{"id":595,"date":"2009-10-20T14:27:57","date_gmt":"2009-10-20T18:27:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=595"},"modified":"2009-10-20T14:27:57","modified_gmt":"2009-10-20T18:27:57","slug":"fim-da-era-dos-movimentos-sociais-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/fim-da-era-dos-movimentos-sociais-brasileiros\/","title":{"rendered":"Fim da era dos movimentos sociais brasileiros"},"content":{"rendered":"<p><strong>RUD\u00c1 RICCI<\/strong><\/p>\n<p><em>Os movimentos sociais que antes exigiam inclus\u00e3o social ingressaram no Estado e foram engolidos pela l\u00f3gica da burocracia p\u00fablica <\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-596\" title=\"RUD\u00c1 RICCI\" src=\"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/RUD\u00c1-RICCI.jpg\" alt=\"RUD\u00c1 RICCI\" width=\"125\" height=\"135\" \/>ENTRE MUITAS diverg\u00eancias, h\u00e1 um consenso entre estudiosos dos movimentos sociais: todos s\u00e3o formados a partir de espa\u00e7os n\u00e3o consolidados das estruturas e organiza\u00e7\u00f5es sociais. Ocorre que, nos anos 1990, muitos movimentos sociais se institucionalizaram.<br \/>\nDiversos ensaios recentes revelam essa forte institucionaliza\u00e7\u00e3o e segmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social nas experi\u00eancias associativas, al\u00e9m de avaliar o processo de participa\u00e7\u00e3o social nas experi\u00eancias de gest\u00e3o participativa (como a do or\u00e7amento participativo).<br \/>\nMesmo na Am\u00e9rica Latina, v\u00e1rios estudos (como o de Christian Adel Mirza, &#8220;Movimientos sociales y sistemas pol\u00edticos en Am\u00e9rica Latina&#8221;, publicado pelo Clacso) relacionam nitidamente aquele conceito de movimento social (n\u00e3o institucionalizado) com o Estado e institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dos pa\u00edses do continente.<br \/>\nFica a d\u00favida: a &#8220;era dos movimentos sociais&#8221; teria terminado no Brasil? A fragmenta\u00e7\u00e3o social em curso e a amp lia\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil no interior do aparelho do Estado teriam reformatado o que antes denomin\u00e1vamos &#8220;movimentos sociais&#8221;? Os movimentos sociais brasileiros s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es ou parte integrante de an\u00e9is burocr\u00e1ticos de elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas?<br \/>\nSegundo o IBGE, 75% dos munic\u00edpios brasileiros adotam alguma modalidade de participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil na determina\u00e7\u00e3o de prioridades or\u00e7ament\u00e1rias na \u00e1rea social.<br \/>\nMotivados ou premidos pelas exig\u00eancias constitucionais, pelos conv\u00eanios com \u00f3rg\u00e3os federais (dados importantes fornecidos pelo IBGE revelam que governadores e minist\u00e9rios lideram a cria\u00e7\u00e3o de conselhos de gest\u00e3o p\u00fablica parit\u00e1rios, muito acima das a\u00e7\u00f5es de prefeitos brasileiros) e Minist\u00e9rio P\u00fablico, prefeitos de todo o pa\u00eds institucionalizam (e, muitas vezes, traduzem ou interpretam a partir de seu ide\u00e1rio peculiar) v\u00e1rios mecanismos de gest\u00e3o participativa na delibera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas locais.<br \/>\nSe localidades rurais, conselhos de desenvolvimento rural sustent\u00e1vel, de meio ambiente ou de bacias hidrogr\u00e1ficas pululam. Se localidades urbanas, conselhos de sa\u00fade, assist\u00eancia social e direitos da crian\u00e7a e do adolescente proliferam. Onde estariam os movimentos sociais que antes exigiam inclus\u00e3o social e fim da marginaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica?<br \/>\nEst\u00e3o todos nesses conselhos e nas novas estruturas de gest\u00e3o p\u00fablica.<br \/>\nAo ingressarem no mundo e na l\u00f3gica do Estado, poderiam construir uma nova institucionalidade p\u00fablica.<br \/>\nPor\u00e9m, foram engolidos pela l\u00f3gica da burocracia p\u00fablica.<br \/>\nA multiplica\u00e7\u00e3o das confer\u00eancias de direitos n\u00e3o foram incorporadas \u00e0s pe\u00e7as or\u00e7ament\u00e1rias na maioria dos entes federativos. N\u00e3o alteramos a l\u00f3gica de funcionamento e de execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria efetivamente.<br \/>\nO aumento da participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil na gest\u00e3o p\u00fablica tamb\u00e9m n\u00e3o ensejou mudan\u00e7a na estrutura burocr\u00e1tica altamente vert icalizada e especializada do Estado brasileiro nas tr\u00eas esferas executivas.<br \/>\nEnfim, o ide\u00e1rio anti-institucionalista dos movimentos sociais brasileiros dos anos 80 converteu-se ao ide\u00e1rio do Estado que atacavam. Talvez por inconsist\u00eancia te\u00f3rica e program\u00e1tica, pautados pela mera nega\u00e7\u00e3o ou pelo sentimento de injusti\u00e7a. Mas, talvez, por excesso de partidariza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais.<br \/>\nNos anos 80, n\u00e3o por coincid\u00eancia, Frei Betto sugeria que sindicatos, partidos e organiza\u00e7\u00f5es sociais eram ferramentas do que denominava &#8220;movimento popular&#8221;.<br \/>\nTal concep\u00e7\u00e3o fomentou a cria\u00e7\u00e3o da Anampos, organiza\u00e7\u00e3o nacional que articulava sindicatos de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura oficial do sindicalismo nacional e movimentos sociais.<br \/>\nO mundo sindical achou caminho alternativo ao ide\u00e1rio dos movimentos sociais e se afastou da Anampos.<br \/>\nE os movimentos sociais?<br \/>\nNos anos 90, eles se atiraram na tarefa de formalizar as estruturas de gest\u00e3o p\u00fabli ca participativa conquistadas na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Mas, a partir das estruturas criadas e com a elei\u00e7\u00e3o de Lula (o \u00edcone do ide\u00e1rio dos anos 80), suas lideran\u00e7as subsumiram \u00e0 l\u00f3gica do Estado. E n\u00e3o conseguiram mais se livrar dela. Basta analisarmos as pautas das confer\u00eancias nacionais de direitos.<br \/>\nS\u00e3o, com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, a agenda definida pelo governo federal.<br \/>\nCompreendo que esse \u00e9 o cen\u00e1rio montado para o drama que se desenrola nos \u00faltimos dias quanto ao futuro do MST. Evidentemente, a organiza\u00e7\u00e3o popular mais poderosa do pa\u00eds, a \u00fanica que ainda consegue gerar mobiliza\u00e7\u00f5es sociais de massa, est\u00e1 se isolando politicamente.<br \/>\nIsola-se a partir do governo que ajudou a desenhar, mesmo que apenas no seu esbo\u00e7o mais geral. E se isola porque seus aliados de antes est\u00e3o imersos nos escaninhos do Estado.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>RUD\u00c1 RICCI, 47, soci\u00f3logo, doutor em ci\u00eancias sociais, \u00e9 membro do F\u00f3rum Brasil de Or\u00e7amento e do Observat\u00f3rio Internacional da Democracia Participativa.<\/p>\n<p>Fonte: Folha de S. Paulo, 20\/10\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RUD\u00c1 RICCI Os movimentos sociais que antes exigiam inclus\u00e3o social ingressaram no Estado e foram engolidos pela l\u00f3gica da burocracia p\u00fablica ENTRE MUITAS diverg\u00eancias, h\u00e1 um consenso entre estudiosos dos movimentos sociais: todos s\u00e3o formados a partir de espa\u00e7os n\u00e3o consolidados das estruturas e organiza\u00e7\u00f5es sociais. 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