{"id":17636,"date":"2017-11-14T12:11:48","date_gmt":"2017-11-14T15:11:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=17636"},"modified":"2017-11-16T12:31:27","modified_gmt":"2017-11-16T15:31:27","slug":"ataques-aos-direitos-sociais-intensificam-adoecimento-docente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/ataques-aos-direitos-sociais-intensificam-adoecimento-docente\/","title":{"rendered":"Ataques aos direitos sociais intensificam adoecimento docente"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/multitarefa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-17637\" alt=\"multitarefa\" src=\"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/multitarefa-191x300.jpg\" width=\"191\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/multitarefa-191x300.jpg 191w, https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/multitarefa-654x1024.jpg 654w, https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/multitarefa.jpg 1877w\" sizes=\"auto, (max-width: 191px) 100vw, 191px\" \/><\/a>O aumento da carga de trabalho, a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, a mercantiliza\u00e7\u00e3o do ensino, a expans\u00e3o desordenada das institui\u00e7\u00f5es de ensino superior (IES) e o produtivismo s\u00e3o algumas das fontes relevantes de sofrimento no trabalho docente, conforme o resultado de algumas pesquisas realizadas com a categoria das IES no pa\u00eds. Os levantamentos, ainda escassos, mostram um cen\u00e1rio preocupante enfrentado por professoras e professores, que sofrem desde rea\u00e7\u00f5es al\u00e9rgicas a giz e dist\u00farbios vocais, passando por estresse, ass\u00e9dio moral, depress\u00e3o e at\u00e9 casos de suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Desde 1983, a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) aponta essa categoria profissional como a segunda colocada na lista de profiss\u00f5es de mais propensas a desenvolver doen\u00e7as de car\u00e1ter ocupacional. Os docentes est\u00e3o expostos, cotidianamente, a ru\u00eddos, movimentos repetitivos, trabalho em p\u00e9, material de trabalho inadequado e antiergon\u00f4mico, intenso uso da voz e o ac\u00famulo de tarefas diversificadas. Al\u00e9m dos problemas do dia-a-dia, a expans\u00e3o universit\u00e1ria de forma precarizada, as crescentes exig\u00eancias de produtivismo acad\u00eamico e as pontua\u00e7\u00f5es da avalia\u00e7\u00e3o da Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes) s\u00e3o apontadas como principais respons\u00e1veis pelo aumento de quadros de sofrimento e adoecimento.<\/p>\n<p>Para agravar o quadro, a tramita\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito legislativo das contrarreformas da Previd\u00eancia e Trabalhista, as, j\u00e1 aprovadas, Lei das Terceiriza\u00e7\u00f5es- que permite a terceiriza\u00e7\u00e3o em todas as \u00e1reas nas esferas p\u00fablica e privada -, a Emenda Constitucional (EC) 95 &#8211; que congela os gastos p\u00fablicos por 20 anos -, e o Marco Legal da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o &#8211; que aprofunda a privatiza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e tecnologia p\u00fablicas -, resultar\u00e3o em consequ\u00eancias perversas para a carreira docente e, logo, para as rela\u00e7\u00f5es de trabalho nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\u201cSe o docente n\u00e3o entra nesta maratona do produtivismo, ele \u00e9 taxado de pregui\u00e7oso. Existe uma engrenagem de fabricar doentes que \u00e9 o Lattes. Hoje em dia, o que est\u00e1 acima de tudo \u00e9 o quanto voc\u00ea produz de artigos. Vemos tamb\u00e9m muitos professores levarem trabalho para o seu lar para dar conta de todas as atividades da institui\u00e7\u00e3o. As contrarreformas em curso interferem na sa\u00fade do trabalhador e, caso aprovadas, o impacto ser\u00e1 catastr\u00f3fico na vida dos docentes, que ter\u00e1 uma sobrecarga maior e por mais tempo. Aposentar ser\u00e1 uma exce\u00e7\u00e3o\u201d, ressaltou Sirliane de Souza Paiva, 2\u00b0 vice-presidente da Regional Nordeste I e da coordena\u00e7\u00e3o do Grupo de Trabalho de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria (GTSSA) do Sindicato Nacional.<\/p>\n<p><strong>Precariza\u00e7\u00e3o no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>A pesquisadora Izabel Cristina Borsoi, professora do Departamento de Ci\u00eancias Sociais da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo (Ufes), explica que a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho nas universidades n\u00e3o \u00e9 algo novo. No caso espec\u00edfico do Brasil, as medidas governamentais direcionadas \u00e0s institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, e postas em pr\u00e1tica nos anos 1990, afetaram o cotidiano e a sa\u00fade dos docentes.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito da carreira, houve altera\u00e7\u00f5es nos crit\u00e9rios para aposentadoria e para progress\u00f5es funcionais, cria\u00e7\u00e3o de normas produtivistas de avalia\u00e7\u00e3o de desempenho individual, com a introdu\u00e7\u00e3o da Gratifica\u00e7\u00e3o de Est\u00edmulo \u00e0 Doc\u00eancia (GED), bem como cortes de benef\u00edcios, como quinqu\u00eanios, anu\u00eanios e licen\u00e7as-pr\u00eamio. Quanto \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o, a perda de poder aquisitivo do sal\u00e1rio e, at\u00e9 recentemente, o crescimento da participa\u00e7\u00e3o dos valores adicionais salariais no total remunerat\u00f3rio, em detrimento de reajustes do sal\u00e1rio-base \u2013 situa\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou a se modificar somente em 2012, ap\u00f3s forte press\u00e3o do movimento docente, com a incorpora\u00e7\u00e3o de alguns adicionais ao sal\u00e1rio-base \u2013 tamb\u00e9m contribuiu para o quadro atual.<\/p>\n<p>Aliada a isso, a expans\u00e3o universit\u00e1ria &#8211; proposta pelo Programa de Reestrutura\u00e7\u00e3o e Expans\u00e3o das Universidades P\u00fablicas Federais (Reuni) -, com o surgimento de novos campi e o aumento vertiginoso da quantidade de cursos de gradua\u00e7\u00e3o e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, impactou de maneira brutal a rela\u00e7\u00e3o num\u00e9rica professor-aluno e aprofundou problemas infraestruturais, pedag\u00f3gicos, administrativos e financeiros, especificamente das institui\u00e7\u00f5es federais de ensino (IFE), e revelou-se desastrosa quanto \u00e0 qualidade acad\u00eamica e precarizou as condi\u00e7\u00f5es de trabalho docente.<\/p>\n<p>As crescentes exig\u00eancias em torno do desempenho e da produtividade cient\u00edfica s\u00e3o apontadas tamb\u00e9m como respons\u00e1veis pelo aumento de quadros de sofrimento e adoecimento entre os professores universit\u00e1rios, como a S\u00edndrome de Burnout ou S\u00edndrome do Esgotamento Profissional (intimamente ligada \u00e0 depress\u00e3o), que \u00e9 um estresse que acomete profissionais que trabalham com qualquer tipo de cuidado, havendo uma rela\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o direta, cont\u00ednua e altamente emocional com outras pessoas. Para Izabel Cristina Borsoi, \u00e9 muito prov\u00e1vel que a carga de responsabilidade seja a causa principal da s\u00edndrome entre os docentes.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora da Ufes, o aprofundamento dos problemas, somado ao aumento da inseguran\u00e7a por causa das pol\u00edticas de crescente conten\u00e7\u00e3o de verbas destinadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, afetam as condi\u00e7\u00f5es de trabalho docente, que ir\u00e3o piorar ainda mais com a aprova\u00e7\u00e3o das contrarreformas. \u201cNo caso dos docentes, a pesquisa que fiz j\u00e1 apontava o esgotamento de professores e professoras muito antes de se aproximarem da idade de aposentadoria, isso pelo regime atual. Muitos relatavam estar contando os dias para se afastarem dos encargos da universidade, ou porque estavam extremamente fatigados devido \u00e0 excessiva demanda acad\u00eamica, ou porque j\u00e1 se percebiam adoecendo ou, mesmo, doentes. Diante disso, acredito que a tend\u00eancia ser\u00e1 de piora da sa\u00fade dos docentes\u201d, explica a docente.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 no caso da Lei das Terceiriza\u00e7\u00f5es, ela abre, dentro do servi\u00e7o p\u00fablico, espa\u00e7o para termos um trabalhador que ir\u00e1 ser tratado como sendo de segunda categoria. Ter\u00e1 os mesmos encargos do servidor concursado, mas ter\u00e1 menor sal\u00e1rio, maior precariza\u00e7\u00e3o de direitos e tamb\u00e9m falta de apoio sindical. Como n\u00e3o ter\u00e1 v\u00ednculo direto com a institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ter\u00e1 carreira, portanto tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e1 motivos para se comprometer com o trabalho que assume\u201d, completou.<\/p>\n<p><strong>Precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e produtividade<\/strong><b><\/b><\/p>\n<p>A pesquisa citada por Izabel Cristina, \u201cPrecariza\u00e7\u00e3o do trabalho e produtividade: implica\u00e7\u00f5es no modo de vida e na sa\u00fade de docentes do ensino p\u00fablico superior\u201d, foi realizada com professores de uma universidade p\u00fablica federal e os resultados apontaram que a procura de ajuda m\u00e9dica e\/ou psicol\u00f3gica \u00e9 mais frequente entre docentes de programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, principalmente entre mulheres com maior n\u00famero de orientandos. Eles indicaram, tamb\u00e9m, que a diversidade de atividades, quase todas obrigat\u00f3rias &#8211; delimitadas e consideradas par\u00e2metro de avalia\u00e7\u00e3o do desempenho acad\u00eamico individual e coletivo \u2013 leva muitos desses professores ao sofrimento e ao adoecimento. Dos 80 docentes que assinalaram ter procurado ajuda m\u00e9dica e\/ou psicol\u00f3gica nos \u00faltimos dois anos, 62,5% estavam em programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, mais de 80% deles informaram ter problemas como enxaqueca, cistite e crises g\u00e1stricas.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora da Ufes, as queixas mais frequentes dos docentes s\u00e3o de ordem psicoemocional, como depress\u00e3o e ansiedade. Ela afirma haver, tamb\u00e9m, um conjunto de desconfortos f\u00edsicos que os pr\u00f3prios docentes n\u00e3o reconhecem como doen\u00e7a, mas que limitam a capacidade de trabalho.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil sintetizar, mas a principal causa de sofrimento e adoecimento entre docentes \u00e9 a demanda excessiva de atividades acad\u00eamicas &#8211; aulas, orienta\u00e7\u00f5es de estudantes, pesquisa, publica\u00e7\u00f5es, relat\u00f3rios de trabalho, reuni\u00f5es, participa\u00e7\u00e3o em bancas -, que n\u00e3o permite que eles redimensionem suas jornadas de trabalho para incluir, no seu cotidiano, tempo efetivo para o descanso, o lazer, a familiar e social, isto \u00e9, condi\u00e7\u00f5es para recompor de maneira adequada as energias f\u00edsicas e mentais consumidas no trabalho. Um dado importante \u00e9 que a maioria dos docentes costuma trabalhar em jornadas que invadem a esfera privada, o espa\u00e7o dom\u00e9stico. O ambiente dom\u00e9stico se torna uma extens\u00e3o do ambiente da universidade\u201d, disse.<\/p>\n<p>Professores que informaram exercer atividades acad\u00eamicas e fazer uso frequente de medicamentos, procurar ajuda m\u00e9dica e\/ou psicol\u00f3gica e sofrer desconfortos f\u00edsicos e\/ou ps\u00edquicos nunca s\u00e3o inferiores a 40%, chegando, em alguns casos, a atingir mais de 80%. Daqueles que informaram que buscam de atendimento m\u00e9dico\/psicol\u00f3gico, 50% disseram participar de bancas de qualifica\u00e7\u00e3o e de defesa de mestrado\/doutorado, 51,4% publicam seus trabalhos e 51,3% afirmaram orientar alguma monografia, disserta\u00e7\u00e3o ou tese.<\/p>\n<p>\u201cUma vez doente, o docente tem queda de sua produtividade, o que, de alguma forma afetar\u00e1 sua vida profissional. Mais de um ter\u00e7o dos integrantes da pesquisa afirma n\u00e3o se sentir produtivo, apesar de trabalhar muito\u201d, disse a pesquisadora.<\/p>\n<p>Izabel Cristina Borsoi avalia que seria importante redimensionar o trabalho docente de modo equilibrado entre as atividades que formam o trip\u00e9 da universidade: ensino, pesquisa e extens\u00e3o, principalmente, diante dos ataques que est\u00e3o ocorrendo no mundo do trabalho e pol\u00edtico em esfera global, e n\u00e3o somente no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cDeveriam ser pensadas, de fato, como tendo a mesma import\u00e2ncia, mas deixando aos docentes a possibilidade de escolha do campo em que eles mais sentem \u00e0 vontade e seguros para investirem a maior parte do seu tempo de trabalho, sem que fossem cobrados ou cerceados pelas suas escolhas. Precisar\u00edamos que a rela\u00e7\u00e3o num\u00e9rica professor-aluno fosse mais equilibrada para evitar a sobrecarga das atividades de ensino, do modo como temos hoje. Seria necess\u00e1rio reduzir a burocracia que tem tomado tempo precioso dos docentes. Precisar\u00edamos ter condi\u00e7\u00f5es de trabalho adequadas e decentes para que professores e professoras pudessem realizar suas jornadas de trabalho de oito horas na pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o, com hora para iniciar e terminar. Seria saud\u00e1vel que houvesse maior colabora\u00e7\u00e3o e mais solidariedade entre colegas e que evit\u00e1ssemos criar ambientes competitivos que, como sabemos, interferem de modo negativo nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais e na sa\u00fade dos docentes\u201d, explicou.<\/p>\n<p><strong>Estresse e depress\u00e3o na p\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Em outubro de 2013, p\u00f3s-graduandos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizaram uma pesquisa sobre as condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas dos estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o dessa universidade. A pesquisa foi conduzida simultaneamente entre estudantes do lato sensu (cursos de especializa\u00e7\u00e3o) e stricto sensu (mestrado e doutorado) da universidade. Os n\u00fameros apontaram explicitamente a deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida dos estudantes do mestrado e doutorado: 50,50% dos entrevistados afirmaram apresentar problemas de sono, ins\u00f4nia ou sono n\u00e3o restaurativo; e 41,20% afirmaram ter diminu\u00eddo a motiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O resultado apresentado pelos estudantes da UFRGS n\u00e3o \u00e9 isolado. Uma pesquisa divulgada em 2009 e publicada na Psicologia em Revista mostrou que 58,6% dos estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estavam com algum n\u00edvel de estresse. Antes, em 2005, um estudo realizado com estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do curso de Medicina Veterin\u00e1ria da Universidade Estadual Paulista (Unesp) apontou que 89% dos estudantes apresentavam sintomas de ansiedade, 64% de ang\u00fastia, 63% de des\u00e2nimo e 61% com dificuldades de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ensino Privado<\/strong><\/p>\n<p>A realidade n\u00e3o \u00e9 diferente nas institui\u00e7\u00f5es privadas na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica e Superior do Rio Grande do Sul. Um levantamento realizado entre 2008 e 2009 pelo Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Sa\u00fade e dos Ambientes de Trabalho (Diesat) apresentou a realidade da sa\u00fade dos professores e apontou o ass\u00e9dio moral como \u00e0 causa de maior sofrimento e desgaste no ambiente de trabalho dos entrevistados. 45% deles referiu sofrer problemas de sa\u00fade f\u00edsica ou mental, 49% faz tratamento com medicamentos e outros procedimentos, 78% relatou sentir cansa\u00e7o e esgotamento frequentes, principalmente, no in\u00edcio dos per\u00edodos letivos, finais de semestre e final do ano, e 33% dos professores sentem-se assediados moralmente por alunos, 31% por seus chefes e 23% por colegas de profiss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Pesquisa Nacional do ANDES-SN<\/strong><\/p>\n<p>Diante de in\u00fameros casos de adoecimento docente no Brasil e no mundo, o ANDES-SN lan\u00e7ou em novembro do ano passado, durante o VI Encontro Nacional de Sa\u00fade do Trabalhador Docente, realizado na cidade de Feira de Santana (BA), uma cartilha para instrumentalizar as se\u00e7\u00f5es sindicais na realiza\u00e7\u00e3o de uma pesquisa nacional sobre sa\u00fade docente. O levantamento permitir\u00e1 que o Sindicato Nacional obtenha um panorama nacional das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e do adoecimento docente e para fundamentar as estrat\u00e9gias de luta acerca dessas quest\u00f5es. Entre as perguntas sugeridas pela cartilha est\u00e3o: \u2018Sente-se reconhecido em seu local de trabalho?\u2019, \u2018Voc\u00ea se sente pressionado por metas de produtividade?\u2019, \u2018Voc\u00ea considera suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho precarizadas?\u2019.<\/p>\n<p>\u201cDesde o primeiro Encontro Nacional sobre a Sa\u00fade do Trabalhador, sentimos a necessidade de termos mais dados sobre o adoecimento docente, pois sempre quando paut\u00e1vamos o tema, os relatos de problemas psicol\u00f3gicos, ass\u00e9dio moral, o produtivismo, insalubridade e periculosidade eram muito contundentes. E o professor &#8211; mesmo doente e \u00e0s vezes sem saber que est\u00e1 -, continua no trabalho, pois tem uma sensa\u00e7\u00e3o de responsabilidade. Muitos adoecem lentamente, outros chegam a enfartar ou ter um acidente vascular cerebral (AVC), e quando isso acontece ningu\u00e9m relaciona ao trabalho e n\u00e3o existe interesse da universidade, que n\u00e3o quer se responsabilizar pela doen\u00e7a e morte do trabalhador. Ent\u00e3o, se fez mais que necess\u00e1rio montar esse question\u00e1rio, que foi constru\u00eddo a muitas m\u00e3os, em diversas reuni\u00f5es do GTSSA do Sindicato Nacional, em oficinas, debates, com profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade do trabalhador\u201d, disse Maria Sueli, da Associa\u00e7\u00e3o dos Docentes da Universidade Federal do Paran\u00e1 (Apufpr-Se\u00e7\u00e3o Sindical do ANDES-SN), onde a pesquisa j\u00e1 foi aplicada e adaptada de acordo com a realidade da se\u00e7\u00e3o sindical.<\/p>\n<p>Maria Sueli observou tamb\u00e9m o efeito did\u00e1tico na aplica\u00e7\u00e3o do question\u00e1rio. &#8220;Percebemos que, \u00e0 medida que aplic\u00e1vamos o question\u00e1rio, v\u00edamos o efeito pol\u00edtico de percep\u00e7\u00e3o dos professores, que tomaram consci\u00eancia de que \u00e9 preciso descansar e ter momentos de lazer\u201d, disse Maria Sueli. \u201cDo que vale tantos pontos no Lattes? Daqui para frente temos que trabalhar no sentido da preven\u00e7\u00e3o, combater o produtivismo, o ass\u00e9dio moral, e a quest\u00e3o do suic\u00eddio em decorr\u00eancia do trabalho. E isso \u00e9 muito grave\u201d, pontuou.<\/p>\n<p>Para Sirliane de Souza Paiva, coordenadora do GTSSA do Sindicato Nacional, a pesquisa sobre a sa\u00fade do trabalhador \u00e9 fundamental diante dos ataques postos. \u201cS\u00f3 conseguiremos ter dados para utilizar do ponto de vista judicial se fizermos este levantamento e compararmos com os coletados nos pr\u00f3ximos 10 anos. Os dados que levantaremos agora ser\u00e3o baseados na atual pol\u00edtica. Com qualquer tipo de mudan\u00e7a de cen\u00e1rio, continuaremos brigando para reverter esses ataques, mas precisamos al\u00e9m da luta, ter esses dados\u201d, disse.<\/p>\n<p>Em 2009, o ANDES-SN realizou o seu 1\u00b0 Encontro sobre Sa\u00fade do Trabalhador, em S\u00e3o Paulo. No ano seguinte, durante do 29\u00b0 Congresso na cidade de Bel\u00e9m (PA), a tem\u00e1tica do adoecimento docente passou a ter um car\u00e1ter central na pauta de lutas do Sindicato Nacional, tendo sido discutida em todos os setores (federais, estaduais e particulares) e foram deliberadas a\u00e7\u00f5es com o objetivo de fazer com que a entidade se aproprie da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica sobre a tem\u00e1tica do adoecimento dos trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 poss\u00edvel observar com o decorrer dos anos que a quest\u00e3o da sa\u00fade docente tem ocupado um espa\u00e7o cada vez mais central nas discuss\u00f5es do Sindicato Nacional\u201d, concluiu a diretora do ANDES-SN.<\/p>\n<p><strong>Outros pa\u00edses<\/strong><\/p>\n<p>Em 2006, uma pesquisa realizada pelo grupo de Psicologia, Cl\u00ednica e Sa\u00fade da Universidade de M\u00farcia (UM), na Espanha, com 1,1 mil servidores da institui\u00e7\u00e3o &#8211; entre professores e t\u00e9cnico-administrativos &#8211; revelou que 44,36% disseram sofrer \u201cmobbing\u201d \u2013 termo em ingl\u00eas &#8220;to mob&#8221; significa &#8220;agredir&#8221; -, ou ass\u00e9dio moral no local de trabalho. Destes, 83% afirmaram sofrer estresse cr\u00f4nico; 67,8%, de tristeza; 54% ins\u00f4nia; e 8% pensamentos suicidas. Os efeitos do \u201cmobbing\u201d sobre a v\u00edtima s\u00e3o ansiedade, ins\u00f4nia, falta de apetite ou apetite excessivo, dores fortes de cabe\u00e7a, tonturas, esgotamento e depress\u00e3o. Mais de um ter\u00e7o dos que afirmaram sofrer de estresse apresentam sintomas f\u00edsicos.<\/p>\n<p>Os entrevistados afirmaram sofrer tamb\u00e9m com os \u201cstalkers\u201d &#8211; palavra inglesa que significa &#8220;perseguidor&#8221;. Desses, 51,6% relataram que os \u201cstalkers\u201d distorcem o que \u00e9 dito no trabalho, 49% afirmaram que estes avaliam o trabalho de forma injusta ou vi\u00e9s negativo, 44% que inventam boatos e cal\u00fanias que ferem a imagem dos entrevistados. Segundo o professor Jos\u00e9 Buend\u00eda, coordenador da pesquisa, por tr\u00e1s das agress\u00f5es, o prop\u00f3sito, na maioria das vezes, \u00e9 que as v\u00edtimas abandonem a academia, j\u00e1 que elas n\u00e3o podem ser demitidas.<\/p>\n<p><em>Reportagem inicialmente publicada no InformANDES de Maio de 2017. Ilustra\u00e7\u00f5es de Rafael Balbueno.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O aumento da carga de trabalho, a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, a mercantiliza\u00e7\u00e3o do ensino, a expans\u00e3o desordenada das institui\u00e7\u00f5es de ensino superior (IES) e o produtivismo s\u00e3o algumas das fontes relevantes de sofrimento no trabalho docente, conforme o resultado de algumas pesquisas realizadas com a categoria das IES no pa\u00eds. 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