{"id":19166,"date":"2018-10-10T11:19:04","date_gmt":"2018-10-10T14:19:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=19166"},"modified":"2018-10-10T11:19:04","modified_gmt":"2018-10-10T14:19:04","slug":"podemos-viver-um-ultraneoliberalismo-sob-uma-ditadura-e-com-respaldo-eleitoral-alerta-ricardo-antunes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/podemos-viver-um-ultraneoliberalismo-sob-uma-ditadura-e-com-respaldo-eleitoral-alerta-ricardo-antunes\/","title":{"rendered":"\u201cPodemos viver um ultraneoliberalismo, sob uma ditadura e com respaldo eleitoral\u201d, alerta Ricardo Antunes"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/soci\u00f3logo-ricardo-antunes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-19167\" alt=\"soci\u00f3logo ricardo antunes\" src=\"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/soci\u00f3logo-ricardo-antunes-300x199.jpg\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/soci\u00f3logo-ricardo-antunes-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/soci\u00f3logo-ricardo-antunes.jpg 452w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Em entrevista ao ANDES-SN, o soci\u00f3logo e professor da Unicamp, Ricardo Antunes, fala de algumas das quest\u00f5es abordadas em sua \u00faltima obra &#8220;O privil\u00e9gio da servid\u00e3o&#8221;, que traz um retrato detalhado da classe trabalhadora hoje, com suas principais tend\u00eancias e as mudan\u00e7as na configura\u00e7\u00e3o trabalhistas.<\/p>\n<p>Entre v\u00e1rias reflex\u00f5es sobre os ataques aos trabalhadores, Antunes faz um alerta. \u201cEstamos na imin\u00eancia de termos um ultra neoliberalismo, com fascismo, comandado por uma figura farsesca que usa farda. Talvez a gente viva agora o pior momento das universidades p\u00fablicas se essa trag\u00e9dia se consubstanciar. Espero que isso n\u00e3o venha a ocorrer, se n\u00e3o entraremos em uma fase mais dif\u00edcil que na ditadura militar, mais dif\u00edcil que o neoliberalismo dos anos 90 pra c\u00e1. Porque agora seria uma combina\u00e7\u00e3o nefasta de ultra neoliberalismo com uma ditadura militar sem limites e com respaldo eleitoral\u201d. Confira a \u00edntegra* abaixo:<\/p>\n<p><strong><em>Recentemente, voc\u00ea comparou a terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e0 escravid\u00e3o por aluguel. Poderia explicar essa analogia?<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Ricardo Antunes:\u00a0<\/strong>\u00c9 uma analogia, quase uma met\u00e1fora, mas \u00e9 importante que isso seja dito. Como \u00e9 que funcionava o trabalho escravo? Na escravid\u00e3o havia a compra de uma \u201ccoisa\u201d, essa \u201ccoisa\u201d era o homem negro ou a mulher negra que, a partir de adquiridos, eram convertidos em propriedade dos senhores de terra, de engenhos, que faziam com que o uso dessa coisa dessa for\u00e7a de trabalho, como quisessem. O que ocorre com a terceiriza\u00e7\u00e3o? A terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 de certo modo \u00e9 uma burla do assalariamento capitalista. Por si s\u00f3, o assalariamento j\u00e1 \u00e9 uma troca entre desigualdades, o trabalhador e a trabalhadora vendem um tempo de trabalho, s\u00e3o remunerados por parte desse tempo de trabalho e veem o seu sobretrabalho, ou seja, o tempo adicional apropriado privadamente pela empresa capitalista. Isso significa que existe uma aparente liberdade entre as partes, sempre aparente porque s\u00e3o for\u00e7as desiguais. \u00c9 curioso que o liberalismo econ\u00f4mico que deu fundamento ao capitalismo sempre disse que o trabalhador e a trabalhadora podem recusar o trabalho, da\u00ed a ideia de liberdade, mas isso \u00e9 falso. Se eles recusarem a venda da for\u00e7a de trabalho, eles morrem de fome.<\/p>\n<p>O que ocorre com a terceiriza\u00e7\u00e3o? \u00c9 um processo ainda mais nefasto, porque a empresa que precisa de trabalhadores aluga, junto a outra empresa que fornece terceirizados, uma for\u00e7a de trabalho que vai ser paga pela empresa que contrata o terceirizado no seu espa\u00e7o, mas aluga a for\u00e7a de trabalho para a empresa que est\u00e1 contratando, e esta ent\u00e3o se utiliza dessa for\u00e7a de trabalho e paga um valor em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto da for\u00e7a de trabalho contratada.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o veja: a analogia \u00e9 que na escravid\u00e3o o escravo \u00e9 comprado pelo propriet\u00e1rio. Na terceiriza\u00e7\u00e3o, o trabalhador e a trabalhadora terceirizados s\u00e3o alugados pela empresa de terceiriza\u00e7\u00e3o ao qual ele e ela est\u00e3o vinculados e essa empresa de terceiriza\u00e7\u00e3o aluga um plantel de trabalhadores, um, dois, cinco, 10, 500, mil, para uma empresa que as contrata sob a forma de loca\u00e7\u00e3o. Ou seja, \u00e9 uma regress\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao assalariamento cuja liberdade j\u00e1 era aparente.\u00a0 Agora, nem essa liberdade aparente existe mais, porque o trabalhador terceirizado e a trabalhadora terceirizada n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de dizer aceito ou n\u00e3o aceito, negocio o meu sal\u00e1rio ou n\u00e3o negocio, quero direitos ou n\u00e3o quero.<\/p>\n<p>\u00c9 uma forma h\u00edbrida que significa uma regress\u00e3o que nos aproxima do passado escravocrata. \u00d3bvio que todos n\u00f3s sabemos a diferen\u00e7a entre o trabalho escravo no sentido literal, seja o greco-romano, seja o escravismo colonial &#8211; que \u00e9 parte da chaga brasileira, latino-americana e tamb\u00e9m norte americana se pensarmos o sul dos Estados Unidos -, e das formas precarizadas de trabalho atuais como as formas s terceirizadas regulamentadas, n\u00e3o regulamentadas, o trabalho intermitente, tempor\u00e1rio. N\u00f3s sabemos essa diferen\u00e7a. Mas essa for\u00e7a de trabalho \u00e9 alugada, sem que ela negocie o seu valor. Porque isso \u00e9 uma negocia\u00e7\u00e3o entre empresas: a empresa A, que est\u00e1 contratando 100 ou 200 trabalhadores, junto \u00e0 empresa B. Como se voc\u00ea alugasse 100 carros para colocar a servi\u00e7o da sua empresa, s\u00f3 que agora voc\u00ea est\u00e1 contratando 100 trabalhadores, ou trabalhadoras. Essa \u00e9 a alus\u00e3o a uma nova forma de escravid\u00e3o, uma escravid\u00e3o que se acentua na era da escravid\u00e3o digital. Ali\u00e1s, esse \u00e9 o tema do meu livro novo, o privil\u00e9gio da servid\u00e3o, entre outros pontos, o novo proletariado da era digital, publicado pela Editora Boitempo.<\/p>\n<p><strong><em>J\u00e1 existe no Brasil a terceiriza\u00e7\u00e3o de atividades-meio, mas o grosso da produ\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o era terceirizado. J\u00e1 existe em n\u00edvel mundial a venda de servi\u00e7os por meio digital, como Uber ou plataformas de trabalho freelancer. Com a nova legisla\u00e7\u00e3o voc\u00ea acha que esse uso do meio digital para venda de trabalho pode aumentar? Como voc\u00ea v\u00ea o avan\u00e7o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho de setores com maior escolaridade?<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Ricardo Antunes:\u00a0<\/strong>Primeiro \u00e9 preciso dizer que a atual regulamenta\u00e7\u00e3o que trata da terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado de uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o preventiva que deslancha com intensidade no governo Temer e tem dois momentos. O primeiro foi a aprova\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio do governo Temer, que permitia a terceiriza\u00e7\u00e3o. Dizia que a terceiriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais restrita \u00e0s atividades-meio e passa a ser feita tamb\u00e9m nas atividades-fim. Com isso, se provocava uma medida anterior do TST que fazia distin\u00e7\u00e3o entre atividade-meio e atividade-fim, permitindo a terceiriza\u00e7\u00e3o nas atividades-meio, as atividades de alimenta\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, os que n\u00e3o s\u00e3o vitais para as empresas, mas que s\u00e3o imprescind\u00edveis para que o vital seja produzido. Nesse per\u00edodo, certamente, chegamos a 12 ou 13 milh\u00f5es de trabalhadores terceirizados nas atividades-meio, ou mais. Mas os capitais exigiam mais. E como a medida do Temer ampliou a terceiriza\u00e7\u00e3o, ela tamb\u00e9m criou um embate jur\u00eddico \u2013 decidido h\u00e1 poucas semanas pelo STF. Foi um ato inaceit\u00e1vel do Supremo na medida em que ele vai al\u00e9m do que foi decidido no decreto de Temer, permitindo a terceiriza\u00e7\u00e3o total. No meu livro h\u00e1 um cap\u00edtulo da \u201cSociedade da Terceiriza\u00e7\u00e3o Total\u201d. O que significa isso? N\u00e3o s\u00f3 a terceiriza\u00e7\u00e3o das atividades digitais, que s\u00e3o quase todas hoje. O debate sobre o capitalismo 4.0 \u00e9 digitalizar tudo. Ou seja, o mundo do trabalho hoje \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o complexa de atividades digitalizadas e manualizadas, em uma rela\u00e7\u00e3o muito profunda. N\u00e3o \u00e9 uma versus a outra. Basta dizer que, para que um celular seja feito, uma \u201cobra do mundo digital\u201d, \u00e9 preciso que haja extra\u00e7\u00e3o do trabalho mineral \u2013 que \u00e9 uma das mais brutais atividades laborativas manuais. Na China, nos pa\u00edses asi\u00e1ticos, na \u00c1frica, na Am\u00e9rica Latina. Nos pa\u00edses pobres, do Sul do mundo, nas periferias.<\/p>\n<p>O STF estendeu a terceiriza\u00e7\u00e3o para todas as atividades. E, em uma afrontosa confronta\u00e7\u00e3o com a realidade, dizendo que a terceiriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o precariza. Ent\u00e3o, vou fazer uma provoca\u00e7\u00e3o: se a terceiriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o precariza, eu sugiro que todos os ministros do Supremo, que votaram pela terceiriza\u00e7\u00e3o, terceirizem seus trabalhos! Seria uma maravilha ver os sete que votaram a favor da terceiriza\u00e7\u00e3o virarem ministros terceirizados. A\u00ed eles v\u00e3o perceber a diferen\u00e7a da atividade terceirizada, na qual a burla da legisla\u00e7\u00e3o protetora do trabalho \u00e9 mais frequente, as jornadas s\u00e3o mais intensas, os ass\u00e9dios mais violentos, a divis\u00e3o sexual do trabalho faz com que as mulheres trabalhem ainda mais do que os homens, as negras mais que as brancas, as mulheres ind\u00edgenas mais que as mulheres brancas, em uma cadeia da precariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso afeta tamb\u00e9m as atividades que o Bordieu chamava de atividades que disp\u00f5em de mais capital cultural. Voc\u00ea pode terceirizar agora a ponta, a atividade-fim da empresa. Em um hospital voc\u00ea pode terceirizar o m\u00e9dico. Em uma universidade, p\u00fablica ou privada, voc\u00ea pode terceirizar todas as atividades docentes. Em uma empresa de transporte a\u00e9reo voc\u00ea pode terceirizar os pilotos. E assim sucessivamente. Um ministro do TST usou uma frase em um debate que participamos juntos meses atr\u00e1s: a porteira est\u00e1 aberta. E nesse caso, a porteira aberta \u00e9 do inferno. N\u00f3s estamos regredindo a formas da escravid\u00e3o do trabalho, inclusive escravid\u00e3o do trabalho digital. Porque agora eu posso te acordar de noite para que voc\u00ea v\u00e1 trabalhar. Eu posso, por exemplo, ir para uma ind\u00fastria de fast food. Chego l\u00e1 \u00e0s onze para atender o hor\u00e1rio de almo\u00e7o, mas se o trabalho n\u00e3o for necess\u00e1rio eu n\u00e3o sou chamado, fico l\u00e1 esperando at\u00e9 de noite. O restaurante sem movimento, eu n\u00e3o recebo nada e volto pra casa. Isso \u00e9 uma forma de escravid\u00e3o digital. Basta um celular para eu ser chamado. Como serei pago se n\u00e3o trabalho? E \u00e9 t\u00e3o lesivo isso que eu sou considerado empregado, mas n\u00e3o tenho emprego. Isto \u00e9 muito importante: passa a ser poss\u00edvel e j\u00e1 est\u00e1 sendo feito nessas atividades dotadas de forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. N\u00e3o h\u00e1 mais barreiras claras entre o que pode e o que n\u00e3o pode, uma vez que tudo pode. No limite, o judici\u00e1rio pode ser terceirizado. E a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 jur\u00eddica, \u00e9 social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>S\u00e3o essas quest\u00f5es que movem e empurram as decis\u00f5es jur\u00eddicas. O judici\u00e1rio n\u00e3o tem autonomia nenhuma, ele \u00e9 a express\u00e3o da vida real. E a vida real hoje, no mundo do capitalismo destrutivo, introduz o contrato de \u2018zero hora\u2019. Te chamo, voc\u00ea vem, trabalha e ganha pela hora que trabalhou. Se eu n\u00e3o tenho trabalho, n\u00e3o te chamo, voc\u00ea fica esperando e n\u00e3o recebe nada. Na It\u00e1lia, h\u00e1 sal\u00e1rio pago em voucher. Voc\u00ea recebe um voucher pelas horas que trabalhou. At\u00e9 o sal\u00e1rio por voucher \u00e9 burlado, porque o empres\u00e1rio diz n\u00e3o poder pagar por voucher (esse sistema vigorou por pouco tempo porque o sindicalismo italiano o combateu e conseguiu trav\u00e1-lo no ano passado). Al\u00e9m do precarizado legal, que \u00e9 acintoso porque \u00e9 a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, h\u00e1 o precarizado ilegal. Em Portugal, isso se chama \u2018recibos verdes\u2019. O exemplo mais espetacularmente vis\u00edvel disso hoje \u00e9 o Uber. O trabalhador que tem seu carro n\u00e3o \u00e9 dono dos meios de produ\u00e7\u00e3o, ele tem o instrumento de trabalho, h\u00e1 uma brutal diferen\u00e7a. Ele paga pelo seguro do carro, paga pela manuten\u00e7\u00e3o, pela limpeza, paga se o carro quebra, n\u00e3o tem seguro-desemprego. O Uber diz que n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de trabalho. Todas essas empresas, citamos o Uber porque h\u00e1 uma massa enorme de trabalhadores no Brasil e no mundo. Se o trabalhador est\u00e1 desempregado hoje, a \u00fanica alternativa que ele tem de emprego imediato \u00e9 tendo um carro e se filiar ao Uber. Muitos se endividam para alugar ou comprar um carro e trabalhar como loucos para pagar isso e ganhar alguns poucos reais l\u00edquidos. Esta trag\u00e9dia n\u00e3o tem mais limita\u00e7\u00e3o de onde pode chegar. O m\u00ednimo que se pode esperar em um processo eleitoral de candidaturas que tenham um m\u00ednimo de rela\u00e7\u00e3o com a classe trabalhadora \u00e9 que essa legisla\u00e7\u00e3o deve ser revogada. Ali\u00e1s, alguns candidatos t\u00eam dito isso abertamente. Na esquerda e na centro-esquerda. \u00c9 selvagem essa legisla\u00e7\u00e3o. E o empresariado n\u00e3o quer nem ouvir falar de qualquer tipo de mudan\u00e7a, eles querem \u00e9 mais.<\/p>\n<p><em><strong>Em rela\u00e7\u00e3o ao Uber, qual o papel ideol\u00f3gico que cumpre o conceito empreendedorismo?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Ricardo Antunes:\u00a0<\/strong>Eu tamb\u00e9m exploro isso no meu livro e \u00e9 muito importante. N\u00f3s estamos em um cen\u00e1rio global, no qual o desemprego \u00e9 regra e o emprego \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. A precariza\u00e7\u00e3o, flexibiliza\u00e7\u00e3o, desregulamenta\u00e7\u00e3o, trabalho intermitente, trabalho tempor\u00e1rio tendem a ser cada vez mais a regra, especialmente nos servi\u00e7os que diferem de uma f\u00e1brica, porque ela precisa de um trabalho sistem\u00e1tico. A ind\u00fastria de servi\u00e7os \u00e9 diferente da ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o. Nesse contexto, como o desemprego se amplia enormemente e a legisla\u00e7\u00e3o protetora do trabalho est\u00e1 sendo toda destru\u00edda, \u00e9 necess\u00e1rio haver uma sa\u00edda ideol\u00f3gica e pol\u00edtica para a massa de trabalhadores desempregados. E o empreendedorismo \u00e9 essa palavra m\u00e1gica. Vasta, falaciosa, mentirosa. De cem empreendedores, quantos s\u00e3o bem sucedidos? As pesquisas precisam come\u00e7ar a mostrar isso. Quando a Globo, a Bandeirantes, colocam na televis\u00e3o os maravilhosos exemplos de empreendedorismo colocam o que foi bem sucedido. Mas os milhares que pegaram seu fundo de garantia e investiram em um pequeno empreendimento comercial e fracassaram \u2013 por d\u00edvidas banc\u00e1rias, pela regress\u00e3o do mercado, pela crise econ\u00f4mica \u2013 n\u00e3o aparecem. Como a ideologia do empreendedor existe\u00a0a n\u00edvel mundial ela \u00e9 muito poderosa. Ela d\u00e1 a ideia do propriet\u00e1rio de si mesmo, mas omite a que \u00e9 a do prolet\u00e1rio de si mesmo. Porque o empreendedor tem essa face duplicada: \u00e9 propriet\u00e1rio de si mesmo e prolet\u00e1rio de si mesmo. Muitas vezes, ele proletariza a fam\u00edlia. Ele enseja em si mesmo essa contradi\u00e7\u00e3o de ser prolet\u00e1rio e propriet\u00e1rio. Ela \u00e9 poderosa enquanto ideologia e mentirosa e falaciosa enquanto concretude. Muitos perdem e por isso h\u00e1 aumento do suic\u00eddio. O empreendedorismo tem a apar\u00eancia da vit\u00f3ria e a concretude da derrota. O fundamento do neoliberalismo em sua vers\u00e3o mais destrutiva (estamos vivendo uma terceira onda, mais devastadora, do neoliberalismo) \u00e9 o individualismo possessivo entre os despossu\u00eddos. Ou seja, voc\u00ea \u00e9 respons\u00e1vel pelo seu avan\u00e7o. Se voc\u00ea fracassar \u00e9 porque n\u00e3o tem \u2018empregabilidade\u2019, voc\u00ea n\u00e3o se preparou para preservar seu emprego. O que \u00e9 uma mentira. Uma corpora\u00e7\u00e3o quando decide fechar uma unidade produtiva no Brasil para lev\u00e1-la para a China o desemprego que disso decorre n\u00e3o \u00e9 motivado pela incompet\u00eancia, despreparo ou falta de qualifica\u00e7\u00e3o do trabalhador.<\/p>\n<p>Na Europa, h\u00e1 uma massa imensa de jovens ultra qualificados sem trabalho. Eles v\u00e3o trabalhar em que? Engenheiros, economistas, soci\u00f3logos, etc. V\u00e3o trabalhar em hot\u00e9is, restaurantes, \u00e1reas de servi\u00e7o de baix\u00edssima remunera\u00e7\u00e3o, para as quais n\u00e3o seria imprescind\u00edvel a forma\u00e7\u00e3o. Na Universidade de Veneza, onde leciono h\u00e1 quase uma d\u00e9cada como professor convidado, muitos de nossos alunos v\u00e3o trabalhar abrindo e fechando portas dos &#8216;vaporetos&#8217; &#8211; o transporte aqu\u00e1tico. O m\u00e1ximo que se pede de qualifica\u00e7\u00e3o \u00e9 que se saiba falar ingl\u00eas. Ganham 500 a 600 euros por m\u00eas, trabalham seis dias por semana e t\u00eam contrato de cinco ou seis meses que frequentemente n\u00e3o s\u00e3o renovados. S\u00e3o engenheiros, administradores, advogados. Outros est\u00e3o em hot\u00e9is, supermercados, nessa massa de servi\u00e7os que criou um imenso proletariado. Esta \u00e9 a tend\u00eancia do capital em escala global, das corpora\u00e7\u00f5es \u2018autossustent\u00e1veis\u2019 &#8211; c\u00f4mico se n\u00e3o fosse tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>As grandes corpora\u00e7\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o \u2013 a maior do mundo atua no Brasil \u2013 fragmentam o trabalho. Uma pessoa \u00e9 respons\u00e1vel pela escolha do livro que ser\u00e1 comprado pela universidade junto \u00e0 editora e passar\u00e1 a ter o selo da universidade. Outra pessoa vai dar aulas sobre o livro que n\u00e3o foi ele que escolheu. Outra vai preparar a prova sobre o livro tratado em uma aula que ele n\u00e3o participou. E outra vai corrigir a prova de uma aula dada por uma, cujas quest\u00f5es foram preparadas por outra e cujo livro foi escolhido por outra. Voc\u00ea acrescenta, a isso, a educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia e tem empresas de educa\u00e7\u00e3o com mais de um milh\u00e3o de estudantes. Isso \u00e9 muito mais lucrativo do que a ind\u00fastria automobil\u00edstica. Por isso que existe hoje uma voracidade pela privatiza\u00e7\u00e3o da escola p\u00fablica. No caso brasileiro, a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que \u00e9 a menina dos olhos do capital corporativo global, \u00e9 formada pelo conjunto de universidades e escolas p\u00fablicas que eles querem privatizar. E onde h\u00e1 luta, resist\u00eancia, combate, isso n\u00e3o viceja t\u00e3o fortemente, como a greve de trabalhadores de fast food dos EUA, a greve dos trabalhadores da limpeza da Justi\u00e7a de Londres, greve de professores p\u00fablicos em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo. Onde o sindicato est\u00e1 despreparado ou cooptado, isso passa mais facilmente. Se o mundo corporativo puder, ele elimina os sindicatos.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, Hayek j\u00e1 dizia, d\u00e9cadas atr\u00e1s, algo como \u201cos sindicatos s\u00e3o as corpora\u00e7\u00f5es do trabalho, e essas corpora\u00e7\u00f5es s\u00e3o nefastas para o capitalismo\u201d. E \u00e9 por isso que o neoliberalismo, forma do capitalismo do nosso tempo &#8211; uma fus\u00e3o de ultraneoliberalismo com a destrutividade do capital financeiro &#8211; faz com que os sindicatos que interessem sejam apenas os com vis\u00e3o patronal, de colabora\u00e7\u00e3o e concilia\u00e7\u00e3o. Os sindicatos de confronta\u00e7\u00e3o n\u00e3o interessam ao capital. N\u00e3o \u00e9 por acaso que as universidades argentinas foram destru\u00eddas pelo neoliberalismo sob a ditadura militar. Se n\u00f3s vamos para o Chile, em cada esquina h\u00e1 uma faculdade privada, porque o ensino p\u00fablico excelente que o Chile tinha at\u00e9 [o governo de Salvador] Allende foi destru\u00eddo pelo neoliberalismo da ditadura militar de Pinochet. Aten\u00e7\u00e3o: estamos na imin\u00eancia de termos um ultra neoliberalismo, com fascismo, comandado por uma figura farsesca que usa farda. Uma esp\u00e9cie de fascismo de farda. Talvez a gente viva agora o pior momento das universidades p\u00fablicas se essa trag\u00e9dia se consubstanciar. Espero que isso n\u00e3o venha a ocorrer. Sen\u00e3o, entraremos em uma fase mais dif\u00edcil que na ditadura militar, mais dif\u00edcil que o neoliberalismo dos anos 90 pra c\u00e1. Porque agora seria uma combina\u00e7\u00e3o nefasta de ultra neoliberalismo, com uma ditadura militar sem limites, e com respaldo eleitoral. Voc\u00ea \u00e9 capaz de adivinhar o tamanho da confus\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>E quais os efeitos para a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Ricardo Antunes:\u00a0<\/strong>A crian\u00e7a de 5 anos vai ser educada a poupar, fazer contas e aplicar no mercado. O ensino da filosofia, da sociologia, a hist\u00f3ria do pa\u00eds, uma ci\u00eancia da sa\u00fade comprometida com as necessidades da popula\u00e7\u00e3o: tudo isso vai deixar de existir. Teremos faculdades privadas, ensino m\u00e9dio privado, ensino de base privado, e o mercado impor\u00e1 quais s\u00e3o as quest\u00f5es vitais. E as quest\u00f5es vitais para o mercado s\u00e3o as mais destrutivas para a humanidade. E as quest\u00f5es vitais para a humanidade n\u00e3o interessam para o mercado. A dilem\u00e1tica do momento que entramos \u00e9: queremos uma educa\u00e7\u00e3o para a humanidade ou uma educa\u00e7\u00e3o destrutiva que favore\u00e7a a valoriza\u00e7\u00e3o e os lucros do mercado? Essa \u00e9 a quest\u00e3o crucial de nosso tempo.<\/p>\n<p>*Uma vers\u00e3o editada da entrevista foi publicada no InformANDES de Setembro.<a href=\"http:\/\/portal.andes.org.br\/imprensa\/noticias\/imp-inf-1276897808.pdf\" target=\"_blank\">\u00a0Clique aqui para ler o jornal.<\/a><\/p>\n<p><em>*Imagem: Antonio Perri<\/em><\/p>\n<p><em>Fonte:\u00a0ANDES-SN<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista ao ANDES-SN, o soci\u00f3logo e professor da Unicamp, Ricardo Antunes, fala de algumas das quest\u00f5es abordadas em sua \u00faltima obra &#8220;O privil\u00e9gio da servid\u00e3o&#8221;, que traz um retrato detalhado da classe trabalhadora hoje, com suas principais tend\u00eancias e as mudan\u00e7as na configura\u00e7\u00e3o trabalhistas. 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