{"id":1657,"date":"2011-05-23T10:50:48","date_gmt":"2011-05-23T14:50:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/visao-perversa\/"},"modified":"2011-05-23T10:50:48","modified_gmt":"2011-05-23T14:50:48","slug":"visao-perversa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/visao-perversa\/","title":{"rendered":"Vis\u00e3o perversa"},"content":{"rendered":"<p><em>Merval Pereira, O Globo<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 um aspecto perverso nessa crise do livro did\u00e1tico de portugu\u00eas, que o MEC insiste em manter em circula\u00e7\u00e3o, que ultrapassa qualquer medida do bom-senso de um governo, qualquer governo.<\/p>\n<p>A pretexto de defender a fala popular como alternativa v\u00e1lida \u00e0 norma culta do portugu\u00eas, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 estimulando os alunos brasileiros a cultivarem seus erros, que ter\u00e3o efeito direto na sua vida na sociedade e nos resultados de exames, nacionais e internacionais, que avaliam a situa\u00e7\u00e3o de aprendizado dos alunos, debilitando mais ainda a competitividade do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O ministro Fernando Haddad, que j\u00e1 protagonizou diversas confus\u00f5es administrativas, agora se cala diante dessa &#8220;pedagogia da ignor\u00e2ncia&#8221; que apresenta aos alunos da rede p\u00fablica a defesa de erros de portugu\u00eas, como se fossem corretas ou aceit\u00e1veis express\u00f5es populares como &#8220;n\u00f3s pega o peixe&#8221; ou &#8220;dois real&#8221;.<\/p>\n<p>(Ali\u00e1s, cada vez que escrevo essas frases, o corretor de texto teima em sublinh\u00e1-las em verde, como se estivessem erradas. Esse computador ainda n\u00e3o passou pelo crivo do MEC).<\/p>\n<p>Mas \u00e9 o pr\u00f3prio MEC que veicula an\u00fancios exaltando supostos avan\u00e7os dos alunos brasileiros no Pisa (Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Alunos).<\/p>\n<p>O pa\u00eds registrou crescimento em todas as notas, embora continue muito abaixo da m\u00e9dia dos pa\u00edses da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), e mesmo de alguns da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Ora, se o pr\u00f3prio governo baliza sua atua\u00e7\u00e3o pela r\u00e9gua do Pisa, como justificar que a defesa de uma alternativa da fala correta seja uma pol\u00edtica oficial do Estado brasileiro?<\/p>\n<p>A professora Helo\u00edsa Ramos, autora do livro &#8220;Por uma vida melhor&#8221;, da Cole\u00e7\u00e3o Viver, Aprender (Editora Global) acredita ser &#8220;importante que o falante de portugu\u00eas domine as duas variantes e escolha a que julgar adequada \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o de fala&#8221;.<\/p>\n<p>Seria preciso ent\u00e3o que as escolas e faculdades ensinassem o portugu\u00eas popular para os que foram alfabetizados pela norma culta, numa radicaliza\u00e7\u00e3o esdr\u00faxula que esse racioc\u00ednio estimula.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter ideol\u00f3gico de certos livros did\u00e1ticos utilizados pelo MEC, especialmente de hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, ganha assim uma nova vertente, mais danosa que a primeira, ou melhor, mais prejudicial para a vida do cidad\u00e3o-aluno.<\/p>\n<p>Enquanto distor\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que afetem posi\u00e7\u00f5es pessoais do aluno podem ser revertidas no decorrer de sua vida, por outros conhecimentos e viv\u00eancias, distor\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas afetam a perspectiva desse aluno, que permanecer\u00e1 analfabeto, sem condi\u00e7\u00f5es de melhorar de vida.<\/p>\n<p>Fosse o livro uma obra de lingu\u00edstica da professora Helo\u00edsa Ramos, nada a opor quanto \u00e0 sua exist\u00eancia, embora seus m\u00e9todos e conclus\u00f5es rasteiras do que seja preconceito contra a fala popular possam, sim, ser refutados como uma mera mistifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Se fosse um romance, n\u00e3o haveria problema algum em reproduzir a maneira de falar de uma regi\u00e3o, ou os erros de portugu\u00eas de um personagem.<\/p>\n<p>Mas o livro did\u00e1tico n\u00e3o pode aceitar como certo o erro de portugu\u00eas. Did\u00e1tica, pelo dicion\u00e1rio (?) \u00e9 &#8220;a arte de transmitir conhecimento, t\u00e9cnica de ensinar&#8221; ou &#8220;que proporciona instru\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O fato de falarem de certa maneira em algumas regi\u00f5es n\u00e3o quer dizer que este ou aquele linguajar represente o portugu\u00eas correto.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o deturpada do que seja ensinar aparece na declara\u00e7\u00e3o de um assessor an\u00f4nimo do MEC no GLOBO de ontem, alegando que n\u00e3o cabe ao minist\u00e9rio dizer &#8220;o que \u00e9 certo e o que errado&#8221;, e nem mesmo fazer a an\u00e1lise do conte\u00fado dos livros did\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o exerce esses deveres b\u00e1sicos, o que faz o MEC em rela\u00e7\u00e3o ao ensino do pa\u00eds?<\/p>\n<p>Seria um equ\u00edvoco lament\u00e1vel e perigoso se o MEC, com essa postura, estivesse pretendendo fazer uma pol\u00edtica a favor dos analfabetos, dos ignorantes, como se ela fosse a defesa dos que n\u00e3o tiveram condi\u00e7\u00f5es de estudar.<br \/>\nNa verdade, est\u00e1 \u00e9 agravando as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias do cidad\u00e3o-aluno que busca na escola melhorar de vida, limitando, se n\u00e3o impossibilitando, que atinjam esse objetivo.<br \/>\nSe, por\u00e9m, a base da teoria for uma tentativa de querer justificar a maneira como o presidente Lula fala, a\u00ed ent\u00e3o teremos um agravante ao ato criminoso de manter os estudantes na ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Querer transformar um defeito, uma falha da educa\u00e7\u00e3o formal do presidente-oper\u00e1rio, em uma coisa merit\u00f3ria \u00e9 um desservi\u00e7o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os erros de portugu\u00eas de Lula n\u00e3o t\u00eam m\u00e9rito nenhum, ele os explora para fazer pol\u00edtica, \u00e9 um cl\u00e1ssico do populismo, cuja consequ\u00eancia \u00e9 deseducar a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas ele nunca teve a coragem de defender a fala errada, embora goste de ironizar palavras ou express\u00f5es que considera rebuscadas.<\/p>\n<p>Ele desvaloriza o estudo, com frases como &#8220;n\u00e3o sei por que estudou tanto, e eu fiz mais do que ele&#8221;, ou quando se mostra como exemplo de que \u00e9 poss\u00edvel subir na vida sem estudar.<\/p>\n<p>Mas em outras ocasi\u00f5es, estimula que a universidade seja acess\u00edvel a todos, numa atitude que parece paradoxal, mas que ganha coer\u00eancia quando se analisam os objetivos pol\u00edticos de cada uma das atitudes.<\/p>\n<p>Se, no entanto, o desd\u00e9m pela norma culta do portugu\u00eas transformou-se em pol\u00edtica de Estado, a\u00ed teremos a certeza de termos chegado ao fundo do po\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Merval Pereira, O Globo H\u00e1 um aspecto perverso nessa crise do livro did\u00e1tico de portugu\u00eas, que o MEC insiste em manter em circula\u00e7\u00e3o, que ultrapassa qualquer medida do bom-senso de um governo, qualquer governo. 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