{"id":4693,"date":"2013-02-15T22:05:43","date_gmt":"2013-02-16T02:05:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=4693"},"modified":"2014-02-19T16:06:17","modified_gmt":"2014-02-19T20:06:17","slug":"sob-tortura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/sob-tortura\/","title":{"rendered":"Sob tortura"},"content":{"rendered":"<p><em>Jaldes Meneses[1]<\/em><\/p>\n<p><em>A respeito do filme \u201cA hora mais Escura\u201d, a partir de hoje (15\/02), em todos os cinemas brasileiros.<\/em><\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o de cenas de tortura \u00e9 comum no cinema. Poderia citar de cabe\u00e7a uma d\u00fazia de filmes, desde os brasileiros \u201cO caso dos irm\u00e3os Naves\u201d (1971, Luis Carlos Person) e \u201cTropa de Elite\u201d (2007, Jos\u00e9 Padilha), os europeus \u201cA batalha de Argel\u201d (1966, Gillo Pontecorvo) e \u201cA confiss\u00e3o\u201d (1970, Costa-Gravas), at\u00e9 o mais recente filme de Quentin Tarantino, \u201cDjango\u201d (2012), no qual o pistoleiro negro (Jamie Fox) \u00e9 posto \u00e0s pancadas de cabe\u00e7a para baixo se esvaindo em sangue, por obra de um criado tr\u00e2nsfuga de ra\u00e7a, Stevie, servi\u00e7al do propriet\u00e1rio de terras sulista vil\u00e3o do filme, Monseieur Calvin Candie (Leonardo DiCarpio).<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a da tortura artificial nas caricaturas do universo ficcional de Tarantino, dado o pr\u00f3prio estilo inveross\u00edmil de seus roteiros, para a exibida em \u201cA hora mais escura\u201d (2012, Zero dark thirty, a partir de sexta-feira, 15\/02, em todos os cinemas brasileiros) \u2013 o filme de Kathryn Bigelow concorrente a cinco Oscars que narra das circunst\u00e2ncias da opera\u00e7\u00e3o oficial de homic\u00eddio de Osama Bin Laden \u2013, de natureza pseudodocumental e realista, \u00e9 que se a primeira \u00e9 sarc\u00e1stica, a segunda se prop\u00f5e \u201cass\u00e9ptica\u201d e \u201cimpessoal\u201d. Recordando a cr\u00edtica de Luk\u00e1cs ao naturalismo liter\u00e1rio do s\u00e9culo XIX, pretende-se \u201cdescrever\u201d em vez de \u201cnarrar\u201d, como repete em outras palavras, ali\u00e1s, a diretora do filme em artigo de repto ao jornal \u201cLos Angeles Times\u201d, para quem, no cinema, a \u201cde scri\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o significa \u201caprova\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Evidentemente, Bigelow n\u00e3o defende a tortura. Ali\u00e1s, ela \u00e9 contra ao seu modo. Sua posi\u00e7\u00e3o \u00e9 mais matizada e representativa da concep\u00e7\u00e3o de mundo espont\u00e2nea de v\u00e1rios estratos sociais liberais, o qual o filme pode identificar. N\u00e3o se pretende ades\u00e3o nem ojeriza, \u00e9 como se tortura fizesse parte, infelizmente, dos of\u00edcios realistas de um chefe de Estado (George W. Bush ou Barack Obama) e por delega\u00e7\u00e3o de poder dos agentes da CIA encarregados de \u201cpor a m\u00e3o\u201d na massa, enquanto, n\u00f3s, cidad\u00e3os \u201ccomuns\u201d experimentamos as frustradas tentativas de felicidade nas promessas das sociedades de consumo. A tortura \u00e9 o lixo, o excremento, o lado B invis\u00edvel, mas \u00fatil, dos por\u00f5es.<\/p>\n<p>O senador John McCain, advers\u00e1rio derrotado de Obama na sua primeira elei\u00e7\u00e3o presidencial, detestou \u201cA hora mais escura\u201d, por dois motivos, um pragm\u00e1tico e outro program\u00e1tico. No pragm\u00e1tico, acabaram concordando, McCain e Bigelow, pois ambos logo aprotaram em afirmar que a tortura n\u00e3o foi decisiva na investiga\u00e7\u00f5es que levaram ao paradeiro de Osama. Nas palavras de Bigelow, o grande trabalho da CIA \u201cfoi de detetive\u201d. Mas resta a discord\u00e2ncia program\u00e1tica. Examinando bem, a discord\u00e2ncia program\u00e1tica \u00e9 apenas de medida. Velho senador republicano, certamente, McCain preferiria ver as guerras recentes do Iraque e Afesganist\u00e3o, bem como a \u201c ca\u00e7a do terror\u201d, pelas lent es patri\u00f3ticas e justiceiras de um John Wayne, da maneira que o velho cauboi de celuloide filmou a conquista do Texas em \u201c\u00c1lamo\u201d (1960) e a guerra do Vietnam em \u201cOs Boinas Verdes\u201d (1968). Certos defensores do filme de Bigelow t\u00eam comparado as acusa\u00e7\u00f5es do jogo pol\u00edtico duro rep\u00fablicano aos processos criminais que sofreram Flaubert ou Badelaire no s\u00e9culo XIX. Haja apela\u00e7\u00e3o. Em primeiro lugar, Gustave Flaubert e Charles Badelaire foram censurados na Fran\u00e7a por \u201cantentado ao pudor\u201d. Exatamente por n\u00e3o haver proibi\u00e7\u00e3o que o cinema, esta forma de sonho social, na bela defini\u00e7\u00e3o do marxismo \u201cinfantil\u201d de Slavoj Zizek, \u00e9 que os produtos mercantis do cinema devem passar pela decifra\u00e7\u00e3o detetivesca da cr\u00edtica da ideologia (n\u00e3o confundir com cr\u00edtica de cinema).<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, Zizek tamb\u00e9m tem criticado \u201cA hora mais escura\u201d em termos parecidos com os aqui enunciados. Advirto tratar-se de uma coincid\u00eancia fortuita. Embora o seu artigo recente sobre \u201cA hora mais escura\u201d requente (Zizek est\u00e1 sempre requentando os pratos de sua cozinha) os termos de uma uma passagem do livro \u201cEm defesa das causas perdidas\u201d (2011, pp. 64\/5), no qual atenta corretamente ao fato que pela primeira vez, ap\u00f3s os acontecimentos de 11 de Setembro, o recurso ao uso da tortura foi apresentado pelos chefe de Estados como \u201calgo aceit\u00e1vel\u201d. No fundo, quando Zizek, defende a \u201cviol\u00eancia divina\u201d e \u201cespont\u00e2nea\u201d do \u201cterror\u201d \u2013 mesmo que para se afastar do terrorismo da Al Quaeda (criticada por ele n\u00e3o por usar e abusar do terrorismo, mas por ter uma \u201cinten\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica\u201d em suas a\u00e7\u00f5es) \u2013, em desdobramento l\u00f3gico, ele abre os horizontes da pr\u00e1tica da tortura, digamos, civil. A cr\u00edtica de Zizek, portanto, n\u00e3o \u00e9 dirigida \u00e0 tortura tout court, mas \u00e0 tortura enquanto pr\u00e1tica de Estado, mesmo na forma do Estado em pot\u00eancia da utopria fundamentalista da Al Quaeda. \u00c8 verdade que Zizek muda de cor como um camale\u00e3o e tenha desdito em entrevistas recentes muito do que escreveu; enfim, trata-se de um autor pseudamente malvadinho ainda em est\u00e1gio infantil e talvez por isso seus contos de ninas e hist\u00f3rias da carocinha agrade a seus leitores.<\/p>\n<p>Por isso, o republicanismo convervador, que n\u00e3o interage com imigrantes e minorias, come\u00e7a a ser visto como um anacronismo pol\u00edtico nos Estados Unidos e perdeu a segunda elei\u00e7\u00e3o para Barack Obama. Por isso, ind\u00edcio de que a interpreta\u00e7\u00e3o \u201cblaz\u00ea\u201d de Jessica Chastain no papel de Maya (uma analista da CIA que passau oito anos sem tr\u00e9gua na pista do paradeiro de Osama Bin Laden) \u00e9 emblem\u00e1tica, o filme de Bigelow passa a mensagem de que a comemora\u00e7\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o do inimigo n\u00famero 1 do Estado americano deve ser comemorada no m\u00e1ximo com um discreto sorriso de al\u00edvio, jamais como festas. Mocinha repleta de sonhos debutantes antes de ser recrutada para a CIA, Maya vai se tran sformar uma esp\u00e9cie de Eichmann de saias, tamb\u00e9m como o inocente carrasco nazista, uma conseq\u00fc\u00eancia do frio imperativo das ordens burocr\u00e1ticas, talvez com a diferen\u00e7a de que Maya tenha mais \u201camor\u201d (junto com mal-estar, \u00e9 claro) ao que faz.<\/p>\n<p>Essa a grande cilada do filme de Bigelow: no fundo, a discreta e sofrida comemora\u00e7\u00e3o de Maya est\u00e1 longe de pretender agradar os falc\u00f5es do partido republicano, mas exatamente o descarrego de consci\u00eancia dos liberais, mesmo os de esquerda do Partido Democr\u00e1tico, como se racionalizassem que a tortura \u00e9 infame, contudo, pode haver momentos cr\u00edticos em que pode ser necess\u00e1ria abrir, em horas cruciais, a \u201cexce\u00e7\u00e3o\u201d de uma regra universal das declara\u00e7\u00f5es ocidentais de direitos.<\/p>\n<p>\u00c9 como se a consci\u00eancia culpada pensasse assim: fez-se a tortura (ou o eufemismo c\u00ednico das \u201ct\u00e9cnicas aperfei\u00e7oadas de interrogat\u00f3rio\u201d), mas afinal o pesadelo acabou e agora podemos voltar a cuidar de nossas vidas e a praticar as boas regras de conduta do Estado democr\u00e1tico de direito. Paradoxalmente, por via indireta, o filme de Bigelow enuncia uma mensagem t\u00e9trica: o liberalismo \u00e9 a face aparente e encenada do Estado e da pol\u00edtica contempor\u00e2nea, exatamente para esta face parecer r\u00f3sea, torna-se necess\u00e1rio destampar de vez em quando os por\u00f5es fedorentos da \u201ctortura t\u00e9cnica\u201d. Resta-nos concluir que se o liberalismo \u00e9 a face encenada, ele j\u00e1 n\u00e3o nos serve mais como modelo civilizacional.<\/p>\n<p><em>[1]Professor Associado do Departamento de Hist\u00f3ria da UFPB. E-mail: jaldesm@uol.com.br<\/em><\/p>\n<p><em>blog: http:\/\/jaldes-campodeensaio.blogspot.com\/<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Meneses[1] A respeito do filme \u201cA hora mais Escura\u201d, a partir de hoje (15\/02), em todos os cinemas brasileiros. A descri\u00e7\u00e3o de cenas de tortura \u00e9 comum no cinema. 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