{"id":25659,"date":"2021-09-08T19:30:10","date_gmt":"2021-09-08T22:30:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=25659"},"modified":"2021-09-18T08:40:05","modified_gmt":"2021-09-18T11:40:05","slug":"em-tempo-jaldes-meneses-analisa-a-conjuntura-mundial-apos-saida-do-eua-do-afeganistao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/em-tempo-jaldes-meneses-analisa-a-conjuntura-mundial-apos-saida-do-eua-do-afeganistao\/","title":{"rendered":"Em Tempo: Jaldes Meneses analisa a conjuntura mundial ap\u00f3s sa\u00edda dos EUA do Afeganist\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s v\u00e9speras do anivers\u00e1rio de 20 anos do ataque \u00e0s Torres G\u00eameas, o professor de Hist\u00f3ria da UFPB, Jaldes Meneses, publica no jornal Em Tempo, editado pela ADUFPB, um artigo em que analisa a conjuntura mundial ap\u00f3s a decis\u00e3o dos Estados Unidos de retirar suas tropas do Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>O atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro 2001, e a consequente ca\u00e7a \u00e0 Al-Qaeda foi a justificativa dada pelo governo norte-americano para a invas\u00e3o do territ\u00f3rio afeg\u00e3o. A sa\u00edda das tropas, 20 anos depois, seguida da tomada do pa\u00eds pelo Talib\u00e3 &#8220;destampou uma grave ferida narc\u00edsica no autoconfiante &#8216;poder americano'&#8221;, avalia Jaldes Meneses no artigo.<\/p>\n<p>Segundo ele, al\u00e9m da humilha\u00e7\u00e3o no Afeganist\u00e3o, a conjuntura mundial revela outros tr\u00eas fatores que abalam a domina\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica dos Estados Unidos: a continuidade dos efeitos da crise de 2008, a ascens\u00e3o da China e a pandemia do coronav\u00edrus. O professor Jaldes Meneses avalia ainda que os acontecimentos em Cabul &#8220;denotam um processo de reconfigura\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica de alto a baixo na \u00c1sia Central e no Oriente M\u00e9dio, uma pedra no lago com resson\u00e2ncia em todo o planeta&#8221;.<\/p>\n<p>Leia abaixo o texto na \u00edntegra ou <a href=\"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/EM-TEMPO-08-08-SETEMBRO-2021.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui<\/a> para fazer o download do jornal Em Tempo em formato PDF.<\/p>\n<h3><strong>A guerra do fim da hist\u00f3ria no fim do mundo<\/strong><\/h3>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong>Jaldes Meneses<\/strong><br \/>\n<strong>Professor Titular do Departamento de Hist\u00f3ria da UFPB<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"padding-left: 40px; text-align: right;\"><strong><em>Thousands were watching,<\/em> no one saw a thing.<\/strong><br \/>\n<em>Bob Dylan, Murder Most Foul<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px; text-align: right;\"><strong><em>Onde o cujo faz a curva\/<\/em> O cu do mundo, esse nosso s\u00edtio.<\/strong><br \/>\n<em>Caetano Veloso, O Cu do Mundo<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Em 1989, sob o impacto dos acontecimentos da queda do Muro de Berlim, um obscuro pesquisador s\u00eanior do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Francis Fukuyama, neoconservador de carteirinha (depois ele procurou outras sendas), decretou \u2013 em palestra na Universidade de Chicago \u2013 e publicou \u2013 em The National Interest \u2013 o \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d. O cientista pol\u00edtico estava inspirado em textos h\u00e1 d\u00e9cadas entregues \u00e0 benfazeja cr\u00edtica roedora de ratos especializados nas finas antiquarias de Hegel, K\u00f3jeve e Weber. Fukuyama afirmava que a democracia liberal culminava o desenvolvimento pol\u00edtico da hist\u00f3ria humana. O \u201cfim do comunismo\u201d n\u00e3o significava o \u201cfim de uma ideologia\u201d, mas o fim da imensid\u00e3o da \u201chist\u00f3ria enquanto tal\u201d. Era aparentemente uma teoria celebrat\u00f3ria. Nada mais falso.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Poucos perceberam outra camada, de l\u00fagubre incerteza, em sua teoria. Havia nela um subtexto de universalismo, paradoxalmente relativo e limitado, a ser levado em considera\u00e7\u00e3o: a vit\u00f3ria liberal sobre o socialismo na vers\u00e3o sovi\u00e9tica resolvia a quest\u00e3o da hist\u00f3ria. Contudo, persistia a quest\u00e3o da margem, o estranhamento no reconhecimento do outro, a escumalha habitante no cu mundo, os povos n\u00e3o integrados \u00e0 soberba cultura pol\u00edtica hist\u00f3rica dominante no Ocidente. Rousseau escreveu que Maquiavel era um ironista (ou um s\u00e1tiro) \u2013 fingindo dar li\u00e7\u00f5es \u00e0 pr\u00e1tica pol\u00edtica dos reis absolutistas, deu-as, grandes, aos povos. Sempre desconfiei \u2013 n\u00e3o tenho certeza \u2013 que Fukuyama \u00e9 mais um ironista. De todo modo, se n\u00e3o foi ir\u00f4nica a sua inten\u00e7\u00e3o, uma ironista tem sido a hist\u00f3ria em si.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Logo em seguida ao \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, os Estados Unidos empreenderam \u2013 para surpresa de muitos e apoio subserviente do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU \u2013 a primeira Guerra do Iraque, visando a destronar o poder regional de Saddam Hussein, um ex-aliado na Guerra do Ir\u00e3. Afora o cru teatro de guerra no deserto, aquela guerra foi vendida, na propaganda dos EUA, como uma guerra limpa, ass\u00e9ptica, de supremacia tecnol\u00f3gica absoluta, combinando em afinidade eletiva com a teoria do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d. Mas ficou a pergunta: por que Saddam Hussein n\u00e3o foi destronado, embora as tropas aliadas estivessem \u00e0s portas de Bagd\u00e1? Um novo e surpreendente personagem entrou em cena: o povo xiita do sul do Iraque. Massacraram os xiitas sem pena. Para frusta\u00e7\u00e3o do gal. Schwarzkopf, \u00e1vido por comemorar o grande feito militar de sua carreira, George Bush pai suspendeu a ofensiva final. Saddam Hussein sobreviveu dez anos. A estrat\u00e9gia virou a chave: do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d ao \u201cchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d, cuja senha intelectual foi o c\u00e9lebre artigo publicado por outro intelectual org\u00e2nico, Samuel Huntington, em 1993.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O choque de civiliza\u00e7\u00f5es se tornou verossimilhante no ataque \u00e0s Torres G\u00eameas, em 11 de setembro de 2001. Escreveu Eric Hobsbawm, anunciando as trombetas de um \u201cnovo s\u00e9culo\u201d: \u201cUma dr\u00e1stica e ineg\u00e1vel cesura na hist\u00f3ria do mundo. Provavelmente nenhum outro acontecimento inesperado da hist\u00f3ria do mundo tenha sido sentido diretamente por maior n\u00famero de seres humanos\u201d. O pr\u00f3prio Fukuyama clarificou a quest\u00e3o da \u201cmargem\u201d, dos \u201cpovos sem hist\u00f3ria\u201d, formulando \u2013 ele e uma pl\u00eaiade de outros autores \u2013 a quest\u00e3o da exist\u00eancia dos chamados \u201cEstados falidos\u201d, em que avultavam tr\u00eas pa\u00edses: Haiti, Som\u00e1lia e&#8230; Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Os 20 anos de guerra do Afeganist\u00e3o \u2013 a mais longa interven\u00e7\u00e3o externa dos Estados Unidos no \u201cfim do mundo\u201d \u2013, bem como os humilhantes epis\u00f3dios recentes de desmobiliza\u00e7\u00e3o das tropas de ocupa\u00e7\u00e3o em Cabul, cumpriram-se como a guerra do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d no \u201cfim do mundo\u201d. A deduzir do semblante desalentado do presidente Joe Biden em recentes apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, percebe-se que o acontecimento destampou uma grave ferida narc\u00edsica no autoconfiante \u201cpoder americano\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">No passado, doutas autoridades \u2013 a \u00faltima vez na crise econ\u00f4mica de 2008 \u2013 previram a decad\u00eancia do Imp\u00e9rio. N\u00e3o aconteceu. Agora, afora a humilha\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o, a conjuntura imp\u00f5e os desafios combinados dos tr\u00eas grandes cavaleiros do apocalipse: 1) a continuidade dos efeitos da crise de 2008; 2) a ascens\u00e3o da China e; 3) a pandemia do coronav\u00edrus. De todo modo, se o imp\u00e9rio sobreviver, a domina\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica de espectro total, na escala de todo o planeta, dos mares do Atl\u00e2ntico at\u00e9 o heartland eurasiano (regi\u00e3o estrat\u00e9gica na qual o Afeganist\u00e3o se insere), hoje predominante, parece, finalmente, entrar numa zona irremedi\u00e1vel de sombras.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Mais uma vez, reincidindo os fantasmas da guerra do Vietn\u00e3, a soberba do poder foi derrotada por uma heroica e assim\u00e9trica guerrinha de camponeses, Vietcongues e Talib\u00e3s. Qualquer que seja o desfecho da contenda (governo nacional-teocr\u00e1tico dos Talib\u00e3s e for\u00e7as aliadas ou guerra civil descontrolada), os acontecimentos em Cabul \u2013 milhares de pessoas desesperadas no aeroporto, em busca de um lugar no piso da balsa de salva\u00e7\u00e3o em um avi\u00e3o superlotado \u2013 j\u00e1 s\u00e3o extraordin\u00e1rios. Denotam um processo de reconfigura\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica de alto a baixo na \u00c1sia Central e no Oriente M\u00e9dio, uma pedra no lago com resson\u00e2ncias em todo o planeta.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Ano passado, no pleno curso da pandemia do coronav\u00edrus, a historiadora e antrop\u00f3loga Lilia Schwarcz retomou a periodiza\u00e7\u00e3o de Hobsbawm e, a partir dela, enunciou uma retifica\u00e7\u00e3o. Depois do fim do velho s\u00e9culo e come\u00e7o do novo, enunciados por Hobsbawm (URSS e Torres G\u00eameas), ela pincela um terceiro recome\u00e7o neste afresco: \u201cO s\u00e9culo XXI s\u00f3 come\u00e7a depois da pandemia\u201d. Conforme a intelectual, a autoimagem do s\u00e9culo XX, via-de-regra, tem sido pintada como a de \u201cum mundo sem barreiras que funciona em rede\u201d \u2013 um tempo de alta tecnologia&#8230; mas&#8230; de repente&#8230; um microrganismo&#8230; conseguiu parar grandes imp\u00e9rios como os Estados Unidos, a Europa, a China e at\u00e9 pequenas aldeias. Em apoio a outras considera\u00e7\u00f5es de Hobsbawm, desta feita sobre o \u201clongo s\u00e9culo XIX\u201d, Lilia afirma que o s\u00e9culo retrasado (XIX) \u201cpensou que todo tipo de invento, por si s\u00f3, libertaria as pessoas\u201d. Por isso o s\u00e9culo retrasado s\u00f3 acaba no trauma das carnificinas da Primeira Guerra Mundial. O l\u00fagubre da guerra fez picadinho da principal representa\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX sobre si mesmo \u2013 o ideal de progresso burgu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Cabe aproveitar o insight de Lilia e apensar quest\u00f5es. Curioso, o curto v\u00eddeo da antrop\u00f3loga \u2013 talvez por press\u00e3o de tempo ou pela tirania da montagem \u2013, infelizmente, deixa de aprofundar por que a autoimagem do mundo contempor\u00e2neo como \u201cum mundo sem barreiras que funciona em rede\u201d pouco ou nada se diferencia da autoimagem otimista do s\u00e9culo XIX. Essa autoimagem \u00e9 insistentemente igual, porque se baseia no par\u00e2metro exclusivo de evolu\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica. No fundo, a autoimagem descrita pela antrop\u00f3loga, menos que a do esquecido s\u00e9culo XX, de fato reflete a dos recentes anos 1990, ou seja, os tempos \u00e1ureos das d\u00edspares, mas convergentes, escolas da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d, do \u201cneoliberalismo\u201d, do \u201cclintonismo\u201d, do \u201cobamismo\u201d, do \u201ctucanismo\u201d, do \u201cneoconservadorismo\u201d liberal, da \u201cterceira via\u201d de Tony Blair e Anthony Giddens, da \u201csociedade em redes\u201d de Manuel Castells, do \u201cp\u00f3s-moderno\u201d etc. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os anos 1990 fizeram pintar, pela segunda vez, como na aurora do s\u00e9culo XX: uma sorridente e extempor\u00e2nea Belle \u00c9poque.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Imagens n\u00e3o caem de p\u00e9s de ma\u00e7\u00e3 por gravidade. Significam constru\u00e7\u00e3o. Ambas as autoimagens dominantes, tanto do \u201clongo s\u00e9culo XIX\u201d como do \u201cnovo s\u00e9culo XXI\u201d, est\u00e3o atadas \u00e0s bolas de ferro celebrat\u00f3rias de r\u00f3seos determinismos tecnol\u00f3gicos, cal\u00e7os de teorias como o \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d e o medo do \u201cchoque das civiliza\u00e7\u00f5es\u201d. O fundo da narrativa ideol\u00f3gica \u00e9 o elogio de um salto de evolu\u00e7\u00e3o capitalista cega \u2013 portanto, dirigida pelo mercado e um Estado guarda-noturno spenceriano \u2013, conduzindo a uma evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o planejada e planificada das for\u00e7as produtivas. No s\u00e9culo XIX, a for\u00e7a da imagina\u00e7\u00e3o vinha do trem serpenteando estradas; na contemporaneidade, at\u00e9 recentemente, a imagina\u00e7\u00e3o dominante vinha das trocas \u201cna aldeia global das sociedades em redes\u201d. Tudo r\u00f3seo e falso. \u201cMilhares estavam assistindo e ningu\u00e9m viu nada\u201d, cantou na mosca o genial bardo Bob Dylan.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s v\u00e9speras do anivers\u00e1rio de 20 anos do ataque \u00e0s Torres G\u00eameas, o professor de Hist\u00f3ria da UFPB, Jaldes Meneses, publica no jornal Em Tempo, editado pela ADUFPB, um artigo em que analisa a conjuntura mundial ap\u00f3s a decis\u00e3o dos Estados Unidos de retirar suas tropas do Afeganist\u00e3o. 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