{"id":3587,"date":"2012-07-04T11:18:41","date_gmt":"2012-07-04T15:18:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=3587"},"modified":"2012-07-04T11:18:41","modified_gmt":"2012-07-04T15:18:41","slug":"a-cobertura-da-greve-pela-tv-privada-o-caso-da-globo-na-ufpb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/a-cobertura-da-greve-pela-tv-privada-o-caso-da-globo-na-ufpb\/","title":{"rendered":"A cobertura da greve pela TV privada: o caso da Globo na UFPB"},"content":{"rendered":"<p><em>Rafael Villas B\u00f4as \/ UnB, campus de Planaltina[1]<\/em><\/p>\n<p>O Jornal Nacional da TV Globo decidiu fazer uma reportagem um pouco mais longa sobre a greve do ensino p\u00fablico federal, veiculada no programa de 29 de junho de 2012. Para isso destacou uma equipe de sua central de produ\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro, que voou no avi\u00e3o do Jornal Nacional para Jo\u00e3o Pessoa para fazer a cobertura. Como de costume, parte do tempo da reportagem foi gasto com a auto-propaganda da emissora, com imagens externas e internas da jornalista no avi\u00e3o.<\/p>\n<p>A jornalista informa que est\u00e1 \u00e0s 7h30 da manh\u00e3 no campus de uma universidade vazia, em tempos de greve, mas que em dias comuns \u00e9 muito movimentada com a chegada da comunidade acad\u00eamica. Os primeiros entrevistados s\u00e3o os estudantes, nenhum deles faz parte de um movimento organizado, s\u00e3o tratados e respondem como clientes, de um espa\u00e7o prestador de servi\u00e7os que lhes prejudicou, porque adiou o tempo da formatura e frustrou suas expectativas. O movimento estudantil em greve, na maioria das universidades p\u00fablicas em greve de docentes e t\u00e9cnicos, n\u00e3o foi escutado.<\/p>\n<p>As entidades representativas dos estudantes s\u00f3 t\u00eam poder de voz quando reiteram o ponto de vista contra a greve? Esse foi o caso do dirigente do Diret\u00f3rio Central dos Estudantes da UnB, que ganhou espa\u00e7o na tela ao se posicionar contra a greve logo ap\u00f3s o deflagramento do movimento. A rea\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria dos estudantes da UnB, que com mais de 600 estudantes em assembl\u00e9ia decidiram pela greve estudantil n\u00e3o teve o mesmo espa\u00e7o da posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 greve.<\/p>\n<p>Tratar o espa\u00e7o p\u00fablico como um espa\u00e7o de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os que atende a interesses privados n\u00e3o \u00e9 uma forma de reiterar a vis\u00e3o que confere aos interesses pessoais e privados posi\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria, preponderante em detrimento ao interesse p\u00fablico e a organiza\u00e7\u00e3o coletiva dos segmentos?<\/p>\n<p>Alguns poderiam alegar uma suposta imparcialidade. Afinal de contas, foi mostrada uma marcha do movimento docente grevista, ap\u00f3s a imagem do centro de Ci\u00eancias Humanas da UFPB com as portas trancadas. E o presidente da associa\u00e7\u00e3o dos docentes da UFPB apareceu por alguns segundos para explicar as bandeiras da greve. Al\u00e9m dele, foram mostradas imagens de goteiras na biblioteca, e imagens de equipamentos de laborat\u00f3rio abaixo de uma pia. O estudante de Design que fala ap\u00f3s as imagens alega que a greve o deixa desmotivado com o ensino. Ele n\u00e3o tem pautas pr\u00f3prias, seu segmento n\u00e3o tem autonomia para lutar? Ele aguarda por um problema que, aparentemente, n\u00e3o diz respeito a ele, mas apenas ao sal\u00e1rio dos professores.<\/p>\n<p>Reduzir os pontos de pauta da greve \u00e0 dimens\u00e3o mais espec\u00edfica e corporativa \u00e9 uma forma corriqueira de deslegitimar o movimento, afinal, porque apoiar aqueles que lutam apenas pelos seus sal\u00e1rios, mas sequer aparecem na universidade em greve e atrapalham os planos dos estudantes que desejam ingressar no mercado de trabalho?<\/p>\n<p>Ao final da reportagem, a rep\u00f3rter informa que o governo acompanha com aten\u00e7\u00e3o o movimento da greve, que seus negociadores j\u00e1 elaboraram uma proposta, e que no momento \u201cest\u00e1 procurando\u201d (!) os grevistas para apresent\u00e1-la e dar continuidade \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o. Em momento algum \u00e9 informado que o governo j\u00e1 marcou e adiou reuni\u00f5es com a equipe de negocia\u00e7\u00e3o do movimento em greve, por duas ocasi\u00f5es, nos dias 05 e 19 de junho. A impress\u00e3o \u00e9 que os grevistas est\u00e3o em suas casas, cuidando de suas vidas pessoais, e que o governo, preocupado com a situa\u00e7\u00e3o, tem dificuldade at\u00e9 de apresentar suas propostas, pois n\u00e3o encontra os interlocutores do movimento. \u00c9 informado que 56 universidades federais est\u00e3o em greve, mas o Comando Nacional de Greve n\u00e3o \u00e9 entrevistado. A dimens\u00e3o nacional do movimento \u00e9 relegada \u00e0 segundo plano.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o que fica \u00e9 a de que a greve \u00e9 desnecess\u00e1ria, desgastante, prejudicial aos estudantes, e que o governo tem sido injusti\u00e7ado por n\u00e3o ser tratado com o mesmo interesse que tem em negociar com o movimento. A informa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 uma proposta elaborada tensiona o movimento grevista: o sinal \u00e9 claro, embora haja problemas, \u00e9 hora de ter bom senso e negociar saindo da greve.<\/p>\n<p>Mas, cabe ainda uma indaga\u00e7\u00e3o: por que a UFPB como alvo da for\u00e7a a\u00e9rea da Globo? Ser\u00e1 por conta de sua tradi\u00e7\u00e3o progressista de promo\u00e7\u00e3o de cursos voltados para os segmentos alijados do acesso a educa\u00e7\u00e3o superior, como os cursos direcionados para a popula\u00e7\u00e3o do campo, por meio das parcerias com o Programa Nacional de Educa\u00e7\u00e3o na Reforma Agr\u00e1ria (Pronera)? Como o curso de licenciatura em Hist\u00f3ria que recebeu a nota m\u00e1xima (5) em avalia\u00e7\u00e3o realizada em agosto de 2011, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep\/MEC). Cursos como esse e os de Licenciatura em Ci\u00eancias Agr\u00e1rias, em Pedagogia, e o curso de especializa\u00e7\u00e3o em Resid\u00eancia Agr\u00e1ria atendem n\u00e3o apenas a demanda estadual, mas recebem estudantes de mais de quatorze estados brasileiros.<\/p>\n<p>Uma universidade aberta, popular e cosmopolita, que tem entre seus interlocutores os movimentos sociais do campo, os assentados da reforma agr\u00e1ria, em cursos reconhecidos como de excel\u00eancia, certamente caminha na contra-corrente da tend\u00eancia liberal que trata a educa\u00e7\u00e3o como mercadoria.<\/p>\n<p>E, ou ser\u00e1 por conta das pol\u00edticas de cotas que adotam para negros, \u00edndios e estudantes egressos do ensino p\u00fablico? N\u00e3o custa lembrar que um dos principais nomes da dire\u00e7\u00e3o do telejornalismo da Globo \u00e9 autor de um livro contra as cotas, defensor da tese de que n\u00e3o somos racistas.<\/p>\n<p>O prop\u00f3sito do texto n\u00e3o \u00e9 cobrar uma reportagem justa da imprensa privada, antes \u00e9 apontar que essa \u00e9 e ser\u00e1 a din\u00e2mica de cobertura n\u00e3o apenas dessa greve, mas tem sido a postura reativa, travestida de neutralidade (\u201cafinal, pelo menos falaram da greve\u201d), da imprensa empresarial brasileira. Os interesses privados n\u00e3o s\u00e3o os mesmos da universidade p\u00fablica, por isso, um vidro quebrado na porta do minist\u00e9rio, como o do ato na frente do MEC no dia 05 de junho \u00e9 a imagem mais valorizada pela TV privada, a despeito de ser um ato isolado. N\u00e3o h\u00e1 porque esperar dessas emissoras a investiga\u00e7\u00e3o da pertin\u00eancia das bandeiras da greve, da precariedade das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e ensino nas universidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>As t\u00e1ticas de desmobiliza\u00e7\u00e3o da greve s\u00e3o \u00f3bvias: imagens dos campi vazios associadas a reclama\u00e7\u00f5es individuais dos estudantes\/clientes, cobertura prec\u00e1ria dos pontos de pauta do movimento grevista, superexposi\u00e7\u00e3o de qualquer a\u00e7\u00e3o violenta e isolada que possa surgir em manifesta\u00e7\u00f5es, falta de cr\u00edtica aos argumentos governistas, etc.<\/p>\n<p>Contra isso \u00e9 necess\u00e1rio aumentar a participa\u00e7\u00e3o da comunidade acad\u00eamica nas a\u00e7\u00f5es da greve, massificar os atos, e buscar meios leg\u00edtimos de comunica\u00e7\u00e3o com a sociedade, por meio do contato direto da greve com as escolas de ensino m\u00e9dio, com os demais segmentos organizados da sociedade civil, com os movimentos sociais. A orienta\u00e7\u00e3o para que a campanha de m\u00eddia da greve nacional priorize as TVs e r\u00e1dios p\u00fablicas e comunit\u00e1rias foi preponderante, em detrimento da posi\u00e7\u00e3o que defendia o pagamento de an\u00fancios car\u00edssimos em hor\u00e1rios nobres do comercial televisivo e em p\u00e1ginas de jornais impresso da m\u00eddia privada. Sinal de coer\u00eancia: a luta pela educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica superior de qualidade n\u00e3o deve estar dissociada da luta pela democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>[1] Integrante do Comando Local de Greve do segmento docente da UnB. Correio eletr\u00f4nico: rafaelvb@unb.br<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael Villas B\u00f4as \/ UnB, campus de Planaltina[1] O Jornal Nacional da TV Globo decidiu fazer uma reportagem um pouco mais longa sobre a greve do ensino p\u00fablico federal, veiculada no programa de 29 de junho de 2012. 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