{"id":2086,"date":"2011-09-27T20:45:11","date_gmt":"2011-09-28T00:45:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/politica-e-estado\/"},"modified":"2011-09-27T20:45:11","modified_gmt":"2011-09-28T00:45:11","slug":"politica-e-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/politica-e-estado\/","title":{"rendered":"Pol\u00edtica e Estado"},"content":{"rendered":"<p><em>Jaldes Reis de Meneses<\/em><\/p>\n<p>Nota inicial: Pretendo de vez em quando (talvez de m\u00eas e m\u00eas) aproveitar esta janela no WSCOM para dissertar, de maneira simples e com o m\u00ednimo de jarg\u00e3o poss\u00edvel, sobre alguns temas, conceitos e autores fundamentais do mundo em que vivemos. Quero escrever simples, mas com fundamento nas melhores id\u00e9ias e autores. Talvez depois de alguns anos saia desses artigos um livro simples, composto de ensaios livres. Continuarei, \u00e9 claro, nas demais semanas, a escrever sobre a conjuntura nacional e internacional, e algumas vezes sobre cultura. Como n\u00e3o poderia deixar de ser em meu caso, come\u00e7o pela rela\u00e7\u00e3o entre Pol\u00edtica e Estado.<\/p>\n<p>O poeta Manuel Bandeira tem um verso que diz assim: n\u00e3o quero mais saber da poesia que n\u00e3o tenha a ver com liberta\u00e7\u00e3o. Se algu\u00e9m quiser saber qual o principal valor envolvido na atividade pol\u00edtica, o poeta cantou o mote: a liberdade. Por isso, j\u00e1 sabiam os gregos \u2013 que foram os inventores do conceito de pol\u00edtica, n\u00e3o da pol\u00edtica propriamente dita, pois essa existiu desde sempre em todas as sociedades \u2013, a pol\u00edtica se trata da mais enriquecedora atividade humana. Pode-se afirmar sem erro que h\u00e1 uma nobreza em que faz pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Estou falando, nos termos de Gramsci, \u00e9 claro, da \u201cgrande pol\u00edtica\u201d, da atividade estudada na filosofia pol\u00edtica, que decide os rumos da sociedade, n\u00e3o da \u201cpequena pol\u00edtica\u201d, das futricas de bastidores que nada decidem, apenas reiteram. Um dos problemas da pol\u00edtica hoje \u00e9 exatamente este: h\u00e1 \u201cpequena pol\u00edtica\u201d em demasia, ao inverso da escassez da \u201cgrande pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Gostaria de esclarecer polemicamente que sendo o objeto prec\u00edpuo da pol\u00edtic a a liberdade, por outro lado, n\u00e3o poder ser mais a felicidade. Talvez, neste caso, o ideal dos jacobinos franceses, que buscaram, no s\u00e9culo XVIII, conjugar pol\u00edtica e liberdade com felicidade, deva ser arquivado. Saint Just, portanto, estava heroicamente equivocado quando bradou na Conven\u00e7\u00e3o francesa de 1792, no auge da revolu\u00e7\u00e3o que mudou o mundo, que \u201ca felicidade \u00e9 a boa nova que percorre a Europa\u201d. Pode haver liberdade sem haver felicidade, embora a liberdade seja uma condi\u00e7\u00e3o da felicidade.<\/p>\n<p>Continuando o jogo de nega\u00e7\u00f5es, a pol\u00edtica nada tem a ver com a paz, ao contr\u00e1rio, pode ser o aviso da guerra, como j\u00e1 afirmava Rousseau quando lembrava que a liberdade deve enterrar sem medo as aspira\u00e7\u00f5es de paz quando se trata de enfrentar a tirania.<\/p>\n<p>De onde prov\u00e9m a pol\u00edtica, qual o seu mist\u00e9rio? A mais cl\u00e1ssica de todas as defini\u00e7\u00f5es, a de Arist\u00f3teles, \u00e9 insuper\u00e1vel: a pol\u00edtica prov\u00e9m da capacidade de falar facultad a aos homens. Apenas os homens falam, por isso fazem pol\u00edtica, sintetizado na f\u00f3rmula aristot\u00e9lica do zoon politikon (animal pol\u00edtico). Por isso, pol\u00edtica e linguagem s\u00e3o umbilicalmente ligadas. Contudo, tribut\u00e1rio da concep\u00e7\u00e3o de cosmos e tempo de sua \u00e9poca \u2013 c\u00edclico, geoc\u00eantrico e harm\u00f4nico \u2013, Arist\u00f3teles pensou atrav\u00e9s de um esquema organicista da pol\u00edtica, no qual as inst\u00e2ncias as inst\u00e2ncias inferiores (a fam\u00edlia) j\u00e1 operam como pren\u00fancio necess\u00e1rio, determin\u00edstico, das inst\u00e2ncias superiores (o Estado). Dessa maneira, naturaliza-se o Estado.<\/p>\n<p>Nada mais distante da fei\u00e7\u00e3o de um elemento de natureza do que o Estado. Vale \u00e0 pena insistir: o Estado \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o humana, com data de nascimento e talvez, um dia, de desaparecimento. A eternidade do Estado \u00e9 simplesmente um mito. O senso comum tanto referencia o Estado que faz quest\u00e3o de grifar a letra inicial da palavra em mai\u00fascula. Por isso, na teoria pol\u00edtica, embora distante d e veleidades anarquistas, que n\u00e3o aprecio, sou adepto dos autores cr\u00edticos e negativos em rela\u00e7\u00e3o com o Estado, de Espinosa, a Marx e a Gramsci. Busco n\u00e3o esquecer a li\u00e7\u00e3o do velho Nietzsche \u2013 outro cr\u00edtico ferrenho do Estado -, de que ele \u00e9 \u201co mais frio e cruel dos monstros\u201d. Ali\u00e1s, disso j\u00e1 sabia um estat\u00f3latra da capacidade de Hobbes \u2013 n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ele homenageou um monstro no t\u00edtulo de sua obra de louva\u00e7\u00e3o do Estado, justamente o Leviat\u00e3.<\/p>\n<p>Ter perdido de vista o horizonte da possibilidade do desaparecimento, um dia, do Estado sem d\u00favida vem a ser o principal problema da pol\u00edtica que se pratica no mundo hoje, inclusive a dos movimentos sociais. Quem fita o horizonte m\u00e1ximo na pr\u00e1tica est\u00e1 se aproximando da liberdade, ou seja, fazendo de fato a \u201cgrande pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>De uma maneira ou de outra, por mais cr\u00edticos que pare\u00e7am quase todos hoje fazem a pol\u00edtica do Estado. Quais s\u00e3o as exce\u00e7\u00f5es? Sempre di go, at\u00e9 mesmo a quem faz pol\u00edtica por dentro do aparelho de Estado (uma necessidade, pois o Estado \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o fundamental da pol\u00edtica na modernidade, pois s\u00f3 ele universaliza \u2013 eis uma de minhas diferen\u00e7as com os anarquistas), que \u00e9 preciso saber que o Estado, longe de ser natural, \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica; portanto, pode e deve ser superado.<\/p>\n<p>Para emancipar-se, antes de tudo \u00e9 preciso ver-se o horizonte da emancipa\u00e7\u00e3o que se quer. No pr\u00f3ximo pequeno ensaio, no m\u00eas de outubro, retornar\u00e1 com a quest\u00e3o do poder, explicando a minha segunda diferen\u00e7a com os anarquistas.<\/p>\n<p>* Originalmente publicado no site WSCom<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Reis de Meneses Nota inicial: Pretendo de vez em quando (talvez de m\u00eas e m\u00eas) aproveitar esta janela no WSCOM para dissertar, de maneira simples e com o m\u00ednimo de jarg\u00e3o poss\u00edvel, sobre alguns temas, conceitos e autores fundamentais do mundo em que vivemos. 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