{"id":3355,"date":"2012-06-12T01:20:45","date_gmt":"2012-06-12T05:20:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=3355"},"modified":"2014-02-19T16:08:11","modified_gmt":"2014-02-19T20:08:11","slug":"greve-nas-universidades-e-trabalho-docente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/greve-nas-universidades-e-trabalho-docente\/","title":{"rendered":"Greve nas universidades e trabalho docente"},"content":{"rendered":"<p><em>Jaldes Reis de Meneses[1]<\/em><\/p>\n<p>Pela primeira vez desde 1998, as universidades brasileiras se encontram em levante. Acabei de assistir ao programa J\u00f4 Soares, no come\u00e7o da madrugada, e o assunto em pauta era a greve dos docentes das Universidades p\u00fablicas. Por qu\u00ea? N\u00e3o tenho respostas conclusivas, mas o atrevimento de algumas hip\u00f3teses.<\/p>\n<p>Pretendo escrever outros artigos, mas gostaria em primeiro lugar de glosar a quest\u00e3o do trabalho intelectual docente. S\u00f3 h\u00e1 como abordar o tema da (des)valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho docente inserido no contexto das transforma\u00e7\u00f5es do capitalismo contempor\u00e2neo e dos sistemas de ci\u00eancia e tecnologia. Ao tratarmos de uma campanha salarial e de uma greve das universidades federais, em um pa\u00eds como o Brasil, que possui um dos 16 sistemas de produ\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia do mundo, e o maior da Am\u00e9rica Latina, mais de 90% nas universidades p\u00fablicas, \u00e9 quando aquilatamos a dimens\u00e3o global do processo no qual estamos inseridos.<\/p>\n<p>Trabalho intelectual-cerebral \u00e9 a principal forma do trabalho vivo hoje. \u00c9 dif\u00edcil, por\u00e9m, mensurar formalmente o trabalho intelectual, ao menos seguindo a maneira das formas cl\u00e1ssicas do capitalismo monopolista do s\u00e9culo XX, baseado no fluxo do tempo de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias junto a uma linha de montagem automatizada, com uma divis\u00e3o de trabalho bem delimitada entre executores e executantes, dirigentes e dirigidos. Pode at\u00e9 parecer aos incautos que o trabalho intelectual seja improdutivo, mas o fato objetivo \u00e9 precisamente o inverso: o trabalho intelectual extrapola, trata de uma atividade eminentemente cerebral, criativa, afetiva (n\u00e3o pensamos somente na pesquisa, mas tamb\u00e9m no ensino), prod uz exatamente a desmedida do valor porque \u00e9 mais do que ele, e n\u00e3o menos, o que n\u00e3o pode ser mensurado com as t\u00e9cnicas convencionais de medi\u00e7\u00e3o da produtividade quando estas se baseavam no taylorismo e no fordismo. O que significa, portanto, a valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho docente, se ele extrapola, para mais e n\u00e3o para menos, a medida de valor? A pol\u00edtica decide a distribui\u00e7\u00e3o da des-medida de riqueza, as maneiras de partilha do excedente social. Saliento que estou longe de negar Marx, mas exatamente o contr\u00e1rio: o valor continua a vigorar, inclusive porque ele continua a reger at\u00e9 mesmo a l\u00f3gica racional das atividades de trabalho que extrapolam a cl\u00e1ssica divis\u00e3o do trabalho do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, tanto na esfera da produ\u00e7\u00e3o como da reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00e1rias s\u00e3o as dimens\u00f5es de an\u00e1lise das vicissitudes do trabalho intelectual, e diversas, as vertentes te\u00f3ricas, invi\u00e1veis de serem descritas no espa\u00e7o de um texto curto. Como esquema explicativo do caso particular da Universidade, cabe o coment\u00e1rio de que, enfim, temos hoje concretizadas as pr\u00e9dicas do soci\u00f3logo Max Weber, no cl\u00e1ssico texto A ci\u00eancia como voca\u00e7\u00e3o (1919) \u2013 o processo de exaust\u00e3o da figura do intelectual artes\u00e3o (que Gramsci chamou de intelectual tradicional) e a assun\u00e7\u00e3o plena do trabalho intelectual coletivo, formador das estruturas de classe que Gramsci chamou de org\u00e2nicas. Em outras palavras, traduzindo no vocabul\u00e1rio da economia pol\u00edtica de Marx: a divis\u00e3o social de trabalho origin\u00e1ria da f\u00e1brica (o antigo loci da produ\u00e7\u00e3o capitalista), em vez de simplesmente se esgotar, expandiu forma e conte\u00fado, alterando substantivamente a esfera da reprodu\u00e7\u00e3o social (Estado, fam\u00edlia, sistema educacional, etc.). Produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o se entrela\u00e7aram, ou tendem vertiginosamente ao enlace.<\/p>\n<p>Do meu ponto de vista, as vicissitudes do trabalho intelectual contempor\u00e2neo, em lugar de destruir, atualizam \u2013 certamente de maneira modificada \u2013, a organiza\u00e7\u00e3o sindical do trabalho. Contudo, esta \u00e9 uma quest\u00e3o em disputa entre v\u00e1rias percep\u00e7\u00f5es e projetos pol\u00edticos, especialmente entre os que v\u00eaem o trabalho docente sob uma perspectiva individualista, solit\u00e1ria, e os que v\u00eaem sob uma perspectiva coletiva, solid\u00e1ria; entre os que n\u00e3o detectaram ainda os controles externos (Estado e capital, principalmente) e os que se insurgem contra estes mesmos controles. Enfim, n\u00e3o se trata de uma disputa entre \u201cprodutivos\u201d e \u201cimprodutivos\u201d \u2013 at\u00e9 porque o rigor intelectual pode ser encontrad o em ambos os lados \u2013, mas entre os que reconhecem como uma das dimens\u00f5es inelimin\u00e1veis do cotidiano universit\u00e1rio as problem\u00e1ticas atinentes \u00e0 profiss\u00e3o e ao trabalho e os que, na pr\u00e1tica, denegam esta dimens\u00e3o, muitas vezes se acostando subjetivamente no cultivo de um ideal morto de ci\u00eancia neutra. O trabalho intelectual-cerebral como trabalho alienado.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos a ter em presen\u00e7a, atualmente, nas universidades p\u00fablicas \u2013 e o debate subterr\u00e2neo de ades\u00e3o da categoria docente \u00e0 greve demonstrou isso \u2013, um conflito entre o projeto de constitui\u00e7\u00e3o da categoria como sujeito coletivo de trabalho e uma percep\u00e7\u00e3o conformista da Universidade como o loci de um trabalho de tipo artesanal, que existe somente como res\u00edduo e ideologia. O que tudo isso tem a ver com carreira docente? A primeira carreira docente que tivemos na modernidade (passada a grande crise da Universidade na \u00e9poca do iluminismo) foi a da Universidade alem\u00e3, hierarquizada e organizada sob as bases de uma divis\u00e3o artesanal do trabalho (professor catedr\u00e1tico, assistente e au xiliar), que tinha mais a ver com divis\u00e3o de poder do que trabalho. Com diferen\u00e7as nacionais importantes, de alguma maneira, a nomenclatura alem\u00e3 foi exportada para a Universidade francesa e norte-americana e inclusive a brasileira.<\/p>\n<p>No entanto, no Brasil, na pr\u00e1tica, subvertemos a hierarquia estamental do trabalho universit\u00e1rio tradicional. Qual \u00e9 mesmo a diferen\u00e7a real de trabalho nas Universidades federais brasileiras entre o professor auxiliar (come\u00e7o da carreira) e o associado (\u00e1pice)? Dif\u00edcil perceber. Pode-se arg\u00fcir, com raz\u00e3o, que o professor-associado trata-se de um doutor, e que a partir da titula\u00e7\u00e3o tem acesso \u00e0 concorr\u00eancia em pesquisa. Perfeito. Por\u00e9m, a prerrogativa de acesso aos editais de pesquisa, necess\u00e1rio a partir de certo patamar de conhecimento demonstrado, trata-se de uma atividade de pesquisador, que sem d\u00favida \u00e9 um plus, mas n\u00e3o constitui rigorosamen te diferen\u00e7a hier\u00e1rquica em rela\u00e7\u00e3o aos seus colegas de atividade laboral. A n\u00e3o ser como ideologia de diferencia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na verdade, o trabalho do pesquisador se assemelha mais ao de um t\u00e9cnico do que o de um intelectual cl\u00e1ssico (figura hist\u00f3rica hoje rara a qual teria sentido cobrar uma hierarquia de carreira). Para pontuar e concorrer aos editais, o novo t\u00e9cnico tem mais que se inserir em uma agenda de pesquisa internacional, reconhecer um nicho do conhecimento e se integrar nele, do que propriamente cultivar o esp\u00edrito (se ambos coadunarem, \u00f3timo). N\u00e3o h\u00e1 dem\u00e9rito algum na atitude salutar de se integrar a uma agenda ou paradigma de pesquisa, ao contr\u00e1rio, pois assim, se podemos definir, nos tornamos mais \u201ccoletivos\u201d e menos \u201cartesanais\u201d, mais divis\u00e3o social (e intelectual) do trabalho do que solid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>[1] Professor Associado do Departamento de Hist\u00f3ria da UFPB. Ex-Presidente da ADUFPB. e-mail: jaldesm@uol.com.br<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Reis de Meneses[1] Pela primeira vez desde 1998, as universidades brasileiras se encontram em levante. Acabei de assistir ao programa J\u00f4 Soares, no come\u00e7o da madrugada, e o assunto em pauta era a greve dos docentes das Universidades p\u00fablicas. Por qu\u00ea? N\u00e3o tenho respostas conclusivas, mas o atrevimento de algumas hip\u00f3teses. 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