{"id":18256,"date":"2018-04-30T23:57:15","date_gmt":"2018-05-01T02:57:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=18256"},"modified":"2018-04-30T23:57:15","modified_gmt":"2018-05-01T02:57:15","slug":"1o-de-maio-uma-reflexao-sobre-o-tempo-e-o-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/1o-de-maio-uma-reflexao-sobre-o-tempo-e-o-trabalho\/","title":{"rendered":"1\u00ba de Maio &#8211; Uma reflex\u00e3o sobre o tempo e o trabalho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\">1\u00ba de Maio &#8211; Dia do Trabalho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\">\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\">Uma reflex\u00e3o sobre o tempo e o trabalho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\">Cristiano Bonneau*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><a href=\"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Salgado20.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-18257\" alt=\"Salgado20\" src=\"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Salgado20-300x201.jpg\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Salgado20-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Salgado20.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Pensemos a esfera do trabalho partindo se dois momentos distintos: o trabalho enquanto atividade e o \u00f3cio (<i>otiu)<\/i>. No entanto, sua concilia\u00e7\u00e3o, principalmente em uma sociedade cuja finalidade \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de bens e em que os valores morais se pautam cada vez mais nas rela\u00e7\u00f5es de consumo, se apresentam em uma primeira camada bastante simples, o que facilitaria a an\u00e1lise. Eis um ledo engano, em nossa conviv\u00eancia como um jogo de apar\u00eancias, conven\u00e7\u00f5es e mediado por uma complexa moralidade.\u00a0 H\u00e1 um leque imenso de acusa\u00e7\u00f5es entre o \u00f3cio e o trabalho, que procuram edificar-se a si mesmos, tratar-se como inimigos e refutar um ao outro em sua exist\u00eancia. Tratemos aqui de tr\u00eas momentos fundamentais na rela\u00e7\u00e3o do ocidente com o trabalho, como uma reflex\u00e3o necess\u00e1ria no Dia do Trabalho. O primeiro, na Idade de Bronze, cujo melhor retrato se d\u00e1 no texto do be\u00f3cio Hes\u00edodo, <i>Os Trabalhos e os Dias.<\/i> O segundo, no trabalho como castigo, heran\u00e7a da queda do para\u00edso determinada por Deus. E finalmente, a viragem da no\u00e7\u00e3o de trabalho como realiza\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia do homem, proposta, sobretudo, pelo marxismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo como tema principal a justi\u00e7a (dik\u00ea), o que vemos na obra de Hes\u00edodo em sua totalidade \u00e9 como o mundo j\u00e1 fora concebido e organizado desde sua g\u00eanese pelos deuses, que se empenharam profundamente para imprimir, em todas as suas cria\u00e7\u00f5es o m\u00e1ximo de suas pr\u00f3prias virtudes. Mesmo as suas paix\u00f5es, todas levadas ao extremo, n\u00e3o foram suficientes para impedir um ordenamento ainda maior do que qualquer desejo particular. A natureza despertou nos gregos uma admira\u00e7\u00e3o imensa e um orgulho geral de que o homem tem a sua origem nela. Em grande parte, esta natureza, tendo sua compreens\u00e3o dirigida \u00e0 Deus ou como o lugar de primazia da ci\u00eancia moderna, ainda guarda esta carga conceitual. A cren\u00e7a hoje estabelece, que o seu desiquil\u00edbrio pode significar a bancarrota da pr\u00f3pria esp\u00e9cie humana. Na din\u00e2mica e desenvolvimento de cada ser vivo, cada estrutura natural (montanha, vulc\u00e3o, corais, etc&#8230;) e manifesta\u00e7\u00e3o de for\u00e7a da natureza (o raio, a chuva e a neve), o que permanece evidente \u00e9 o <i>logos <\/i>que permite o aparecimento e sustenta cada manifesta\u00e7\u00e3o do cosmos. Essa natureza \u00e9 decorr\u00eancia do trabalho incessante de todos os deuses que lutam para manter a harmonia entre as partes do universo. Por essa raz\u00e3o, <i>o trabalho aparece como a capacidade do homem em interagir com a natureza, no entendimento de sua l\u00f3gica pr\u00f3pria e na aceita\u00e7\u00e3o de se fazer parte desta estrutura primordial, com pot\u00eancia ativa de, entre outros atributos, engendrar a vida.<\/i> No culto aos deuses, estavam todos os elementos que favoreciam o cotidiano, desde a enxada, o cavalo e o cesto. As cenas registradas nos vasos gregos revelam in\u00fameras atividades no \u00e2mbito social e aparecem, juntamente com proezas e a\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas aos deuses e her\u00f3is. Isto n\u00e3o \u00e9 apenas uma prova de que os deuses se faziam presentes na vida dos mortais, mas que, vivenciavam o dia a dia de todos, protegendo, aben\u00e7oando, aconselhando, praguejando, etc&#8230; Da mesma forma, os sarc\u00f3fagos gregos, e em seguida os romanos, testemunham que o trabalho \u00e9 parte edificante da vida do povo antigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda concep\u00e7\u00e3o de trabalho d\u00e1-se no \u00e2mbito da religi\u00e3o, em especial a crist\u00e3. O G\u00eanesis nos apresenta uma verdadeira enciclop\u00e9dia. S\u00e3o v\u00e1rios os discursos que atravessam o primeiro livro. Podemos perceber, o geogr\u00e1fico, o hist\u00f3rico, o arqueol\u00f3gico, o psicol\u00f3gico e assim por diante. Este livro tamb\u00e9m relata um drama, causa do supl\u00edcio para toda a humanidade: a queda. \u00c9ramos extremamente felizes juntos ao criador, e nada nos faltava, tendo substancialmente todas as necessidades atendidas. Contudo, eis que surge a desobedi\u00eancia, o desafio, a curiosidade e a desconfian\u00e7a. A mulher, como s\u00edmbolo do saber, desde a deusa Aten\u00e1, quebra a harmonia com o divino assumindo seu pr\u00f3prio destino, contestando a vida pela pura necessidade. Diferente de todos os outros seres que habitavam o para\u00edso, o homem descobre ent\u00e3o a sua liberdade e resolve us\u00e1-la. Este rompante teve v\u00e1rias consequ\u00eancias; a vergonha, a dor ao dar a vida, a expuls\u00e3o e finalmente, o trabalho. Deus decretara a sa\u00edda do homem do para\u00edso e condenara este ao trabalho, se desejasse de alguma forma se manter vivo. O pecado original marca um caminho sem volta para a humanidade. N\u00e3o importa onde nas\u00e7as, estamos fadados a buscar a nossa sobreviv\u00eancia, portanto, ao trabalho. Este momento primeiro justificar\u00e1 muitos sentimentos vindouros e muitas a\u00e7\u00f5es humanas que condizem com a barb\u00e1rie. \u00a0Cada um, quando surge neste mundo, carrega o estigma da queda de outrora, a ilus\u00e3o perdida da felicidade humana. Cada vez que o trabalho aparece neste contexto, h\u00e1 uma recupera\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria e um imagin\u00e1rio coletivo, que mesmo rarefeito, opera de forma negativa, aproximando e buscando conciliar o trabalho \u00e0 um sentimento extremamente doloroso e vergonhoso. Eis dois sentimentos pelos quais lutamos no dia a dia para expurg\u00e1-los e at\u00e9 mesmo, purific\u00e1-los. O trabalho divide ent\u00e3o esta dupla fun\u00e7\u00e3o, que consiste em promover uma mem\u00f3ria poderosa em ressentimento e buscar ent\u00e3o um al\u00edvio ao aviltamento humano. <i>Por essa raz\u00e3o, o trabalho causa como\u00e7\u00e3o, pois nos remete ao come\u00e7o dos tempos, ao exato momento da queda. Em seguida, prop\u00f5em uma supera\u00e7\u00e3o, um desejo austero de recuperar o tempo perdido. H\u00e1 um sentimento amb\u00edguo atuando neste palco de afec\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o se d\u00e1 em opostos, mas que nos conduz a um caminho de supl\u00edcio crescente.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00faltima no\u00e7\u00e3o de trabalho \u00e9 uma reinvindica\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio esp\u00edrito transformador. O homem como moldador da natureza representa historicamente o passo necess\u00e1rio para a reviravolta do mundo contempor\u00e2neo. Sem nenhum v\u00ednculo de moralidade fechada, utilizando-se de todos os valores que lhe conv\u00e9m, a rela\u00e7\u00e3o do homem com a natureza sofre uma muta\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica, torcendo a id\u00e9ia de trabalho at\u00e9 depurar de toda a sua carga pesada religiosa e filos\u00f3fica. Mais um ponto essencial de distin\u00e7\u00e3o entre a humanidade a animalidade, a esfera do trabalho afirma que s\u00f3 h\u00e1 abstra\u00e7\u00e3o e idealidade no homem, e isso \u00e9 o que lhe faz humano. Existe agora uma dignidade, um privil\u00e9gio e uma realiza\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia humana em afirmar-se como ser da idealidade, da racionalidade e da abstra\u00e7\u00e3o. Obviamente existem animais que comp\u00f5em sociedades, no entanto estes n\u00e3o disputam modelos e sistemas de governos. Por n\u00e3o possu\u00edrem hist\u00f3ria, n\u00e3o sofrem modifica\u00e7\u00e3o e sua vida continua tal qual era desde sua apari\u00e7\u00e3o. A evolu\u00e7\u00e3o neste caso, diz respeito apenas \u00e0s adapta\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para manter as esp\u00e9cies vivas em acordo com as variantes da pr\u00f3pria natureza. A abelha produz um losango e em seguida uma cadeia deles para compor sua morada, sem saber que este pol\u00edgono \u00e9 distinto de um quadrado, de um c\u00edrculo e at\u00e9 mesmo, de um tri\u00e2ngulo. Portanto, \u00e9 a raz\u00e3o que promove a mudan\u00e7a no mundo. Esta prev\u00ea, calcula, idealiza, abstrai e executa, sendo o demiurgo do mundo e marcando exponencialmente as formas de intera\u00e7\u00f5es humana. <i>O trabalho aparece aqui como a categoria mais fundamental de transforma\u00e7\u00e3o da natureza e, portanto, de todas as sociedades.<\/i> Com Hegel e em seguida em Marx, o trabalho se revela como atividade humana por excel\u00eancia, como demonstra\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca de nossa ess\u00eancia. Nos realizamos no trabalho, pois esta atividade nos proporciona a sociabilidade, o enfrentamento da natureza e a nossa pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o. Com muita propriedade, demonstrou-se que todo homem perfaz a sua pr\u00f3pria natureza, constr\u00f3i a si mesmo, seu pr\u00f3prio destino e determina a Hist\u00f3ria. N\u00e3o existe humanidade fora da esfera do trabalho, tamanha a sua import\u00e2ncia e reflexo da atividade eminentemente humana. Tornou-se assim, a verdadeira possibilidade de constru\u00e7\u00e3o e conquista das riquezas materiais e espirituais da humanidade. O trabalho mudou a nossa concep\u00e7\u00e3o de tempo e as nossas condi\u00e7\u00f5es de sociabilidade. Por seu valor intr\u00ednseco e agregado, possibilitou que um indiv\u00edduo apenas pudesse em somente um lapso de sua vida, acumular bens suficientes para viver v\u00e1rias vidas ent\u00e3o. A forma como o trabalho enquanto o <i>modus <\/i>de produ\u00e7\u00e3o da riqueza, o m\u00e9todo pela qual este \u00e9 explorado, ou seja, o lucro, e ainda, o tempo que por estes s\u00e3o engendrados \u00e9 fundamental para compreendermos as mudan\u00e7as de regime e legisla\u00e7\u00e3o que s\u00e3o propostas pelas for\u00e7as legislativas, executivas e judici\u00e1rias. A pr\u00f3pria Previd\u00eancia, como resultado da for\u00e7a de trabalho tamb\u00e9m acompanha a mesma l\u00f3gica. A exig\u00eancia do tempo instant\u00e2neo, o fim dos projetos a longo e m\u00e9dio prazo (as carreiras s\u00e3o exemplos desse processo) e o imp\u00e9rio do ef\u00eamero nas rela\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o os par\u00e2metros da sociabilidade atual. A imposi\u00e7\u00e3o \u00e9 pela mudan\u00e7a, que deve ser executada todos os dias, e o \u00fanico apego poss\u00edvel \u00e9 \u00e0queles das novidades. O dia do Trabalho nos aponta em sua constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica a necessidade de compreendermos o seu significado atualmente. Apesar de suas mudan\u00e7as conceituais, ainda assim, o trabalho pauta a nossa vis\u00e3o de mundo e nossas acep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(*) Professor do Depto. de Ci\u00eancias Sociais &#8211; CCAE,\u00a0pesquisador em Filosofia Moderna e Presidente da ADUFPb &#8211; Se\u00e7\u00e3o Sindical do ANDES-SN.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(**) Foto: La Main de l&#8217;homme &#8211; Sebasti\u00e3o Salgado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1\u00ba de Maio &#8211; Dia do Trabalho Uma reflex\u00e3o sobre o tempo e o trabalho Cristiano Bonneau* Pensemos a esfera do trabalho partindo se dois momentos distintos: o trabalho enquanto atividade e o \u00f3cio (otiu). 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