{"id":25052,"date":"2021-05-14T14:41:39","date_gmt":"2021-05-14T17:41:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=25052"},"modified":"2021-05-14T14:41:39","modified_gmt":"2021-05-14T17:41:39","slug":"bolsonarismo-ideologia-psicologia-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/bolsonarismo-ideologia-psicologia-politica\/","title":{"rendered":"Bolsonarismo: ideologia, psicologia, pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Ricardo Musse<\/em><\/p>\n<p><em>(Apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u201cBolsonarismo: Ideologia, psicologia e pol\u00edtica e temas afins\u201d, do professor Rubens Pinto Lyra)<\/em><\/p>\n<p>Rubens Pinto Lyra ocupa uma posi\u00e7\u00e3o \u00edmpar no marxismo brasileiro. Por conta de determinadas caracter\u00edsticas de sua produ\u00e7\u00e3o intelectual, de sua inser\u00e7\u00e3o institucional e at\u00e9 mesmo de um recorte geracional pode ser considerado como um dos expoentes do marxismo acad\u00eamico, tardiamente implantado no Brasil.<\/p>\n<p>O marxismo acad\u00eamico brasileiro s\u00f3 surge propriamente na d\u00e9cada de 1960, tendo por marcos inaugurais a tese de livre-doc\u00eancia de Jos\u00e9 Arthur Giannotti \u201cAliena\u00e7\u00e3o do trabalho objetivo\u201d (1960) \u2013 publicada em livro, em 1966, com o t\u00edtulo\u00a0Origens da dial\u00e9tica do trabalho\u00a0\u2013 e os artigos da mesma \u00e9poca de Ruy Fausto, reunidos apenas em 1983 no volume\u00a0Marx: l\u00f3gica e pol\u00edtica. O marxismo filos\u00f3fico uspiano se consolida na sequ\u00eancia com as teses de Jos\u00e9 Chasin e Emir Sader, alunos de Giannotti e Ruy Fausto.<\/p>\n<p>Em comum, o esfor\u00e7o de promover uma reconstitui\u00e7\u00e3o do pensamento de Karl Marx a partir de uma leitura \u201crigorosa\u201d de suas obras, projeto semelhante e coet\u00e2neo ao empreendimento capitaneado, na Fran\u00e7a, por Louis Althusser que resultou na edi\u00e7\u00e3o de\u00a0Lire Le Capital\u00a0(Maspero, 1965). A ideia pressuposta era que a divulga\u00e7\u00e3o e a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica marxista \u2013 postas em par\u00eantese \u2013 fossem antecedidas pela elucida\u00e7\u00e3o dos fundamentos metodol\u00f3gicos e l\u00f3gicos do materialismo hist\u00f3rico, etapa considerada imprescind\u00edvel para evitar o dogmatismo das vers\u00f5es impostas pelos partidos comunistas e os equ\u00edvocos hist\u00f3ricos dos regimes socialistas ent\u00e3o existentes.<\/p>\n<p>O marxismo uspiano, embora frequentemente apresentado como uma aclimata\u00e7\u00e3o local do marxismo ocidental cont\u00e9m muitos poucos elementos caracter\u00edsticos dessa linhagem, afora a mencionada tentativa comum de estabelecer os fundamentos filos\u00f3ficos da obra de Marx. Nele, n\u00e3o encontramos a preocupa\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o da \u201ccultura\u201d, central para os autores dessa corrente. Tampouco os esfor\u00e7os, considerados imprescind\u00edveis, em compreender o presente hist\u00f3rico e promover a cr\u00edtica da ideologia espec\u00edfica de cada forma e regime de acumula\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, de cada fase do capitalismo.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o de autores brasileiros com o assim chamado \u201cmarxismo ocidental\u201d torna-se mais pertinente, no entanto, quando referida \u00e0queles que concederam primazia \u00e0 cultura, na maioria das vezes por conta de degluti\u00e7\u00f5es do pensamento do jovem Luk\u00e1cs e\/ou de Antonio Gramsci. \u00c9 o caso do grupo reunido, no Rio de Janeiro, em torno da revista\u00a0Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, no qual se destacam Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho e Jos\u00e9 Paulo Netto; do trio Bento Prado Jr., Roberto Schwarz e Paulo Arantes trafegando no circuito Paris-Maria Ant\u00f4nia; e no ex\u00edlio franc\u00eas, de Rubens Pinto Lyra.<\/p>\n<p>O percurso intelectual de Rubens Pinto Lyra pode ser descrito como uma s\u00e9rie de movimentos, aparentemente dispersos, mas na verdade estreitamente entrecruzados, que o aproxima cada vez mais das coordenadas formais e do repert\u00f3rio conceitual caracter\u00edstico do marxismo ocidental. Na d\u00e9cada de 1970, como resultado de sua forma\u00e7\u00e3o escolar na Fran\u00e7a, Lyra publica dois livros sobre a hist\u00f3ria do movimento comunista e socialista. De volta ao Brasil, j\u00e1 como professor da Universidade Federal da Para\u00edba escreveu ininterruptamente, nos \u00faltimos quarenta anos, sobre quest\u00f5es de conjuntura e de ci\u00eancia pol\u00edtica; de teoria e filosofia do direito; de comunica\u00e7\u00e3o e jornalismo, de hist\u00f3ria e sociologia; de economia e psicologia; de educa\u00e7\u00e3o e de religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa exuber\u00e2ncia, a espantosa multiplicidade de \u00e1reas do conhecimento visitadas com a compet\u00eancia e o rigor do especialista, configura um perfil intelectual que transcende a divis\u00e3o universit\u00e1ria do saber. Trata-se de uma demanda inerente ao marxismo, potencializada pelos marxistas ocidentais, em sua busca do conhecimento da \u201ctotalidade\u201d. A exig\u00eancia de uma compreens\u00e3o n\u00e3o compartimentada decorre da pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o, sist\u00eamica, do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, que n\u00e3o se deixa apreender sem a tessitura de uma extensa rede conceitual. Como bem resumiu J\u00fcrgen Habermas, o \u201cmaterialismo hist\u00f3rico\u201d \u00e9 tamb\u00e9m e sobretudo um \u201cmaterialismo interdisciplinar\u201d.<\/p>\n<p>Neste livro, significativamente intitulado\u00a0Ideologia, psicologia e pol\u00edtica explicam o bolsonarismo, essas linhas de for\u00e7a convergem cristalizando numa pe\u00e7a unit\u00e1ria e m\u00faltipla resultados de d\u00e9cadas de investiga\u00e7\u00e3o que surgem para o leitor, no entanto, com o encanto e o frescor de uma apari\u00e7\u00e3o s\u00fabita.<\/p>\n<p>A renova\u00e7\u00e3o do marxismo, ensaiada por Rubens Pinto Lyra, faz-se percept\u00edvel em recorrentes inst\u00e2ncias de autorreflex\u00e3o, momentos em que o texto se debru\u00e7a sobre si, meditando e expondo seus pressupostos te\u00f3ricos. N\u00e3o se trata, por\u00e9m, da procura pelos fundamentos origin\u00e1rios da obra de Marx como se fez na al\u00e7ada do marxismo acad\u00eamico uspiano. Trata-se, antes \u2013 nas pegadas de\u00a0Marxismo e filosofia, de Karl Korsch e de\u00a0Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe, de Georg Luk\u00e1cs \u2013 de proceder a uma reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, na chave de um balan\u00e7o comparativo, dos acertos e equ\u00edvocos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos de concep\u00e7\u00f5es, interpreta\u00e7\u00f5es, partidos, correntes e movimentos autodeclarados marxistas.<\/p>\n<p>Esse procedimento pode ser encontrado em grande parte dos coment\u00e1rios dedicados a assuntos espec\u00edficos que comp\u00f5em os cinco blocos do livro. Desdobra-se de forma expl\u00edcita e com maior desenvoltura, no entanto, no longo artigo que aborda a cr\u00edtica de Karl Kautsky a L\u00eanin e ao bolchevismo. Salienta-se l\u00e1 a singularidade do marxismo de Lyra que, al\u00e9m de demonstrar a atualidade e advogar em favor de um autor esquecido e \u201crenegado\u201d, n\u00e3o teme abra\u00e7ar, sem rodeios, a defesa da op\u00e7\u00e3o pelas \u201creformas\u201d.<\/p>\n<p>Em sintonia com os preceitos do \u201cmarxismo ocidental\u201d, o objetivo central do livro, salientado in\u00fameras vezes pelo autor, \u00e9 compreender o presente hist\u00f3rico. O fen\u00f4meno a\u00ed destacado \u2013 simultaneamente ponto de partida e de chegada da investiga\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 o \u201cbolsonarismo\u201d. Este \u00e9 apreendido n\u00e3o como uma onda moment\u00e2nea, conjuntural, mas como o resultado de processos de longa dura\u00e7\u00e3o enraizados na sociedade. A ascens\u00e3o de Jair M. Bolsonaro \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica n\u00e3o \u00e9 encarada como um acidente, uma excresc\u00eancia ou uma exce\u00e7\u00e3o; \u00e9 explicada como express\u00e3o de uma tend\u00eancia recorrente de regress\u00e3o autorit\u00e1ria, inerente ao processo de acumula\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Rubens Pinto Lyra, como bom marxista, n\u00e3o prescinde das determina\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas na interpreta\u00e7\u00e3o da ressurg\u00eancia mundial de movimentos neofascistas. Detalha cuidadosamente a hegemonia neoliberal, o poder das grandes corpora\u00e7\u00f5es e a predomin\u00e2ncia do capital financeirizado no \u00e2mbito do capitalismo mundializado. Insurge-se, por\u00e9m, contra o economicismo, recorrendo \u00e0 distin\u00e7\u00e3o destacada por Marx e Engels em\u00a0A ideologia alem\u00e3: o \u201cmodo de produ\u00e7\u00e3o\u201d desdobra-se em um \u201cmodo de vida\u201d. Marx anos depois retomou esse ponto em\u00a0Para a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, com outra terminologia, ressaltando que o condicionamento econ\u00f4mico, a base, se manifesta sob o manto da ideologia \u2013 de forma abstrata, mas nem por isso menos efetiva \u2013 nos amplos dom\u00ednios da superestrutura: na pol\u00edtica, no direito, na filosofia, na religi\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, portanto, por acaso que o autor inseriu logo no in\u00edcio do livro um conjunto de quatro artigos que abordam a quest\u00e3o da \u201cideologia\u201d. Nesse grupo destaca-se \u201cIdeologia: conceito e aspectos essenciais\u201d, no qual Lyra reconstitui \u2013 de forma did\u00e1tica \u2013 a discuss\u00e3o sobre esse termo e apresenta uma interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e original do conceito. Elucida as conex\u00f5es do termo \u201cideologia\u201d com as no\u00e7\u00f5es gramscianas de \u201csenso-comum\u201d e de \u201chegemonia\u201d e ressalta o teor pol\u00edtico dessa categoria, express\u00e3o em \u00faltima inst\u00e2ncia da luta de classes.<\/p>\n<p>O livro desenvolve-se a partir da\u00ed como uma incisiva cr\u00edtica da ideologia contempor\u00e2nea em suas diferentes formula\u00e7\u00f5es e esferas de abrang\u00eancia. N\u00e3o escapa ao seu crivo o liberalismo, o neoliberalismo e o neoconservadorismo, presentes em campos t\u00e3o diversos como a pol\u00edtica, o direito, o Estado, a comunica\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o e a religi\u00e3o.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o do bolsonarismo exige, por\u00e9m, um passo al\u00e9m: a investiga\u00e7\u00e3o dos efeitos da ideologia na subjetividade, no \u00e2mago da forma\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica dos indiv\u00edduos. Uma parcela do voto e principalmente a ades\u00e3o aos movimentos neofascistas destoam do padr\u00e3o \u201cdecis\u00e3o racional motivada por interesses materiais\u201d. A perda da autonomia individual, a fixa\u00e7\u00e3o num ide\u00e1rio regressivo e conservador, decorre de fatores psicossociais, da presen\u00e7a, ressaltada pela psican\u00e1lise, de for\u00e7as irracionais e inconscientes na determina\u00e7\u00e3o do comportamento humano. Nessa dire\u00e7\u00e3o, Lyra mobiliza de forma criativa o arsenal conceitual desenvolvido por Erich Fromm.<\/p>\n<p>Por fim, uma an\u00e1lise erudita e refinada do pensamento de Maquiavel deixa ainda mais claro porque \u201ca pol\u00edtica explica o bolsonarismo\u201d, ao mesmo tempo em que esbo\u00e7a as premissas de uma pr\u00e1tica emancipat\u00f3ria, de uma aut\u00eantica a\u00e7\u00e3o transformadora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ricardo Musse (Apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u201cBolsonarismo: Ideologia, psicologia e pol\u00edtica e temas afins\u201d, do professor Rubens Pinto Lyra) Rubens Pinto Lyra ocupa uma posi\u00e7\u00e3o \u00edmpar no marxismo brasileiro. 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