{"id":4135,"date":"2012-09-21T22:43:35","date_gmt":"2012-09-22T02:43:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=4135"},"modified":"2014-02-19T16:06:40","modified_gmt":"2014-02-19T20:06:40","slug":"adeus-carlos-nelson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/adeus-carlos-nelson\/","title":{"rendered":"Adeus, Carlos Nelson"},"content":{"rendered":"<p><em>Jaldes Reis de Meneses<\/em><\/p>\n<p>Logo que recebi pela manh\u00e3 a not\u00edcia de seu falecimento tive alguma dificuldade em escrever minhas lembran\u00e7as de Carlos Nelson. Mas creio que devo escrever, mesmo modestamente, um pequeno depoimento pessoal. Ele foi um professor muito generoso comigo, me recebeu de bra\u00e7os abertos no Rio de Janeiro na condi\u00e7\u00e3o de orientador de minha vontade de escrever uma tese de doutorado sobre Gramsci, mas cujos contornos n\u00e3o estavam claros. Com o tempo, escolhi o tema da revolu\u00e7\u00e3o passiva, a partir de uma embocadura no conceito de rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as comunista sardo, que percebi sem fundamental, mas que n\u00e3o era devidamente levado em considera\u00e7\u00e3o na bibliografia gramsciana. Carlos Nelson me estimulou e passei o ano de 2000 \u2013 come\u00e7os do novo mil\u00eanio \u2013, de volta a casa em Jo\u00e3o Pessoa, e ap\u00f3s a leitura completa dos Cadernos do C\u00e1rcere, me meti a redigir uma tese de doutorado com muitos e-mails trocados com Carlos Nelson. Ainda tenho alguns desses e-mails, mas n\u00e3o os encaro como correspond\u00eancia privada, pois as respostas de Carlos Nelson, sempre redigidas com limpidez, al\u00e9m de ter me ajudado em muito, tem serventia te\u00f3rica, tanto pelo brilhantismo de algumas sacadas de Carlos Nelson, como pelo humor de algumas de suas tiradas.<\/p>\n<p>Inventei logo no come\u00e7o de fazer uma analogia entre o conceito de ondas longas de Ernest Mandel e revolu\u00e7\u00e3o passiva de Gramsci. Carlos Nelson sabia que a empreitada tinha algo de espataf\u00fardia, mas longe de desencorajar, aconselhou seguir em frente, afirmando que o processo hist\u00f3rico da social-democracia europ\u00e9ia (e por extens\u00e3o do keynesianismo) tinha tudo a ver com revolu\u00e7\u00e3o passiva. Com o tempo, abandonei a analogia, mas ela n\u00e3o foi in\u00fatil, pois a partir dele cheguei ao estudo mais pormenorizado do conceito de \u201ccrise org\u00e2nica\u201d de Gramsci \u2013 que falta em Mandel em suas brilhantes p\u00e1ginas sobre as ondas longas. Na verdade, o conceito de Mandel, embora se deseje hist\u00f3rico, enreda nas mesmas contradi\u00e7\u00f5es de Kondratiev (economista russo do come\u00e7o do s\u00e9culo XX), prefigurando nas tais \u201condas longas\u201d uma esp\u00e9cie de proje\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica dos ciclos curtos do capitalismo.<\/p>\n<p>Para mim, em resumo, porque sei que o tema \u00e9 cabeludo, as \u201condas longas\u201d, no fundo, elidiam o papel do acaso e da surpresa na hist\u00f3ria: menos que uma proje\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica de um ciclo aritm\u00e9tico, o capitalismo precisou enterrar 40 milh\u00f5es de mortos na segunda guerra mundial para em seguida viver os tais dos \u201ctrinta anos gloriosos\u201d. Mas passei a compreender e admirar o fundo oculto da empreitada de Mandel. Na verdade, o velho dirigente trotskista estava revisando o \u201cprograma de transi\u00e7\u00e3o\u201d de Trotsky, especialmente na assertiva de que as \u201cfor\u00e7as produtivas pararam de crescer\u201d. As ondas longas eram um caminho de refazer o caminho de Trotsky ao mesmo tempo em que o revisava. Carlos Nelson, \u00e0s vezes c\u00e9tico ou mesmo prevendo o desfecho, gostava dessas espec ula\u00e7\u00f5es. Mais que o resultado, vale a viagem. Tenho a dizer, enfim, que foi o tempo inteiro um orientador de esp\u00edrito livre.<\/p>\n<p>Teria mais coisas a dizer. Outros dir\u00e3o. Entrei em contacto com Carlos Nelson pela \u00faltima vez em maio, dizendo que havia come\u00e7ado escrevendo uma resenha a prop\u00f3sito de seu \u00faltimo livro \u2013 De Rousseau a Gramsci (Boitempo, 2011) \u2013, e o texto resultou em um escrito bem mais longo, tendo como objeto o que achava ser o \u00e2mago de seu projeto em filosofia pol\u00edtica \u2013 a uni\u00e3o dos conceitos de hegemonia e contrato. Carlos Nelson se interessou e disse que em breve entraria em contacto com as suas opini\u00f5es. N\u00e3o escreveu, nem pedi retorno, ciente da doen\u00e7a. Hoje recebo a noticia do falecimento.<\/p>\n<p>Gostaria de encerrar este pequeno depoimento notando que Carlos Nelson tem duas origens intelectuais indel\u00e9veis: a flora\u00e7\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o de intelectuais baianos, de Caetano Veloso e Capinan, que participaram de um momento \u00edmpar da renova\u00e7\u00e3o das artes e da pol\u00edtica em Salvador, e principalmente dos intelectuais do PCB que aproveitam as lufadas de ar fresco que arejaram o velho e extinto partido depois da famosa e maltratada Declara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o de 1958, que pela primeira vez, na esquerda brasileira, buscou conjugar socialismo e democracia. Carlos Nelson n\u00e3o morre, continua vivo na a\u00e7\u00e3o dos que t\u00eam como projeto combinar socialismo e democracia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>blog: http:\/\/jaldes-campodeensaio.blogspot.com\/<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Reis de Meneses Logo que recebi pela manh\u00e3 a not\u00edcia de seu falecimento tive alguma dificuldade em escrever minhas lembran\u00e7as de Carlos Nelson. Mas creio que devo escrever, mesmo modestamente, um pequeno depoimento pessoal. 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