente, do terror, sob pena de malogro da “revolução intelectual e moral”. A luta, certamente, continua na segunda fase, porém subordinada ao desenvolvi mento ético. O período da “revolução intelectual e moral” é justamente o enigma não resolvido de todas as revoluções. No entanto, por que ter medo de olhar olho no olho a tragédia e decifrar a esfinge?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LUKÁCS, G. Entrevista. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1969.
__________. Socialismo e democratização. Rio de Janeiro, UFRJ, 2008.
ZIZEK. S. Robespierre – virtude e terror. Rio de Janeiro, Zahar, 2006.
GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira (v. I), 1999.