Rolando Lazarte*

Talvez não haja nada substancialmente novo no que aqui se apresenta. Não estou à procura de novidades, mas talvez até o contrário, algo muito antigo na minha vida, que volta. O sentimento de que a universidade pública, que existe em boa medida às custas dos que nela não entram, dos que embora sejam objeto de teses e dissertações, não ultrapassam os portões de entrada dos campus universitários, a universidade pública, digo, repete e reflete a exclusão social do sistema capitalista.

Fala-se dos pobres, mas não com os pobres. Discrimina-se a quem não usa o discurso padronizado tido como científico. Expropria-se o saber das classes populares e não se lhes devolve nada em roca, com poucas exceções. E é destas exceções que gostaria de me ocupar nestas breves linhas. Desde jovem, tive o sentimento de que a universidade deveria servir para os mais, para os que passam fome, sofrem violência, são submetidos à dominação.

Nunca tive uma visão classista, ideológicamente alinhada com esta ou aquela corrente da esquerda. No entanto, a minha vida estudantil esteve com os que lutavam por um país mais justo, mais atento aos trabalhadores e às suas necessidades, sua cultura, seus projetos de vida. Tivemos a coragem, como estudantes argentinos dos anos 1970 de construir um curso de sociologia voltado para as classes populares, na Universidad Nacional de Cuyo, em Mendoza. Isto não foi bem visto pela reação, e tive que me exilar. Muitos anos depois, ainda continuo pensando que a universidade deveria estar mais atenta aos excluídos e excluídas, aos que mais sofrem, e que nem sempre encontram da parte dos universitários, professores ou estudantes, a necessária sensibilidade que abra espaço para a voz dos de baixo, no recinto acadêmico.

Pouco tempo atrás soube da existência do Movimento das Comunidades Populares, o MCP, que edita os jornais Voz das Comunidades e Voz da Juventude Popular (jvc.jvj@hotmail.com), mostrando a caminhada de mais de 40 anos de um setor da população rural brasileira e das periferias urbanas, que se organiza e trabalha com um projeto autônomo independente de partidos e ideologias. Este movimento tem vários objetivos coincidentes com os da Terapia Comunitária, que atua não apenas na Paraíba, mas no Brasil inteiro, e também no Uruguay, Argentina, Chile, Venezuela, Europa e África. Dentre estes objetivos , partilhados pelos dois movimentos, citarei aqui o empoderamento de comunidades e pessoas, o fortalecimento de vínculos sociais, o reforço das redes solidárias, a defesa da juventude frente ao flagelo das drogas e do alcoolismo.

Meu propósito com estas linhas, é o de chamar a atenção sobre estas formas de ação social que vêm se manifestando como modos concretos de construção de cidadania, abrindo espaços de inclusão social e de proteção da pessoa humana, na contramão das tendências fragmentadoras e alienantes do capitalismo.

*Primeiro Diretor de Comunicação Social da Abratecom (Associação Brasileira de Terapia Comunitária) e professor aposentado da UFPB