{"id":15454,"date":"2017-02-06T15:13:22","date_gmt":"2017-02-06T18:13:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=15454"},"modified":"2017-02-06T15:19:26","modified_gmt":"2017-02-06T18:19:26","slug":"andes-sn-entrevista-sara-granemann-sobre-a-contrarreforma-da-previdencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/andes-sn-entrevista-sara-granemann-sobre-a-contrarreforma-da-previdencia\/","title":{"rendered":"ANDES-SN entrevista Sara Granemann sobre a Contrarreforma da Previd\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Durante o 36\u00ba Congresso do ANDES-SN, realizado entre 23 e 28 de janeiro na Universidade Federal do Mato Grosso, em Cuiab\u00e1, um dos temas que foi amplamente debatido foi a contrarreforma da Previd\u00eancia, prevista na Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) 287\/2016, em tramita\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional. Nas resolu\u00e7\u00f5es aprovadas, est\u00e3o presentes diversas estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o para intensificar a luta contra a PEC 287\/16 e para barrar a contrarreforma da Previd\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como forma de instrumentalizar os docentes, o ANDES-SN promoveu, durante o Congresso, debates sobre os ataques \u00e0 previd\u00eancia social. Uma das palestrantes, a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Sara Granemann, concedeu entrevista coletiva aos jornalistas do Sindicato Nacional e das Se\u00e7\u00f5es Sindicais presentes no 36\u00ba Congresso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Confira a entrevista:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O governo justifica a reforma da previd\u00eancia em virtude de um suposto rombo que existe na previd\u00eancia. A justificativa se sustenta?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Sara Granemann (SG)<\/b> &#8211;\u00a0Falar em rombo \u00e9 falar no financiamento da Previd\u00eancia, das aposentadorias, das pens\u00f5es e de quem tem direito ou n\u00e3o. Eu digo que a principal fal\u00e1cia \u00e9 a fal\u00e1cia do financiamento. N\u00e3o h\u00e1 rombo na Previd\u00eancia. No entanto, talvez qualquer outro argumento n\u00e3o seria t\u00e3o forte para convencer as pessoas de que elas tamb\u00e9m devem dar sua cota de sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o se fala do financiamento e que falta de dinheiro, v\u00e3o dizer que ir\u00e3o retirar o direito \u00e0 aposentadoria baseado em qu\u00ea? Tem que explicitar de alguma forma. O argumento que consegue ter alguma base de cientificidade, do ponto de vista do Capital e dos seus governos, \u00e9 o de gest\u00e3o e de or\u00e7amento. Se falarem de qualquer outro argumento, n\u00e3o ter\u00e1 a for\u00e7a de tentar se tornar uma verdade cient\u00edfica, comprovada com n\u00fameros, com contas, com taxas de juros, com proje\u00e7\u00f5es para o futuro e toda essa parafern\u00e1lia, que n\u00f3s tamb\u00e9m sabemos fazer. E, exatamente porque fazemos, \u00e9 que dizemos que esse argumento n\u00e3o \u00e9 verdadeiro, n\u00e3o h\u00e1 d\u00e9ficit.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se teria outra forma de argumentar, que impactasse tanto as pessoas do ponto de vista da desprote\u00e7\u00e3o da velhice. N\u00e3o tenho d\u00favida que as duas maiores trag\u00e9dias para o trabalhador \u00e9 estar sem emprego e estar sem prote\u00e7\u00e3o na velhice, portanto estar sem Previd\u00eancia. Acho que esses s\u00e3o os dois eixos da vida do trabalhador e, por isso, tem que se falar em financiamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista do Capital, isso \u00e9 o financiamento da grande ambi\u00e7\u00e3o do Capital, porque h\u00e1 uma massa de recursos t\u00e3o gigantesca que s\u00f3 a Previd\u00eancia pode acumular e isso \u00e9 parte importante, n\u00e3o exclusiva, mas central, do recrudescimento das crises e das possibilidades de expans\u00e3o dos capitais. \u00c9 um recurso que \u00e9 renovado mensalmente e que \u00e9 de longo prazo. \u00c9 s\u00f3 por isso que os capitais t\u00eam possibilidade de novos investimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num momento de crise, como esse, isso \u00e9 muito importante. E, fora da crise, tamb\u00e9m \u00e9 importante para ter novas frentes, porque, se n\u00e3o se pode vender, renovadamente, milh\u00f5es ou bilh\u00f5es de carros por ano ou por d\u00e9cadas, ent\u00e3o \u00e9 preciso encontrar, como [Karl] Marx j\u00e1 explicou para a gente, novas formas de investir montantes de riquezas para se transformar em capitais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tenho d\u00favidas que estamos num modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista em outro momento, que \u00e9 transformar aquilo que foi direito e pol\u00edtica social em investimentos financeiros. \u00c9 impr\u00f3prio dizer isso, porque teria de se debater mais-valia, mas tornar a Educa\u00e7\u00e3o em uma ind\u00fastria de educa\u00e7\u00e3o, tornar a Previd\u00eancia uma ind\u00fastria da previd\u00eancia e etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que falar ind\u00fastria n\u00e3o \u00e9 correto do ponto de vista conceitual, mas \u00e9 uma ideia para dizer que, isso que para n\u00f3s foi direito, est\u00e1 numa disputa com o Capital para se tornar um neg\u00f3cio. N\u00e3o \u00e9 que est\u00e1 come\u00e7ando agora, mas nessa fase, suponho, do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, n\u00e3o h\u00e1 muito mais coisas para se transformar em novas mercadorias e em novas frentes de investimentos dos capitais. Por isso, esse ataque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 localizado no Brasil e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com a Previd\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Outra justificativa para a contrarreforma da Previd\u00eancia \u00e9 o aumento da expectativa de vida da popula\u00e7\u00e3o, da taxa de sobrevida nas faixas acima dos 60 anos. S\u00f3 que com a proposta de 49 anos de contribui\u00e7\u00e3o, para poder ter acesso \u00e0 aposentadoria integral, esse benef\u00edcio n\u00e3o se torna uma ilus\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Sara Granemann<\/b> &#8211;\u00a0\u00c9 muito ilus\u00f3rio, porque se a expectativa de vida, em boa parte dos estados do pa\u00eds, \u00e9 de 65 a 69 anos, especialmente para os homens, e se o usu\u00e1rio chegar ao direito de ter o benef\u00edcio aos 65, o ter\u00e3o por tr\u00eas ou quatro anos no m\u00e1ximo, supondo que n\u00e3o morreu antes, porque v\u00e1rios morrer\u00e3o e contribuir\u00e3o ao longo de d\u00e9cadas sem ter direito ao benef\u00edcio. A\u00ed sim os 65 n\u00e3o s\u00e3o cabal\u00edsticos, \u00e9 a atu\u00e1ria, a estat\u00edstica, \u00e9 a proje\u00e7\u00e3o pela expectativa de vida, que, no caso previdenci\u00e1rio, \u00e9 expectativa de morte. Ent\u00e3o, \u00e9 claro que \u00e9 ilus\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, a expectativa de vida tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma determina\u00e7\u00e3o importante para se discutir a Previd\u00eancia como se est\u00e1 fazendo no nosso pa\u00eds. Por qu\u00ea? Porque junto com a expectativa de vida, que de fato aumentou, tem outra coisa que n\u00e3o entra nessa equa\u00e7\u00e3o do governo e dos capitais, e que n\u00f3s precisamos fazer, n\u00f3s pesquisadores, pesquisadores sindicalistas, militantes e que atuamos na luta de classe. N\u00f3s temos de fazer um c\u00e1lculo bastante dif\u00edcil, eu estou tentando fazer isso, mas \u00e9 um c\u00e1lculo bastante dif\u00edcil, porque a\u00ed temos que trabalhar com m\u00e9dias, que \u00e9 o seguinte: a expectativa de vida n\u00e3o pode ser tida como um privil\u00e9gio porque, junto dela, tem de se calcular tamb\u00e9m o aumento da produtividade do trabalho. Se voc\u00ea colocar a expectativa de vida de uma categoria com o aumento da produtividade do trabalho, por exemplo, a categoria dos metal\u00fargicos, em tr\u00eas d\u00e9cadas, passou de 40 anos de expectativa de vida para 60, e, se a gente calcular nessas mesmas d\u00e9cadas o aumento de produtividade do trabalho para essa categoria n\u00f3s vamos ver que \u00e9 absolutamente inconsistente dizer que, porque aumentou a expectativa de vida, n\u00f3s teremos que mudar os padr\u00f5es previdenci\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00f3s juntarmos essas duas determina\u00e7\u00f5es o que n\u00f3s vamos ver \u00e9 que tem espa\u00e7o importante para elevar os valores das aposentadorias e diminuir as exig\u00eancias de tempo, contribui\u00e7\u00e3o e idade para que as pessoas se aposentem. Porque, se a expectativa de vida duplicou ou triplicou, a produtividade do trabalho certamente centuplicou. \u00c9 absolutamente mais importante do que o aumento da expectativa de vida. Essas duas determina\u00e7\u00f5es t\u00eam rela\u00e7\u00e3o, porque o aumento da produtividade tamb\u00e9m possibilita avan\u00e7os e saltos na expectativa de vida, e a\u00ed \u00e9 aumento da produtividade n\u00e3o como conquista do Capital, mas como conquista do trabalho, sen\u00e3o, n\u00f3s estar\u00edamos vivendo 30 anos ou menos, como aqueles que viviam nas cavernas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Voc\u00ea estuda Previd\u00eancia h\u00e1 muitos anos. Sobre os ataques contidos nessa contrarreforma, quais aspectos que chamam mais aten\u00e7\u00e3o e por qu\u00ea?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Sara Granemann<\/b> &#8211;\u00a0Eu diria que tem um aspecto e que \u00e9 pouco explorado. Essa reforma \u00e9, em primeiro lugar, continuidade das outras duas. \u00c9 continuidade da feita pelo governo Fernando Henrique [Cardoso] e da do Lula [Lu\u00eds In\u00e1cio Lula da Silva]. Ela se alicer\u00e7a sobre essas duas, e todas as reformas infraconstitucionais que a Dilma [Rousseff] fez. Por exemplo, aquela que estabelece por quanto tempo o c\u00f4njuge, dependendo da idade, tem direito \u00e0 aposentadoria. E aqui falando c\u00f4njuge, s\u00f3 para deixar claro, \u00e9 a c\u00f4njuge. \u00c9 direcionado \u00e0s mulheres, contra as mulheres. Estabeleceu uma legisla\u00e7\u00e3o garantindo que mulheres jovens, \u201cafeitas a golpe do ba\u00fa\u201d a homens que ganham um sal\u00e1rio m\u00ednimo, especialmente no Norte e Nordeste brasileiros, devem ter, dependendo do tempo de casamento e da sua pr\u00f3pria idade, um tempo de pens\u00e3o. Isso \u00e9 muito brutal, \u00e9 machista, mis\u00f3gino, \u00e9 brutal contra as mulheres. Ent\u00e3o, tudo isso n\u00e3o pode ser desvinculado dessa proposta atual. Segundo, que boa parte do estudo que leva a falar do financiamento e das fra\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora dentro da reforma proposta pela PEC 287\/16, est\u00e1 em um estudo feito durante o governo de Dilma, com o \u201cluxuoso\u201d aux\u00edlio de todas as centrais menos a CSP-Conlutas. Fizeram um diagn\u00f3stico que leva a tudo que est\u00e1 na PEC 287. Mas isso \u00e9 uma introdu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que eu acho que \u00e9 mais caracter\u00edstico dessa PEC? O que \u00e9 mais caracter\u00edstico, e pode ser sua principal fragilidade, \u00e9 que, diferente de todas as outras, ela n\u00e3o se concentra em uma fra\u00e7\u00e3o de trabalhadores, ela ataca a todos. Nisso \u00e9 bem fiel a um documento de 1994 do Banco Mundial que [prop\u00f5e] como metodologia, como t\u00e1tica. Para os trabalhadores urbanos falam \u201cvoc\u00eas t\u00eam que fazer sacrif\u00edcio porque os rurais n\u00e3o pagam o suficiente para ter suas aposentadorias\u201d; para os homens: \u201cpor que voc\u00eas t\u00eam de trabalhar mais se as mulheres vivem mais?\u201d; para os jovens: \u201colhem os privilegiados, que querem preservar seus direitos, j\u00e1 est\u00e3o pr\u00f3ximos da aposentadoria ou j\u00e1 est\u00e3o aposentados e voc\u00eas n\u00e3o ter\u00e3o nada\u201d. Ent\u00e3o constroem uma metodologia de instituir, intra classe trabalhadora, uma guerra de todos contra todos. Esse \u00e9 um ponto forte e inteligente da PEC. Antecipar como guerra das fra\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora, para que n\u00e3o nos compreendamos como classe para si, mas que cada fra\u00e7\u00e3o se defenda como classe em si, na rela\u00e7\u00e3o da totalidade da classe trabalhadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, isso tamb\u00e9m \u00e9 sua fragilidade, porque como a PEC se arvora a atacar a tudo e a todos de uma \u00fanica vez, diferente do que fez Fernando Henrique, que atacou o regime geral e fez algumas coisinhas contra o regime pr\u00f3prio, diferente do que fez Lula, que atacou o regime pr\u00f3prio dos servidores p\u00fablicos federais e fez algumas coisas contra o regime geral dos trabalhadores, essa PEC \u00e9 contra o regime geral e contra todos os regimes pr\u00f3prios, \u00e9 contra o federal, contra o regime dos estados, contra o regime de todos os munic\u00edpios, contra homens e mulheres, contra jovens e velhos, contra rurais e urbanos, ela ataca a totalidade da classe trabalhadora. Isso pode ser o que nos leve a lutar uma mesma luta, como classe trabalhadora. Claro que isso n\u00e3o \u00e9 simples, nem f\u00e1cil. O que \u00e9 a for\u00e7a da PEC, \u00e9 tamb\u00e9m seu p\u00e9 de barro. Eles partem de uma avalia\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 tudo fragmentado e a luta de classes est\u00e1 num momento de descenso. Ent\u00e3o, vamos fazer esse trabalho r\u00e1pido atacando a todos. Pode ser, penso eu, que a maior for\u00e7a da PEC seja tamb\u00e9m sua fragilidade. Pelo menos dentro do ANDES-SN, se n\u00f3s n\u00e3o conseguirmos fazer a luta dos diferentes regimes pr\u00f3prios, compreendendo que estamos sendo atacados da mesma forma, perderemos uma oportunidade \u00edmpar. A temporalidade dos federais e estaduais \u00e9 diferenciada, mas [em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 PEC 287] essa temporalidade \u00e9 uma s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Como voc\u00ea analisa essas medidas de austeridade adotadas pelo governo federal no Brasil e o que nos fez chegar a esse momento do pa\u00eds?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SG &#8211;\u00a0Acho que esse momento de austeridade \u00e9 parte importante da resposta do Capital a mais um momento de crise, uma crise forte, importante e brutal, muito aguda, como nunca antes foi visto. O argumento que defendo nos estudos que fa\u00e7o, e na milit\u00e2ncia idem, porque meu estudo n\u00e3o est\u00e1 separado da milit\u00e2ncia, \u00e9 que o Estado sempre teve a responsabilidade de preservar as condi\u00e7\u00f5es gerais de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, desde que esse se instituiu. Mas, ao longo do desenvolvimento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, as fun\u00e7\u00f5es do Estado se alteram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, no come\u00e7o [do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista], nos s\u00e9culos XVIII e XIX, o Estado era mais liberal, embora sempre teve que intervir para que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista n\u00e3o se desmontasse, ainda que interven\u00e7\u00f5es mais abreviadas, como uso da for\u00e7a, controle da for\u00e7a, controle do proletariado e em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancias, como uma peste, uma cat\u00e1strofe, quando transita do final do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX, se consolida, principalmente entre as duas grandes guerras mundiais, o Estado monopolista e assume fun\u00e7\u00f5es muito mais sofisticadas. O Estado n\u00e3o age mais s\u00f3 em situa\u00e7\u00f5es emergenciais, para garantir a propriedade privada somente em situa\u00e7\u00f5es emergenciais, ele assume uma s\u00e9rie de outras fun\u00e7\u00f5es. Dentre essas fun\u00e7\u00f5es, uma \u00e9 possibilitar aos capitais acesso aos fundos p\u00fablicos, a dinheiro em quantidades absolutamente gigantescas para que, na vig\u00eancia das crises, os grandes capitais, tenham dispon\u00edveis esses recursos para resolver suas crises.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exemplo mais emblem\u00e1tico \u00e9 a quebra da General Motors, sob o [governo do presidente estadunidense Barack] Obama. A General Motors n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma gigantesca ind\u00fastria de autom\u00f3veis, ela \u00e9 um conglomerado que tem bancos e uma mir\u00edade de neg\u00f3cios. O Obama compra para os Estados Unidos 60% da General Motors e diz: \u201cmas n\u00f3s n\u00e3o queremos saber da administra\u00e7\u00e3o, voc\u00eas [empresa] cuidem da General Motors\u201d. Ou seja, transfere um dinheiro que \u00e9 resultante dos impostos dos trabalhadores, que pagam diretamente por meio do consumo ou formando lucro para o Capital. Essa riqueza n\u00e3o foi gerada pelo Capital e sim por meio do trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Simplificando, essa massa de recursos \u00e9 o ponto, no que se refere ao Estado, da luta de classes no mundo hoje. Por qu\u00ea? Porque h\u00e1 uma disputa entre o Capital e o trabalho sobre parte, muito significativa, do fundo p\u00fablico, que est\u00e1 alocado em pol\u00edticas sociais, incluindo sindicais, trabalhistas, que s\u00e3o os instrumentos que realizam os direitos que a classe trabalhadora, em diferentes pa\u00edses, conseguiu impor aos capitais. \u00c9 desse recurso que n\u00f3s estamos falando. N\u00e3o que n\u00f3s tenhamos a ilus\u00e3o de que o Estado seja da classe trabalhadora, mas fazemos a luta pela manuten\u00e7\u00e3o dos seus direitos, e, portanto, pela manuten\u00e7\u00e3o de uma parte do fundo p\u00fablico, do or\u00e7amento do Estado ou da Uni\u00e3o que pode ou n\u00e3o ficar com os trabalhadores, sob a forma de realiza\u00e7\u00e3o de direitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o Capital, o que pode ser destinado aos direitos sociais, \u00e9 aquilo que o Banco Mundial disse no documento de 1994, que vai extinguir as pol\u00edticas sociais, mas essas podem ser apenas para realizar os m\u00ednimos sociais. M\u00ednimo social na Alemanha pode ser dois mil euros, no Brasil pode ser meio sal\u00e1rio m\u00ednimo, um ter\u00e7o de sal\u00e1rio m\u00ednimo. Isso depende de v\u00e1rias modula\u00e7\u00f5es como o est\u00e1gio da luta de classe e a produ\u00e7\u00e3o daquele pa\u00eds na divis\u00e3o internacional do trabalho. Mas, o que est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 o seguinte: cerca de 40% do fundo p\u00fablico brasileiro, e n\u00f3s estamos falando, neste ano, de 3 trilh\u00f5es de reais, um trilh\u00e3o de d\u00f3lares, que n\u00e3o est\u00e1 com o Capital diretamente. Como vamos transferir para o Capital esse recurso? Austeridade \u00e9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, veja, [o que se vende \u00e9 que] austeridade \u00e9 algo que esses \u201ctrabalhadores privilegiados\u201d devem fazer, a exemplo do Capital, que j\u00e1 \u00e9 austero, que nos suborna, que sonega. Austero tem que ser o trabalhador, que se aposenta muito cedo. A austeridade \u00e9 esse pacote ros\u00e1ceo que envolve esse discurso. Limpando, \u00e9 a luta de classes pelo controle de uma parte j\u00e1 pequena do fundo p\u00fablico que est\u00e1 alocado para realizar direitos dos trabalhadores. A austeridade \u00e9 dizer o seguinte: voc\u00ea est\u00e1 vivendo acima das suas possibilidades e v\u00e3o perder, dependendo da faixa de recebimento da previd\u00eancia, entre 30% e 50% do que recebem. Ent\u00e3o, corta sal\u00e1rios, corta previd\u00eancia. Mas a austeridade \u00e9 dirigida s\u00f3 aos trabalhadores, n\u00e3o s\u00e3o pol\u00edticas de austeridade contra os capitais. Ou seja, essa \u00e9 a palavra que os capitais, os governos utilizam: temos de ser austeros. Mas temos de ser austeros, e, ao mesmo tempo, pagamos empr\u00e9stimos para a [Rede] Globo, fazemos concess\u00f5es para as empresas privadas de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a nossa greve de 2015, n\u00f3s est\u00e1vamos lutando contra o corte de R$11 bilh\u00f5es para as universidades federais. Duas semanas depois que [o governo] cortou os R$11 bilh\u00f5es do or\u00e7amento das universidade federais, a mesma presidente Dilma liberou R$17 bilh\u00f5es para as empresas privadas de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, austero para quem? N\u00e3o \u00e9 que \u00e9 definitivo, mas no est\u00e1gio atual da luta de classes, na minha concep\u00e7\u00e3o, como nunca antes o fundo p\u00fablico tem de ser liberado das pol\u00edticas sociais e dos direitos dos trabalhadores para ficar dispon\u00edvel inteiramente aos capitais. Mais do que em qualquer \u00e9poca, o Capital n\u00e3o consegue resolver suas crises sem utilizar esse fundo p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Como voc\u00ea j\u00e1 mencionou, essa quest\u00e3o \u00e9 um ataque aos trabalhadores no mundo todo. Gostaria que voc\u00ea falasse dessa sua experi\u00eancia em Portugal e na It\u00e1lia, analisando um pouco do que foi feito com a aposentadoria em outros pa\u00edses e o que est\u00e1 para acontecer conosco.\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Sara Granemann<\/b> &#8211;\u00a0Na Europa, especialmente na Europa do sul, mas tamb\u00e9m na Fran\u00e7a, nos mesmos anos que n\u00f3s aqui, os trabalhadores sofrem ataques na Previd\u00eancia e eles t\u00eam lutado de forma muito aguerrida. Isso tem rela\u00e7\u00e3o, na minha an\u00e1lise, \u00e9 uma disputa do fundo p\u00fablico. E, por isso, as mesmas lutas ocorrem no mundo inteiro no mesmo per\u00edodo. Se trata de liberar fundo p\u00fablico, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas no mundo inteiro, para o Capital. A \u00fanica forma de liberar este fundo p\u00fablico, porque do resto j\u00e1 se apropriam, \u00e9 ser austero com os direitos dos trabalhadores. A l\u00f3gica \u00e9 esta: a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Seja por trabalho necess\u00e1rio ou por trabalho excedente, que \u00e9 o centro. Mas o Capital tamb\u00e9m conseguiu encontrar formas tamb\u00e9m de expropriar o trabalho necess\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A previd\u00eancia privada \u00e9 uma forma dessas, de expropriar o trabalho necess\u00e1rio. Te convencem a devolver aos capitais uma parte do sal\u00e1rio que voc\u00ea teria para comida, viagem, cultura ou habita\u00e7\u00e3o melhor. Voc\u00ea devolve para uma previd\u00eancia complementar, que provavelmente voc\u00ea n\u00e3o receber\u00e1 e, portanto, voc\u00ea tem no tempo presente uma condi\u00e7\u00e3o de vida menor. Isso \u00e9 aumento da explora\u00e7\u00e3o, porque voc\u00ea devolve ao Capital n\u00e3o s\u00f3 o excedente, mas d\u00e1 tamb\u00e9m ao Capital o trabalho necess\u00e1rio sob uma cota do seu sal\u00e1rio. \u00c9 aumento da explora\u00e7\u00e3o, \u00e9 um projeto que se v\u00ea realizar em todos os pa\u00edses, porque o Capital n\u00e3o nos quer internacionalistas, mas ele o \u00e9. Aplica as mesmas pol\u00edticas simultaneamente no planeta inteiro. As rea\u00e7\u00f5es e aquilo que o Capital consegue dependem da luta de classes em cada pa\u00eds. No M\u00e9xico, al\u00e9m de terem uma previd\u00eancia melhor que a da gente, eles est\u00e3o impedindo de forma mais aguda a contrarreforma l\u00e1. Tanto da educa\u00e7\u00e3o, da previd\u00eancia e da sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um argumento que eu utilizo, analisando a hist\u00f3ria, \u00e9 que, em todos os pa\u00edses em que ocorreram revolu\u00e7\u00f5es, \u00e9 mais dif\u00edcil alterar a previd\u00eancia. Mesmo que seja revolu\u00e7\u00e3o burguesa, com expropria\u00e7\u00e3o de uma classe pela outra, ou que se tenha elementos de luta revolucion\u00e1ria, como teve no M\u00e9xico. Eles t\u00eam uma constitui\u00e7\u00e3o elaborada em 1917, que \u00e9 muito mais avan\u00e7ada que a nossa no campo da previd\u00eancia. Portugal tamb\u00e9m teve uma revolu\u00e7\u00e3o e tinha uma constitui\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas previdenci\u00e1rias muito mais avan\u00e7adas. E, tem dois pa\u00edses no mundo em que os trabalhadores n\u00e3o contribuem: a \u00c1frica do Sul, mas que a previd\u00eancia \u00e9 universal e no valor de 30 d\u00f3lares, e a gloriosa R\u00fassia, onde os trabalhadores recebem uma previd\u00eancia, alcan\u00e7ando uma determinada idade, que \u00e9 universal. [Na R\u00fassia] Aos 65 anos, todos t\u00eam uma previd\u00eancia de 1400 d\u00f3lares, homens, mulheres, campo e cidade. Est\u00e1 em debate contrarreforma da previd\u00eancia l\u00e1? De jeito nenhum. Tem coisas que n\u00e3o se pode mexer, especialmente em lugares que passaram por determinadas experi\u00eancias. A Fran\u00e7a tamb\u00e9m. A Comuna de Paris \u00e9 o primeiro lugar na hist\u00f3ria dos trabalhadores que fala em prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria. Dez anos depois, em 1881, na Alemanha, o Estado coloca na lei: vamos ter previd\u00eancia aqui. Porque os trabalhadores alem\u00e3es j\u00e1 estavam vendo os trabalhadores franceses e podiam fazer, de repente, a Comuna de Berlim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Participaram da entrevista:<\/b> Daniel Amorim (Adua SSind.),\u00a0Bruna Homrich (Sedufsm SSind.), Gabriela Venzke (Adufpel SSind.),\u00a0Kelvin Melo (Adufrj SSind.)\u00a0e Renata Maffezoli (ANDES-SN).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edi\u00e7\u00e3o: ANDES-SN<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o 36\u00ba Congresso do ANDES-SN, realizado entre 23 e 28 de janeiro na Universidade Federal do Mato Grosso, em Cuiab\u00e1, um dos temas que foi amplamente debatido foi a contrarreforma da Previd\u00eancia, prevista na Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) 287\/2016, em tramita\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional. 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