{"id":2492,"date":"2012-01-26T16:36:16","date_gmt":"2012-01-26T20:36:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/consideracoes-extemporaneas\/"},"modified":"2014-02-19T16:15:40","modified_gmt":"2014-02-19T20:15:40","slug":"consideracoes-extemporaneas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/consideracoes-extemporaneas\/","title":{"rendered":"Considera\u00e7\u00f5es extempor\u00e2neas"},"content":{"rendered":"<p>Ao final da noite de ter\u00e7a-feira, ainda acordado e sonolento, os sentidos dos meus olhos e ouvidos um tanto em estado alfa, desatento ao chato desenvolvimento da trama da s\u00e9rie global \u201cBrado retumbante\u201d, meu corpo parecia querer finalmente dormir.\u00a0 No entanto, a cena de uma senten\u00e7a perempt\u00f3ria pronunciada pelo interlocutor do presidente brasileiro de fic\u00e7\u00e3o, Paulo Ventura \u2013 \u00e0s voltas com o dilema de aceitar a op\u00e7\u00e3o transexual de um filho \u2013, me p\u00f4s os neur\u00f4nios a funcionar a pleno vapor \u2013 \u201cPaulo, voc\u00ea ainda \u00e9 um homem do s\u00e9culo XX\u201d.<\/p>\n<p>Coisa curiosa. Havia lido a mesma frase no s\u00e1bado, em um artigo de meu caro amigo de adolesc\u00eancia, o jornalista Silvio Osias, no jornal \u201cCorreio da Para\u00edba\u201d, a prop\u00f3sito do h\u00e1bito de cultivo pelos jovens de hoje de m\u00fasica a granel, atrav\u00e9s dos arquivos de MP3, e o conseq\u00fcente desaparecimento em m\u00fasica pop do conceito de \u201c\u00e1lbum\u201d \u2013 a experi\u00eancia de audi\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de can\u00e7\u00f5es cujo conte\u00fado forma uma totalidade tem\u00e1tica \u2013, de que \u201cSargent Pepper\u2019s\u201d (1967) dos Beatles sem d\u00favida \u00e9 um marco, sei que concordamos tanto eu como Silvio, com saudades dos tempos de 1976 em que escut\u00e1vamos m\u00fasica quase todas as noites no alpendre de sua casa, na Avenida Concei\u00e7\u00e3o em Jaguaribe.<\/p>\n<p>Deixem-me completar o racioc\u00ednio com um terceiro exemplo, mais remoto. Em trecho de seu belo depoimento pouco antes de morrer em 1970, no pequeno livro \u201cPensamento vivido\u201d, o entrevistador pergunta a Georg Luk\u00e1cs um veredicto sobre as vanguardas art\u00edsticas, ao que ele responde, um tanto na defensiva, algo assim \u2013 \u201ceu sou um homem do s\u00e9culo XIX\u201d.<\/p>\n<p>Tr\u00eas contextos diferentes, a mesma senten\u00e7a. Poderia multiplicar outros exemplos. O acaso n\u00e3o acontece \u00e0 toa. Isto pode significar que existe disseminado aleatoriamente a\u00ed pelo mundo certo esp\u00edrito do tempo de ultrapassagem da cultura do s\u00e9culo XX, no que tinha de ruim (o preconceito) e de bom (a concentra\u00e7\u00e3o na frui\u00e7\u00e3o art\u00edstica). O problema \u00e9 quando o \u201cesp\u00edrito de tempo\u201d imp\u00f5e-se na condi\u00e7\u00e3o de imperativo categ\u00f3rico, norma de conduta discriminat\u00f3ria da pseudo \u201catualiza\u00e7\u00e3o\u201d de uns e \u201cdesatualiza\u00e7\u00e3o\u201d de outros. Dividir o mundo entre \u201catualizados\u201d e \u201cdesatualizados\u201d \u00e9 o terreno da ilus\u00e3o e da ideologia: o chamamento a comportar-se em manada, atrav\u00e9s de um padr\u00e3o \u00fanico, precisamente por onde se esvai o pensamento cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Na verdade, antes de sermos de s\u00e9culo XX ou XXI, melhor sermos extempor\u00e2neos. Obviamente, minha refer\u00eancia neste caso \u00e9 Nietzsche, que se dizia alegremente um extempor\u00e2neo, um homem \u201cfora ou al\u00e9m do tempo\u201d. Estou de acordo do Drummond em seu belo verso, \u201cficou chato ser moderno, agora serei eterno\u201d. Com este verso, o poeta mineiro estava ultrapassando uma fase de sua poesia, nos primeiros livros integrados aos c\u00e2nones do movimento modernista (o verso livre, o poema piada, etc.) e al\u00e7ando uma dimens\u00e3o nova, propondo-se a dialogar com toda a tradi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica universal. N\u00e3o estou fazendo cr\u00edtica liter\u00e1ria, mais que isso, estou pontuando que, ao se propor fazer \u201cpoesia eterna\u201d, Drummond estava praticando duas a\u00e7\u00f5es: aumentando o grau de exig\u00eancia est\u00e9t ica de sua po\u00e9tica, j\u00e1 que a medi\u00e7\u00e3o de qualidade, doravante, passava a ser toda a tradi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, em vez do gueto modernista, e principalmente, existencialmente, al\u00e7ando a liberdade.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, Drummond, ao dialogar com a tradi\u00e7\u00e3o universal em poesia escapava de querer parecer um eterno \u201cjovem modernista\u201d \u2013 detesto os macaquinhos que querem parecer eternos jovens de acordo com os c\u00e2nones da moda, pais sem senso do rid\u00edculo que se comportam como os filhos \u2013, como tamb\u00e9m, como pode a primeira vista parecer, n\u00e3o assumia a posi\u00e7\u00e3o de uma sabedoria especial conservadora, feito Nelson Rodrigues, ao aconselhar os jovens a \u201cenvelhecer\u201d.<\/p>\n<p>Para mim, o giro libert\u00e1rio de Drummond consiste em alternar os par\u00e2metros da quest\u00e3o: tanto o \u201ceterno jovem\u201d como o \u201cvelho conservador\u201d s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es bobas ao fen\u00f4meno do tempo, a recusa em reconhecer como Santo Agostinho, que o tempo \u00e9 o mais misterioso dos conceitos. Ser extempor\u00e2neo nada mais \u00e9 que colocar-se \u00e0 altura do mist\u00e9rio do tempo. Como diz Paulinho da Viola: gostar de Cartola ou Noel Rosa n\u00e3o \u00e9 saudosismo, mas traz\u00ea-los ao tempo de hoje. Vou mais longe: gostar de Adele ou Amy Winehouse (duas cantoras talentos\u00edssimas), n\u00e3o significa querer se curvar aos saborosos gostos juvenis das duas (prefiro os gostos de Adele), mas simplesmente reconhec\u00ea-las, por assim dizer, imersas no mist\u00e9rio do tempo.<\/p>\n<p>Gosto de sair \u00e0s ruas de qualquer cidade grande \u2013 flaneur benjaminiano \u2013 e admirar como hoje as pessoas trajam de maneira diferente e reinventam a ditadura padr\u00e3o da cal\u00e7a jeans e das camisas de grife: alguns de gravata e palet\u00f3, outros de piercing e tatuagem, uns poucos juntando tudo, um caleidosc\u00f3pio imenso de formas, cores, combina\u00e7\u00f5es, estilos de vida e comportamento. Todos s\u00e3o do mesmo tempo por que n\u00e3o precisamos ser iguais para cultivar o valor da igualdade: somos os extempor\u00e2neos do s\u00e9culo XXI. Que a li\u00e7\u00e3o das ruas chegue ao pensamento.<br \/>\nJaldes Reis de Meneses<\/p>\n<p>blog: http:\/\/jaldes-campodeensaio.blogspot.com\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao final da noite de ter\u00e7a-feira, ainda acordado e sonolento, os sentidos dos meus olhos e ouvidos um tanto em estado alfa, desatento ao chato desenvolvimento da trama da s\u00e9rie global \u201cBrado retumbante\u201d, meu corpo parecia querer finalmente dormir.\u00a0 No entanto, a cena de uma senten\u00e7a perempt\u00f3ria pronunciada pelo interlocutor do presidente brasileiro de fic\u00e7\u00e3o,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-2492","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-16","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2492","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2492"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2492\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8030,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2492\/revisions\/8030"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2492"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2492"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2492"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}