{"id":4094,"date":"2012-09-11T02:14:26","date_gmt":"2012-09-11T06:14:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=4094"},"modified":"2014-02-19T16:06:55","modified_gmt":"2014-02-19T20:06:55","slug":"luta-de-classes-em-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/luta-de-classes-em-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Luta de classes em S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p><em>Jaldes Reis de Meneses<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 pelo menos vinte anos, passo muito pouco tempo em S\u00e3o Paulo, talvez o tempo entre o pouso e a decolagem do avi\u00e3o em Congonhas ou Guarulhos. Me recordo de viv\u00eancias demoradas na S\u00e3o Paulo dos anos oitenta (estou ficando velho), do cinema a meia noite no cine SESC, onde vi pela primeira vez \u201cMem\u00f3rias do c\u00e1rcere\u201d de Nelson Pereira do Santos e \u201cAsas do desejo\u201d de Wim Wenders, dos shows de rock em Pinheiros, das amizades do movimento estudantil e das conversas em que mistur\u00e1vamos desde o realismo de Gogol at\u00e9 o pseudo equ\u00edvoco das estrat\u00e9gias erradas da \u201creforma\u201d (o PCB). O cosmopolitismo \u2013 \u00e0s vezes de fachada \u2013 brilha em S\u00e3o Paulo. Nunca mais voltei a visitar essas realidades, que, ali\u00e1s, desapareceram, ademais por que sou mais ligado ao Rio, cidade onde realmente morei e fiz meu doutorado. Como cantava Nara Le\u00e3o, eu gosto mais do Rio.<\/p>\n<p>Volto a essas recorda\u00e7\u00f5es do arco da velha atrav\u00e9s das not\u00edcias das elei\u00e7\u00f5es municipais de S\u00e3o Paulo. N\u00e3o quero escrever um artigo circunspecto, ao menos no momento. Antes de ligar Russomano ao fascismo e ao medo (este terr\u00edvel sentimento de impot\u00eancia em lidar com a realidade) \u2013 como li em alguns artigos alarmistas que vi por a\u00ed \u2013 talvez seja o caso de indagar as ra\u00edzes mais profundas de ascens\u00e3o deste aut\u00eantico outsider. Narro uma t\u00eanue experi\u00eancia pessoal. Num s\u00e1bado desses do passado estava junto com tr\u00eas amigos (entre os quais o falecido deputado Paulo Fontelles, do PCdoB, assassinado barbaramente no Par\u00e1, h\u00e1 muito tempo) assistindo a uma dessas sess\u00f5es da meia noite no CineSesc. Cochilo um pouco e logo um m\u00e3o toca de leve em minhas pernas, dizendo em tom um pouco mais elevado \u2013 se continuar a assediar minha mulher, vou pedir ao lanterninha do cinema por o senhor para fora da sess\u00e3o. As pessoas ao lado escutaram e voltam os olhos para mim. Estreme\u00e7o morto de vergonha. Nunca fiz an\u00e1lise, mas esta \u00e9 sem d\u00favida a minha experi\u00eancia traum\u00e1tica de S\u00e3o Paulo. Na verdade, cochilando, n\u00e3o sei bem, bati com meus p\u00e9s na cadeira da frente. J\u00e1 ao final da sess\u00e3o, andando a p\u00e9 pela Avenida Paulista, racionaliz\u00e1vamos os amigos: somente numa sociedade em estado de alerta permanente, paran\u00f3ica, aconteceria um fato assim, fortuito, sei bem, mas exatamente por isso emblem\u00e1tico. Em s\u00edntese, traumas e dissabores podem acontecer em qualquer lugar, mas em S\u00e3o Paulo as experi\u00eancias da discrimina\u00e7\u00e3o e da humilha\u00e7\u00e3o t\u00eam chance de aparecer mais rapidamente.<\/p>\n<p>O humilhado pode se vingar de muitas maneiras. Talvez a verdadeira cidade partida brasileira n\u00e3o seja o Rio de Janeiro, mas S\u00e3o Paulo, por isso ela tamb\u00e9m seja de conquista t\u00e3o fascinante, o que n\u00e3o tive tempo nem disposi\u00e7\u00e3o para faz\u00ea-lo. Caetano Veloso teve a oportunidade de conquistar a cidade (Sampa \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o de conquista), faz endo o hino oficial da cidade. Paradoxalmente, Luiza Erundina n\u00e3o conquistou ainda S\u00e3o Paulo. A sua elei\u00e7\u00e3o em 1988 &#8211; uma das poucos oportunidades em que as elei\u00e7\u00f5es municipais foram nacionalizadas e ainda n\u00e3o havia segundo turno -, foi um desses milagres da hist\u00f3ria. Creio que nem Nelson Rodrigues nem Vinicius de Moraes conquistaram S\u00e3o Paulo \u2013 as frases conhecidas da solid\u00e3o como companhia de um paulista (Nelson) e de S\u00e3o Paulo como t\u00famulo do Samba (Vinicius, uma inverdade), antes de avers\u00e3o, que n\u00e3o existe, significam estranhamento. Para mim, a cidade continua estranha ao mesmo tempo em que brilha a fascina\u00e7\u00e3o. Mesmo Buenos Aires, com seus caf\u00e9s maravilhosos e imensos parques abertos e luzentes no ver\u00e3o, \u00e9 de mais f\u00e1cil conquista. Como compreender S\u00e3o Paulo?<\/p>\n<p><em>blog: http:\/\/jaldes-campodeensaio.blogspot.com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Reis de Meneses H\u00e1 pelo menos vinte anos, passo muito pouco tempo em S\u00e3o Paulo, talvez o tempo entre o pouso e a decolagem do avi\u00e3o em Congonhas ou Guarulhos. 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