{"id":9338,"date":"2014-07-04T09:24:04","date_gmt":"2014-07-04T13:24:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=9338"},"modified":"2014-07-04T09:24:04","modified_gmt":"2014-07-04T13:24:04","slug":"o-real-e-a-farsa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/o-real-e-a-farsa\/","title":{"rendered":"O real e a farsa"},"content":{"rendered":"<p><em>Aos 20 anos de edi\u00e7\u00e3o do Plano Real<\/em><\/p>\n<p><em>Jaldes Meneses<\/em><\/p>\n<p><em>Professor Associado do Departamento de Hist\u00f3ria da UFPB<\/em><\/p>\n<p>O Plano Real completa 20 anos. S\u00e3o, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, 20 anos de incompreens\u00e3o das molas mestras do conte\u00fado do plano. A vers\u00e3o mais difundida resume-se a uma edulcorada narrativa de uma epop\u00e9ia: o plano fora concebido por economistas geniais (P\u00e9rsio \u00c1rida, Andr\u00e9 Lara Resende e Edmar Bacha) e um ministro-intelectual capaz de formar equipes (Fernando Henrique Cardoso). Melhor erigir mitos que entender a verdade.<\/p>\n<p>At\u00e9 antes de morrer (qualquer um \u00e9 canonizado no Brasil quando morre), o presidente Itamar Franco era considerado \u2013 n\u00e3o se sabe como, pois ele era o chefe do executivo \u2013, mais um trapalh\u00e3o que um estadista. A opera\u00e7\u00e3o de propaganda de apagamento de Itamar \u2013 como Stalin apagou Trotsky da hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa \u2013 tinha o \u00f3bvio interesse em fazer sobressair o protagonismo dos tucanos e do governo FHC, eleito tr\u00eas meses depois da edi\u00e7\u00e3o do plano, pela da estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e a queda da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Numa das tiradas ret\u00f3ricas a que estava habituada antes de se aposentar da imprensa, a economista Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares costumava dizer que a esquerda brasileira nada entende de dinheiro. Vou mais longe. As pessoas comuns nada entendem de dinheiro. Elas sabem de dinheiro apenas o senso comum: do fetiche que faz da moeda uma esp\u00e9cie de ente natural que surge como retribui\u00e7\u00e3o do trabalho, ou uma m\u00e1gica que se m\u00faltipla nas formas de capital e taxa de juros. As pessoas comuns pouco compreendem as condi\u00e7\u00f5es do dinheiro como monop\u00f3lio do Estado (o direito perp\u00e9tuo de senhoragem, ou seja, de emiss\u00e3o de moeda) e expans\u00e3o de poder no plano das rela\u00e7\u00f5es internacionais (a quest\u00e3o de o d\u00f3lar ser a moeda comum de c\u00e2mbio de neg\u00f3cios entre as na\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p>A saga mais difundida do \u00eaxito do Plano Real (por isso a canoniza\u00e7\u00e3o da equipe econ\u00f4mica de FHC) privilegia apenas um lado da moeda: a \u00eanfase no diagn\u00f3stico da \u201cinfla\u00e7\u00e3o inercial\u201d, introduzida no Brasil pela corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria (reminisc\u00eancia do come\u00e7o da ditadura, governo Castello) e expandida atrav\u00e9s dos mecanismos de indexa\u00e7\u00e3o salarial (governo Sarney), derrubados pelo criativo mecanismo de cria\u00e7\u00e3o de uma moeda cont\u00e1bil (a URV, algu\u00e9m lembra?), que ia \u201cabsorvendo\u201d a hiperinfla\u00e7\u00e3o em moeda antiga, at\u00e9 ser introduzida no mercado a moeda nova, o real. Esta sem d\u00favida \u00e9 uma parte da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A parte esquecida diz respeito ao fato que, no mesmo per\u00edodo, atrav\u00e9s de diversos mecanismos, a infla\u00e7\u00e3o foi derrubada no mundo inteiro. O mais tr\u00e1gico desses mecanismos foi o Currency Board argentino, ou seja, a paridade 1 peso\/1 d\u00f3lar, cuja d\u00edvida impag\u00e1vel que gerou at\u00e9 hoje inferniza los hermanos nos tribunais de Wall Street. Logo que o Real saiu valia at\u00e9 mais que 1 d\u00f3lar. FHC aguentou at\u00e9 1999, depois de reeleito e a economia brasileira insolvente, finalmente resolveu desatrelar a paridade.<\/p>\n<p>O Plano Real, \u00e9 preciso que se diga, n\u00e3o foi uma solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica retirada da cartola de um soci\u00f3logo brilhante e seus jovens assessores formados nas melhores Universidades norte-americanas. Esta \u00e9 uma parte da verdade, a mais fantasiosa. Estes g\u00eanios de ocasi\u00e3o, enquanto analistas tarimbados de an\u00e1lise de conjuntura econ\u00f4mica, se aproveitaram uma situa\u00e7\u00e3o conjuntural favor\u00e1vel para a atra\u00e7\u00e3o de capitais especulativos pelos pa\u00edses latino-americanos ap\u00f3s 1987, quando, para escapar de aguda crise c\u00edclica, o Banco Central dos Estados Unidos (FED), baixou a taxa de juros interna, franqueando os capitais especulativos circularem o mundo em busca da f\u00e1cil remunera\u00e7\u00e3o. O Plano Real e os demais planos de estabiliza\u00e7\u00e3o latino-americanos matava dois coelhos com uma s\u00f3 cajadada: resolvia-se o problema da recess\u00e3o norte-americana e dava-se uma sobrevida \u00e0s economias da Am\u00e9rica Latina combalidas por d\u00edvidas externa banc\u00e1rias impag\u00e1veis, contra\u00eddas nos anos 70.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o os padrinhos de A\u00e9cio Neves, \u00e1vidos em retornar ao poder do Estado brasileiro.<\/p>\n<p><em>blog: http:\/\/jaldes-campodeensaio.blogspot.com\/<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 20 anos de edi\u00e7\u00e3o do Plano Real Jaldes Meneses Professor Associado do Departamento de Hist\u00f3ria da UFPB O Plano Real completa 20 anos. S\u00e3o, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, 20 anos de incompreens\u00e3o das molas mestras do conte\u00fado do plano. 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