{"id":2518,"date":"2012-02-09T16:03:12","date_gmt":"2012-02-09T20:03:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/praca-de-guerra\/"},"modified":"2014-02-19T16:15:07","modified_gmt":"2014-02-19T20:15:07","slug":"praca-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/praca-de-guerra\/","title":{"rendered":"Pra\u00e7a de guerra"},"content":{"rendered":"<p>A crise da greve da pol\u00edcia militar da Bahia \u00e9 grave. N\u00e3o se trata simplesmente da greve de uma categoria em luta por reajuste salarial. Talvez desde talvez os remotos acontecimentos de 1988 em Volta Redonda (RJ), ocasi\u00e3o na qual oper\u00e1rios da usina sider\u00fargica foram mortos em uma ocupa\u00e7\u00e3o militar, nunca estivemos t\u00e3o perto de um enfrentamento direto entre grevista de uma for\u00e7a armada.<\/p>\n<p>Contudo, os acontecimentos da Bahia s\u00e3o at\u00e9 mais ins\u00f3litos: naquela \u00e9poca, as tropas do ex\u00e9rcito dissuadiram uma rebeli\u00e3o que estava a acontecer no ch\u00e3o de uma f\u00e1brica, ao passo que as tropas militares de agora est\u00e3o estacionadas numa pra\u00e7a que virou pra\u00e7a de guerra. Desde a luta das diretas-j\u00e1, quando o tresloucado general Newton Cardoso, a mando de um decreto de emerg\u00eancia expedido pelo esquecido (felizmente) presidente Figueiredo, o Brasil volta a presenciar cenas de cerco a um parlamento por tropas militares. Sem tirar a raz\u00e3o emergencial de Estado do governo baiano, acossado pelos fatos, tomar a atitude forte de transformar do Centro Administrativo estadual em Salvador numa pra\u00e7a de guerra \u2013 afinal, vem a\u00ed o carnaval, a sociedade mani festa inseguran\u00e7a em andar pelas ruas, o com\u00e9rcio fecha as portas, etc. \u2013, \u00e9 preciso meditar sobre os processos de fundo de tais acontecimentos.<\/p>\n<p>Entre o Brasil do s\u00e9culo passado e o Brasil p\u00f3s Plano Real, entretanto, h\u00e1 diferen\u00e7as que n\u00e3o podem ser escamoteadas. Na era Sarney (1988), o Brasil se encontrava no auge de uma crise econ\u00f4mica parecida com a que vive hoje pa\u00edses europeus, a exemplo da Gr\u00e9cia e Portugal, enquanto, hoje, ao contr\u00e1rio, o pa\u00eds continua a viver, por sobrados motivos, um clima de otimismo. Tenho chamado as greves recentes no servi\u00e7o p\u00fablico (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a) \u2013 em contraponto a muitas an\u00e1lises esquem\u00e1ticas \u00e0 direita e \u00e0 esquerda \u2013 como \u201cgreves da aflu\u00eancia\u201d, ou seja, trata-se um t\u00edpico conflito redistributivo em torno da expans\u00e3o do bolo econ\u00f4mico e principalmente do fundo p\u00fablico.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que houve recentemente no Brasil um processo de ascens\u00e3o social daquilo que Paul Singer chamava em seus estudos de economia pol\u00edtica desde os anos 60 de \u201csubproletariado\u201d, ou seja, a imensa massa popular que margeia o mercado de trabalho a partir do trabalho dom\u00e9stico e informal. No entanto, embora tenha havido um crescimento da massa salarial em geral \u2013 inclusive no setor p\u00fablico (cujos \u00edndices s\u00e3o saturados pelas chamadas \u201ccarreiras de Estado\u201d \u2013, por outro lado ficaram de fora da bonan\u00e7a os trabalhadores m\u00e9dios do Estado, principalmente nas \u00e1reas de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e seguran\u00e7a p\u00fablica. Pode-se reprimir como quiser, mas o problema da participa\u00e7\u00e3o desses setores na massa de recursos do fundo p\u00fablico \u00e9 uma quest\u00e3o que tem de ser abordada de maneira s\u00e9ria, sem volteios ret\u00f3ricos, urgentemente.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica de rendas (diferentemente de aumentos salariais, conseq\u00fc\u00eancia direta dessa pol\u00edtica) n\u00e3o pode ser tratada como mero problema estadual corriqueiro, motivo do habitual entre governo e oposi\u00e7\u00e3o nas assembl\u00e9ias estaduais (embora a bomba esteja explodindo na m\u00e3o dos governadores, a maioria deles premidos pelos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal), mas de toda a federa\u00e7\u00e3o e do executivo federal.<\/p>\n<p>\u00c9 mais do que hora de um acordo nacional a prop\u00f3sito da PEC 300, uma bandeira que mais tem sido utilizada como instrumento de demagogia de oposi\u00e7\u00e3o aos governadores (inclusive da parte de parlamentares do PT, que agora est\u00e1 provando do pr\u00f3prio veneno) do que de propriamente de resolu\u00e7\u00e3o. Parece ter sido preciso a crise estourar em um governo dirigido por uma lideran\u00e7a importante do PT para o governo federal, enfim, aparecer com o ar de sua gra\u00e7a. Acompanhemos os desdobramentos dos acontecimentos da Bahia, pois s\u00e3o bastante importantes. E que Baco tenha tranq\u00fcilidade para sair \u00e0s ruas no carnaval. Evo\u00e9, Baco!, cantava em versos o poeta Manuel Bandeira.<\/p>\n<p>Jaldes Reis de Meneses<\/p>\n<p>blog: http:\/\/jaldes-campodeensaio.blogspot.com\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise da greve da pol\u00edcia militar da Bahia \u00e9 grave. N\u00e3o se trata simplesmente da greve de uma categoria em luta por reajuste salarial. 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