{"id":745,"date":"2009-11-18T11:38:28","date_gmt":"2009-11-18T15:38:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=745"},"modified":"2009-11-18T11:38:28","modified_gmt":"2009-11-18T15:38:28","slug":"entrevista-com-o-professor-robert-allen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/entrevista-com-o-professor-robert-allen\/","title":{"rendered":"Entrevista com o professor Robert Allen"},"content":{"rendered":"<p><em>Entrevista concedida pelo Professor Robert Allen, da Universidade da California, Berkeley para o Professor Jaldes Meneses, presidente da ADUFPB:<\/em><\/p>\n<p><strong>1. Prof. Jaldes: <\/strong> Professor Allen, como o Sr. avalia os resultados pol\u00edticos das a\u00e7\u00f5es afirmativas nos \u00faltimos dez anos?<\/p>\n<p><strong>R. Prof Robert:<\/strong><\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es afirmativas t\u00eam sido um t\u00f3pico bastante controvertido desde 1960, quando o presidente Lyndon Johnson as instituiu como uma forma de \u201ccorrigir os efeitos das discrimina\u00e7\u00f5es no passado e no presente\u201d. A lei passou a incidir, especialmente, sobre v\u00e1rios tipos de discrimina\u00e7\u00f5es, incluindo a discrimina\u00e7\u00e3o racial, cor, religi\u00e3o, g\u00eanero ou origem nacional. Al\u00e9m de punir os infratores, a lei tamb\u00e9m solicitava aos empregadores que adotassem \u201cuma a\u00e7\u00e3o afirmativa\u201d para concederem emprego \u00e0s pessoas protegidas por essas categorias. Os empregadores do Governo Federal teriam que fazer relat\u00f3rios sobre os resultados da concess\u00e3o de empregos, incluindo cotas para conseguirem o objetivo esperado. Os oponentes \u00e0s a\u00e7\u00f5es afirmativas impetraram recursos, afirmando que isso era uma \u201cdiscrimina\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria\u201d que desfavorecia os brancos. Em 1978, a Corte Suprema Norte-americana regulamentou que as cotas n\u00e3o seriam usadas na universidade, mas que a luta pela \u201cdiversidade\u201d na educa\u00e7\u00e3o superior era uma fato v\u00e1lido por considerarem a quest\u00e3o racial um aspecto importante, dentro das admiss\u00f5es nas universidades. Entretanto, em 1996 (e depois, em outros Estados) leis foram institu\u00eddas, banindo efetivamente a\u00e7\u00f5es afirmativas baseadas de acordo com a ra\u00e7a, cor, religi\u00e3o, g\u00eanero, etnicidade e origem nacional. Nesse momento, entretanto, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e demogr\u00e1fica est\u00e1 em pleno fluxo em muitas partes dos Estados Unidos, e isso ter\u00e1 um impacto futuro nas a\u00e7\u00f5es afirmativas. Ironicamente, as \u201cminorias\u201d est\u00e3o emergindo como maiorias em potencial na Calif\u00f3rnia e em outros Estados. Se minorias registram-se para votarem em propor\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros populacionais que representam, demograficamente poder\u00e3o se tornar maiorias em alguns anos. A direita entende essa propor\u00e7\u00e3o e procura desencorajar o n\u00famero de votantes, por exemplo, pela criminaliza\u00e7\u00e3o dos jovens votantes. Em outras palavras, h\u00e1 diferentes penalidades para traficantes e consumidores de crack frente a consumidores e traficantes de coca\u00edna (o p\u00f3). Atrav\u00e9s dessas leis, os mesmos usu\u00e1rios de drogas e traficantes nas comunidads mais pobres de cor s\u00e3o, severamente, punidos em escala muito maior do que os brancos usus\u00e1rios e consumidores de classe m\u00e9dia branca. Felizmente, a administra\u00e7\u00e3o do presidente Obama prop\u00f4s eliminar essa desigualdade. Muitos Estados possuem essas leis e se algu\u00e9m for condenado uma terceira vez por certas infra\u00e7\u00f5es (three strikes), a pessoa receber\u00e1 a senten\u00e7a m\u00e1xima: 25 anos de cadeia. Essas leis afetam, principalmente, os jovens pertencentes \u00e0s comunidades de cor, como um meio de neutralizar a comunidade do ponto de vista pol\u00edtico. Uma vez condenada, a pessoa perde o direito de votar. N\u00e3o \u00e9 um fato acidental a realidade das pris\u00f5es norte-americanas, onde a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composta de jovens negros.<\/p>\n<p>O poder de voto das minorias, como se pode observar, foi demonstrado pela elei\u00e7\u00e3o do presidente Barack Obama. Ele recebeu somente 43% dos votos de brancos, mas conseguiu uma maioria bastante significativa entre as pessoas de cor. A maioria dos jovens brancos deu a ele os votos de que ele precisava para ganhar. Considero esse fato como a emerg\u00eancia de uma maioria progressiva que est\u00e1 emergindo nos Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>2. Prof. Jaldes: <\/strong>Qual a sua opini\u00e3o pessoal sobre a influ\u00eancia pol\u00edtica na elabora\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas afirmativas aqui no Brasil, atualmente?<\/p>\n<p><strong>R. Prof. Allen: <\/strong>Infelizmente n\u00e3o tenho muitas informa\u00e7\u00f5es sobre o assunto, porque n\u00e3o sou brasilianista.<\/p>\n<p><strong>3. Prof. Jaldes:<\/strong> O conceito de ra\u00e7a \u00e9 um dos mais pol\u00eamicos temas da sociologia. Qual a sua opini\u00e3o sobre esse conceito em geral?<\/p>\n<p><strong>R. Prof. Robert: <\/strong>O conceito de ra\u00e7a \u00e9 controvertido porque \u00e9 insuficiente e pobre para incorporar os seres humanos dentro da hierarquia racial. Ra\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um conceito cient\u00edfico. Ele encontra-se veiculado ao colonialismo e \u00e0 escravid\u00e3o, como um instrumento para classificar e organizar as pessoas dentro das categorias como colonizador\/colonizado, escravizador\/escravizado. Apesar dos direitos civis e igual tratamento conferido pelas leis, o conceito de ra\u00e7a hoje permanece como um significado marcante da diferen\u00e7a e organizador das sociedades humanas. Dessa forma, ra\u00e7a significa um conceito sociol\u00f3gico, embora, atrav\u00e9s da biologia e dos fundamentos legais esse conceito tenha sido minimizado. Ele permanece significante por conta das institui\u00e7\u00f5es sociais, costumes profundamente enraizados nas lentas modifica\u00e7\u00f5es do sistema \u2013 h\u00e1 ainda setores da sociedade que tiram vantagens da divis\u00e3o social e da discrimina\u00e7\u00e3o. Nos Estados Unidos, ra\u00e7a tem sido tamb\u00e9m uma marca das diferen\u00e7as culturais e \u00e9tnicas e eu acredito que o conceito de ra\u00e7a persistir\u00e1 enquanto essas diferen\u00e7as ocorrerem. Eu tenho a pele clara, mas cresci na segregada comunidade afro-americana no sul dos Estados Unidos. Por uma \u201cgota de sangue negro\u201d eu sou classificado legalmente como negro e, portanto, restrito \u00e0 comunidade afro-americana. Por ter crescido na comunidade negra, eu me \u201csinto\u201d inteiramente afro-americano. Essa \u00e9 a forma de como me identifico. Todas as minhas experi\u00eancias de minha forma\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00f5es est\u00e3o atadas \u00e0 comunidade afro-americana. Atrav\u00e9s dos anos, os afro-americanos t\u00eam lutado para serem chamados de pessoas de cor, negro, preto, afro-americano. Acredito que essa luta reflete o nosso desejo de rejeitar os estere\u00f3tipos negativos que foram impostos pela sociedade branca. Escravizados, os africanos de muitas na\u00e7\u00f5es misturaram-se e transformaram-se em uma nova cultura, atrav\u00e9s de v\u00e1rias combina\u00e7\u00f5es, chamada afro-americana. Nesse caso, ra\u00e7a \u00e9 um conceito que nasceu da escravid\u00e3o e transformou-se em um conceito cultural que expressa uma nova identidade. Quando n\u00e3o houver nenhuma vantagem associada \u00e0 \u201cbrancura\u201d e nem nenhuma desvantagem associada \u00e0 \u201cnegritude\u201d, o conceito de ra\u00e7a n\u00e3o desaparecer\u00e1 mas n\u00e3o ter\u00e1 mais poder em nossas vidas. Ser\u00e1 apenas um tra\u00e7o interessante como a cor do cabelo e a cor dos olhos e uma marca benigna da diferen\u00e7a cultural.<\/p>\n<p><strong>4. Prof. Jaldes:<\/strong> O senhor acredita que a elei\u00e7\u00e3o do President Barack Obama ir\u00e1 afetar a luta pela igualdade racial nos Estados Unidos?<\/p>\n<p><strong>R. Prof. Allen:<\/strong> Mesmo como presidente, Obama enfrentou uma s\u00e9rie de ataques pessoais por causa de suas ra\u00edzes mesti\u00e7as e a sua identidade como um homem negro. Isso significa que mesmo como cidad\u00e3o norte-americano, ele \u00e9 tamb\u00e9m vulner\u00e1vel aos abusos causados pelo racismo. No tempo de sua elei\u00e7\u00e3o, Obama afirmou que: \u201cEssa vit\u00f3ria, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 a mudan\u00e7a que procuramos, ela \u00e9 apenas uma chance para fazermos as coisas mudarem.\u201d E acho que a sua elei\u00e7\u00e3o \u00e9 o in\u00edcio de uma sociedade menos racializada. Todavia, eu acho que ele \u00e9 bastante realista e entende que a sua elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudar\u00e1 as cren\u00e7as b\u00e1sicas, valores ou pr\u00e1ticas sociais. Testemunhamos momentos interessantes nessa elei\u00e7\u00e3o, como por exemplo, racistas votando em Obama, simplesmente porque ele representava os seus interesses de classe, mas eles continuam mantendo id\u00e9ias racistas sobre os negros em geral. A campanha de Obama uniu pessoas de v\u00e1rias origens \u00e9tnicas, trabalhando por uma causa comum. Para muitos, essa foi a primeira vez que se envolveram na pol\u00edtica e, pela primeira vez, trabalharam com pessoas de diferentes ra\u00e7as. Sobre isso, eu acredito que esse fato constitui uma esperan\u00e7a. A esperan\u00e7a de trabalharmos juntos na dire\u00e7\u00e3o de um objetivo comum, de um destino compartilhado que transcenda as diferen\u00e7as raciais. \u00c9 nesses milhares e em outros como esses, que compartilhamos o trabalho e a luta atrav\u00e9s da quest\u00e3o racial e, assim, poderemos levar uma mensagem para um p\u00fablico cada vez maior do que a divis\u00e3o racial constru\u00edda. N\u00e3o acredito que a sociedade norte-americana atual seja essa sociedade p\u00f3s-racial, mas eu acho que poderemos construir uma sociedade mais igualit\u00e1ria atrav\u00e9s da qual a ra\u00e7a n\u00e3o seja um determinante prim\u00e1rio de nosso destino.<\/p>\n<p><strong>5. Prof. Jaldes: <\/strong>Professor Allen, em seu artigo, \u201cOs filhos da Globaliza\u00e7\u00e3o\u201d, o Sr. demonstra muito entusiasmo com a \u201cmiscigena\u00e7\u00e3o\u201d da sociedade norte-americana. Como o Sr. acha que \u201cOs filhos da globaliza\u00e7\u00e3o\u201d ir\u00e3o lidar com as diferen\u00e7as de classe entre eles. O Sr. n\u00e3o acha que o racismo poder\u00e1 ainda prevalecer entre esses grupos?<\/p>\n<p><strong>R. Prof. Allen: <\/strong>Como voc\u00ea sabe, de acordo com a hist\u00f3ria norte-americana, nenhum grupo est\u00e1 livre do racismo. Mesmo o grupo mais progressista, e mesmo o grupo mais radical conhece as pr\u00e1ticas racistas. Mesmo aqueles que s\u00e3o v\u00edtimas do racismo, poder\u00e3o voltar-se contra algu\u00e9m, discriminando-o. O racismo \u00e9 uma influ\u00eancia mal\u00e9fica nos Estados Unidos como o ar que respiramos. Os filhos da globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o uma exce\u00e7\u00e3o. Ra\u00e7a e classe produzem um impacto de como eles se consideram e como eles consideram os outros. Muitos imigrantes chegam aos Estados Unidos com ideias muito negativas e estereotipadas dos negros americanos que eles absorvem da m\u00eddia global. Viver em uma sociedade, onde claramente os brancos produzem claras vantagens, leva alguns emigrantes e seus filhos a\u00a0 procurarem a distin\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o dos afro-americanos. Ironicamente, a discrimina\u00e7\u00e3o racial for\u00e7a muitos filhos de imigrantes a conviverem atrav\u00e9s das escolas com os afro-americanos. Os seus filhos, frequentemente, assimilam a cultura da juventude afro-americana, para o horror de seus pais. Apesar da imagem negativa que a juventude negra transmite, ela \u00e9 tamb\u00e9m uma imagem de resist\u00eancia cultural. Ela \u00e9 uma cultura que n\u00e3o deixa de questionar o racismo. Para a juventude, o hip-hop conclama a todos para luta pelo poder, como uma mensagem positiva, embora seja um fator de muita preocupa\u00e7\u00e3o por parte dos pais. A cultura da juventude negra \u00e9 uma fonte de identidade comum para muitos jovens que n\u00e3o s\u00e3o negros. \u00c9, tamb\u00e9m, uma fonte das pol\u00edticas anti-racistas, expressada por uma linguagem dirigida \u00e0 juventude. Como um professor da Universidade da Calif\u00f3rnia, \u00e9 interessante ver que a maioria dos militantes e as suas organiza\u00e7\u00f5es anti-racistas s\u00e3o compostas por filhos de imigrantes. Ao contr\u00e1rio da timidez de seus pais, distantes do confronto pol\u00edtico, os filhos dos imigrantes s\u00e3o cidad\u00e3os norte-americanos que se consideram norte-americanos, como quaisquer outros. Eles, deliberadamente, engajam-se em passeatas pol\u00edticas de protesto e campanhas pol\u00edticas garantidas pelos seus direitos de nascimento. Como uma juventude americanizada, eles est\u00e3o comprometidos com a liberdade de express\u00e3o com o mais elevado objetivo. Esse fator os torna aliados propositais, ou n\u00e3o, pelas liberdades, muitas vezes, negada.<\/p>\n<p><strong>Prof.Jaldes:<\/strong> Obrigado professor por sua participa\u00e7\u00e3o em nome da ADUFP<\/p>\n<p><strong>Prof.Allen: <\/strong>De nada professor Jaldes, foi um prazer colaborar com voc\u00eas e estar na UFPB.<\/p>\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Z\u00e9lia M.Bora<\/strong><\/p>\n<p>10 de novembro 2009<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista concedida pelo Professor Robert Allen, da Universidade da California, Berkeley para o Professor Jaldes Meneses, presidente da ADUFPB: 1. 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