{"id":5307,"date":"2013-07-05T12:59:15","date_gmt":"2013-07-05T16:59:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=5307"},"modified":"2014-02-19T16:04:13","modified_gmt":"2014-02-19T20:04:13","slug":"um-pedagogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/um-pedagogo\/","title":{"rendered":"Um Pedagogo"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: small; background-color: #e0e0e0;\">Por <em>Marcos A. R. de barros<\/em> &#8211; Professor Universit\u00e1rio &#8211; marcospesquisa@yahoo.com.br<\/span><\/p>\n<p>Um certo pedagogo e ensa\u00edsta, Ricart Bundala, foi interpelado e, at\u00e9, quase sabatinado por um curioso homem, Jo\u00e3o da Cruz que, de fachada, reproduzia a classe m\u00e9dia fr\u00e1gil, e, por sua avidez sensorial, mostrava-se preocupado com os grandes problemas da educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, formulou v\u00e1rias perguntas impactantes ao Professor Bundala, entre as quais, insistia em saber por que os governos n\u00e3o ofereciam ao povo, verdadeiramente, uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade.<\/p>\n<p>Diante dessa indaga\u00e7\u00e3o, o pedagogo, quase encurralado, apesar de ser um profundo conhecedor do assunto, disse a Jo\u00e3o da Cruz que o tema era muito complexo e que posteriormente ele descobriria a verdade. Meses depois, casualmente, os dois se encontraram em uma pra\u00e7a da cidade, e o simples trabalhador Jo\u00e3o da Cruz, novamente, interpela o Professor Bundala, dizendo: \u201cA educa\u00e7\u00e3o \u00e9 ou n\u00e3o um direito do povo? O que devemos fazer, pedagogo?\u201d Diante de tanta press\u00e3o, Ricart Bundala disse ao amigo trabalhador: \u201cO Estado traduz os interesses das classes dominantes, atrav\u00e9s das v\u00e1rias m\u00eddias e, como tal, n\u00e3o tem interesse em oferecer uma educa\u00e7\u00e3o que liberte, logo, imp\u00f5e uma domina\u00e7\u00e3o expl\u00edcita, atrav\u00e9s da m\u00e1quina estatal, reproduzindo de forma acabada o Status Quo\u201d.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 segunda indaga\u00e7\u00e3o, disse o Professor Bundala, descendo um pouco do seu pedestal: \u201cAconselharia os jovens trabalhadores de todo o mundo a unirem for\u00e7as contra o inimigo comum\u201d. E, logo, Jo\u00e3o da Cruz pergunta: \u201cE quem \u00e9 o inimigo comum?\u201d Bundala, j\u00e1 acostumado com as perguntas do amigo, disse em tom bastante alto: \u201c\u00c9 o &#8220;capitalismo compulsivo\u201d, Jo\u00e3o da Cruz !\u201d Algum tempo depois, Jo\u00e3o, j\u00e1 bastante politizado, passou a frequentar, mais intensamente o seu sindicato e se tornou um atuante l\u00edder, pois pensava sempre nas li\u00e7\u00f5es do amigo professor e procurava, frequentemente, basear-se nos fundamentos pol\u00edticos ensinados pelo mestre, os quais o ajudaram a compreender melhor a sociedade.<\/p>\n<p>Ricart Bundala e Jo\u00e3o da Cruz tornaram-se grandes amigos, e Jo\u00e3o passou a frequentar a casa do pedagogo, para visit\u00e1-lo ou consult\u00e1-lo, uma vez que o companheiro tamb\u00e9m se solidarizava com os problemas do seu sindicato. Depois de algum tempo, Jo\u00e3o da Cruz, j\u00e1 bastante vaidoso, n\u00e3o mais interrogava o mestre com insist\u00eancia, apenas tentava analisar os fatos, dizendo ao Professor Bundala que j\u00e1 entendia claramente a sociedade em que vivia e reconhecia o \u00a0aspecto reprodutivo da estrutura social, mantenedora da contradi\u00e7\u00e3o principal, consequentemente, a preserva\u00e7\u00e3o do poder explorador.<\/p>\n<p>Depois de v\u00e1rios anos, os dois, j\u00e1 mais velhos, encontram-se novamente em uma festa num bairro pobre. Jo\u00e3o da Cruz, agora mais desinibido, e bem informado, elogiou o amigo professor e contou em detalhes sua hist\u00f3ria de luta em defesa dos colegas trabalhadores. Admirado com a desenvoltura e a vibra\u00e7\u00e3o do amigo trabalhador, o Professor Ricart Bundala fez sua reflex\u00e3o e entendeu porque o \u201cbeija-flor\u201d tentava apagar um inc\u00eandio, levando no bico uma gotinha de \u00e1gua de cada vez. Logo, o mestre Bundala admitiu que havia dado o seu recado e recebeu tamb\u00e9m a merecida recompensa, pois, ficara bastante satisfeito em saber que o seu disc\u00edpulo Jo\u00e3o da Cruz avan\u00e7ara cada vez mais na vida, principalmente, como bom sindicalista e ativista pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Dessa forma, o Professor Ricart Bundala compreendeu melhor o seu papel, a import\u00e2ncia dos seus ensinamentos na forma\u00e7\u00e3o dos jovens estudantes e trabalhadores, e que a sua atua\u00e7\u00e3o deve ultrapassar os limites dos muros da Escola e penetrar na sociedade global.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz, sempre visitava o amigo professor, nos s\u00e1bados \u00e0 tarde, hor\u00e1rio em que estava livre do trabalho profissional. E como sempre se preocupava com o pr\u00f3ximo tema que iria apresentar em seu sindicato, falou ao professor Bundala do seu interesse no tema \u201cSa\u00fade p\u00fablica no Brasil\u201d. Logo, o pedagogo disse em tom suave: \u201cO que ocorre com a sa\u00fade p\u00fablica se fundamenta na mesma l\u00f3gica do que acontece com a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica no Brasil\u201d. Assim, reafirmava que os governos n\u00e3o estavam preocupados com a Educa\u00e7\u00e3o e a Sa\u00fade P\u00fablica, e sim, com banqueiros, com os grandes empres\u00e1rios e com o produto interno bruto (PIB). Disse, ainda, que, lamentavelmente, a Educa\u00e7\u00e3o e a Sa\u00fade p\u00fablica, segundo alguns te\u00f3ricos, funcionam como aparelhos ideol\u00f3gicos do poder, mantenedor da estrutura social vigente. Bundala lamentou, dizendo claramente que essa era ainda a \u00f3tica feudal que ainda vigora em pleno s\u00e9culo XXI. Jo\u00e3o da Cruz, homem inteligente e interessado em crescer mais ainda, pergunta ao ensa\u00edsta Bundala: O que devemos fazer, mestre? E, Bundala, feliz ao sentir o interesse de Jo\u00e3o da Cruz em descobrir o caminho do enfrentamento, disse: \u201cAconselharia aos professores, intelectuais s\u00e9rios, trabalhadores, estudantes e o povo em geral a permanecerem mobilizados contra o \u201cinimigo comum\u201d.\u201d<\/p>\n<p>O pedagogo aprofunda o que vem expondo e analisa a sociedade excludente atual, onde o homem \u00e9 levado a uma situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia, caracterizadora do que se pode chamar de \u201csociedade-objeto\u201d, na qual predominam a viol\u00eancia e a banaliza\u00e7\u00e3o, que dilaceram, consequentemente, o homem em sua integralidade. As pessoas s\u00e3o transformadas em objetos de consumo e perdem o sentido da exist\u00eancia, o objetivo da vida. Nesse universo, os jovens s\u00e3o as principais v\u00edtimas, possivelmente, lan\u00e7ados no mundo das drogas e da criminalidade; caminha-se, ent\u00e3o, em uma sociedade sem referenciais. Jo\u00e3o da Cruz, ao ouvir as considera\u00e7\u00f5es do Professor Bundala, pergunta com curiosidade: \u201cSe existe a sociedade objeto, deve existir tamb\u00e9m a sociedade sujeito?\u201d E o pedagogo aproveita a pergunta do curioso Jo\u00e3o da Cruz e explica: \u201cSim, companheiro! N\u00f3s da Am\u00e9rica Latina, formamos as \u201csociedades-objetos\u201d, dependentes dos grandes centros de decis\u00f5es que operam de forma dominante e cruel sobre as sociedades dependentes, impedindo-as de avan\u00e7ar. Infelizmente, os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina ainda comp\u00f5em o bloco das sociedades dependentes, alienadas, \u201cobjetos\u201d da manipula\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00f5es poderosas. Ingenuamente, Jo\u00e3o da Cruz interroga ao professor: \u201cE qual deve ser o caminho da liberta\u00e7\u00e3o?\u201d E Bundala responde: \u201cCriar e lutar pelos fundamentos de uma Educa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, que priorize a cultura e o homem latino-americano numa perspectiva emancipadora\u201d. S\u00f3 assim, nossa Am\u00e9rica Latina entrar\u00e1 no rol das na\u00e7\u00f5es desenvolvidas, passando a ocupar o espa\u00e7o como \u2018sociedades-sujeitos\u2019, capazes de gerir os seus destinos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcos A. R. de barros &#8211; Professor Universit\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-5307","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-16","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5307"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5307\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8000,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5307\/revisions\/8000"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}