{"id":1419,"date":"2010-12-06T09:44:50","date_gmt":"2010-12-06T13:44:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/complexo-do-alemao-subo-e-nunca-chego-ao-ceu\/"},"modified":"2010-12-06T09:44:50","modified_gmt":"2010-12-06T13:44:50","slug":"complexo-do-alemao-subo-e-nunca-chego-ao-ceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/complexo-do-alemao-subo-e-nunca-chego-ao-ceu\/","title":{"rendered":"Complexo do Alem\u00e3o: subo e nunca chego ao c\u00e9u"},"content":{"rendered":"<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Complexo do Alem\u00e3o: subo e nunca chego ao c\u00e9u<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Jaldes Reis de Meneses<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria (UFPB).<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">S\u00e3o Carlos, Morro, Borel\/Subo e nunca chego ao c\u00e9u.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">(S\u00e9rgio Sampaio, in Cruel, de prefer\u00eancia na voz de Luiz Melodia acompanhado pelos meninos da Escola de M\u00fasica da rocinha: http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=thtieD7Aeo8 e a cuja beleza dedico, modestamente, este artigo)<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">\u00c0 bem da verdade, logo de come\u00e7o o mais relevante, desmentindo uma mentira, de tanto repetida, tornada enganoso senso comum: o Estado brasileiro sempre presente nas favelas, principalmente as do Rio de Janeiro (quando nada, importante reduto de massa eleitoral). Quem n\u00e3o est\u00e1 na favela somos n\u00f3s os milh\u00f5es que acompanhamos os acontecimentos atrav\u00e9s da TV a cabo. Dilma Rousseff e S\u00e9rgio Cabral, por exemplo, subiram o morro e fizeram com\u00edcios eleitorais no indigitado complexo do Alem\u00e3o. As obras do PAC estavam a pleno vapor na favela, basta ver a adiantada constru\u00e7\u00e3o de um aut\u00eantico telef\u00e9rico de inspira\u00e7\u00e3o colombiana, meio de transporte destinado a cumprir uma fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de vigil\u00e2ncia, isto \u00e9, uma esp\u00e9cie de Pan\u00f3ptico de inspira\u00e7\u00e3o benthamiana (quem n\u00e3o entender a minha refer\u00eancia, sugiro a leitura de Vigiar e punir, cl\u00e1ssico de M. Foucault).<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Dessa maneira, invocando a formula\u00e7\u00e3o de Clausewitz, a guerra contra o tr\u00e1fico \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios. Alguma coisa que precisa ser investigada n\u00e3o deu certo na implanta\u00e7\u00e3o macia das UPPs (Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora), resultando na ordem de comando do tr\u00e1fico em atacar, de pronta respondida em for\u00e7a compacta pelo Estado. Contudo, h\u00e1 que reconhecer que os novos acontecimentos doravante v\u00e3o mudar qualitativamente a mesma presen\u00e7a estatal, militarizando por mui to tempo (quem sabe at\u00e9 a copa do mundo e as olimp\u00edadas) a mesma presen\u00e7a estatal. Se o Estado pretendia ocupar a favela da mesma maneira desconcentrada que ocupa Copacabana ou Cabo Branco, em definitivo o projeto gorou.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Aviso que vou passar por alguns momentos do registro real ao simb\u00f3lico. Nas primeiras p\u00e1ginas de Esa\u00fa e Jac\u00f3, de Machado de Assis, duas sinhazinhas, Natividade e Perp\u00e9tua sobem o Morro do Castelo em busca de consultar uma m\u00e3e de santo visando elucidar agruras sentimentais e familiares. Sup\u00e9rfluo, mas de todo modo naquele tempo a aventura de subir o morro limitava-se ao percal\u00e7o de sujar as botas em um terreno \u00edngreme. Imaginem se passava pela cabe\u00e7a de Machado de Assis o perigo de uma bala perdida! Resultado: o cotidiano da favela n\u00e3o circula na zona sul, opera em circuito fechado.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Para todos n\u00f3s brasileiros distantes do dia-a-dia de c\u00e3o das favelas do Rio de Janeiro \u2013 a n\u00e3o ser que moremos, \u00e9 \u00f3bvio, em alguma favela \u2013, n\u00e3o h\u00e1 como escapar dos simbolismos da imagem na aprecia\u00e7\u00e3o do tema dos acontecimentos do final de semana no chamado complexo do Alem\u00e3o. S\u00e3o simbolismos que aproximam ao mesmo tempo em que distanciam, esclarecem e enganam. Explico-me: na aus\u00eancia do corpo-a-corpo do real, as imagens podem se transformar na seiva dos estere\u00f3tipos, dos preconceitos, dos mitos, seja de admira\u00e7\u00e3o ou de asco.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Em tempos dissemina\u00e7\u00e3o popular do consumo de TV a cabo, tivemos a primeira cobertura direta, ao vivo e online, de uma guerra urbana brasileira. Sem trocadilho: audi\u00eancia em pico m\u00e1ximo. Nem mais o celul\u00f3ide, vale dizer, Cidade de deus (Fernando Meireles) e Tropa de elite I e II (Jos\u00e9 Padilha) \u2013 as refer\u00eancias coletivas do brasileiro em assuntos de guerra urbana.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Quase nenhum de n\u00f3s \u00e9 ou pensa como general ou pol\u00edtico, aprendemos a quest\u00e3o da guerra atrav\u00e9s da fic\u00e7\u00e3o e vemos os acontecimentos reais pelas lentes da fic\u00e7\u00e3o. Compomos a massa bovina chamada opini\u00e3o p\u00fablica. Agora, a partir da guerra urbana, em vez de mera verossimilhan\u00e7a, paradoxalmente, a realidade \u00e9 produzida pelo mesmo corte est\u00e9tico hiperealista da fic\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">S\u00e3o-nos servidas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de um deleite, certamente tenso, imagens de alto quilate, em grau raras vezes deixado filmar pelo ex\u00e9rcito de Israel na Faixa de Gaza, nem pelo ex\u00e9rcito americano no Iraque ou no Afeganist\u00e3o. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma de um v\u00eddeo game, o treino b\u00e1sico em perigo de nossos adolescentes: enquanto nosso cora\u00e7\u00e3o bate mais forte, as c\u00e2meras \u00e1geis e tremulas cumprem o papel de emocionar, seguindo os corajosos rep\u00f3rteres em vielas, no meio do tiroteio. Para al\u00e9m da import\u00e2ncia indiscut\u00edvel do fato em si, este um dos motivos do interesse mundial acontecimentos do Rio de Janeiro. Em suma, enquanto h\u00e1 abund\u00e2ncia de imagens, falta explica\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Mas a fita n\u00e3o chegou ao cl\u00edmax. O roteiro da vida desobedeceu ao cinema. Canudos n\u00e3o se rendeu, mas o tr\u00e1fico, realista e covarde, escapou. Deixou de haver a batalha final, o banho de sangue \u2013 o enfretamento entre os duzentos bandidos acantonados no alto do morro e os mais de um mil e oitocentos militares das for\u00e7as conjuntas estaduais e federais. Os bandidos se escafederam feito ratos pelo ralo do esgoto (vers\u00e3o controversa sujeita a desmentidos, pelo que leio na internet, por quem conhece a topografia do complexo do alem\u00e3o), sen\u00e3o est\u00e3o sendo ca\u00e7ados numa vistoria em pente fino \u00e0 l\u00e1 Stalingrado. Fala-se, em reuni\u00e3o dos secret\u00e1rios de seguran\u00e7a, num retorno ancestral ao nordeste.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">De todo modo, o fato \u00e9 que, na tarde de s\u00e1bado (28\/11\/10), os notici\u00e1rios reverberavam uma media\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica intermediada por um \u201cnegociador social\u201d da ONG Afro-Reggae. Em vez de rendi\u00e7\u00e3o, da parte dos traficantes, a negocia\u00e7\u00e3o parece ter tido o objetivo de ganhar tampo para uma fuga. Enfim, as not\u00edcias s\u00e3o sobejamente conhecidas, chega de repetir. Contudo, cabe uma reflex\u00e3o. Melhor uma anti-cinematogr\u00e1fica batalha de Itarar\u00e9 (o enfrentamento que n\u00e3o houve entre as tropas do Rio Grande do Sul e de S\u00e3o Paulo na revolu\u00e7\u00e3o de 30) do que o mortic\u00ednio de Canudos. Escapamos de ver as sobras de quatro apenas, \u201cum velho, dois homens feitos e uma crian\u00e7a, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados\u201d (parafraseando o celebre desfecho de Os sert\u00f5es, de Euclides da Cunha).<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Longe de mim a tenta\u00e7\u00e3o de glamorizar traficantes cru\u00e9is, de reeditar as batidas teorias do \u201cbanditismo social\u201d ou do \u201cprotesto inconsciente\u201d, seja na figura de Lampi\u00e3o no nordeste brasileiro ou da m\u00e1fia siciliana na It\u00e1lia meridional. Traficantes n\u00e3o foram banidos da terra pelo latif\u00fandio.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Por\u00e9m, deve haver na compara\u00e7\u00e3o entre o velho \u201cbanditismo social\u201d e o novo \u201cinsocial\u201d, pela diferen\u00e7a, um fio da meada esclarecedor: tanto o Canga\u00e7o como a primeira m\u00e1fia compunham o cen\u00e1rio long\u00ednquo de um mundo rural, eram m\u00f3veis e tinham como espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o uma regi\u00e3o. Por seu turno, a atividade do tr\u00e1fico de drogas opera em circuito fechado, ambiente de segrega\u00e7\u00e3o que \u00e9. Nos termos do belo livro do Mike Davis, existe um \u201cplaneta favela\u201d, a que no Rio de Janeiro atendem pelo nome (sociologicamente errado, vale dizer, mas de que vale a sociologia nessas horas?) de comunidade.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Por tudo isso, o privilegiado cen\u00e1rio segregado da favela configura hoje uma for\u00e7a de trabalho sem lugar no mercado formal, jovens tornados incapacitados at\u00e9 de compor a da for\u00e7a de reserva, mas mo\u00eddos numa estranha atividade empresarial alternativa, que mimetiza pelo avesso o empres\u00e1rio \u201clegal\u201d. O ambiente da favela como estrutura de recrutamento de um trabalho armado desqualificado, sorvedouro da produ\u00e7\u00e3o de uma riqueza e de uma mercadoria de valor de uso orgi\u00e1stico. O destino do novo \u201cbanditismo \u2018insocial\u2019\u201d sempre \u00e9 tr\u00e1gico: tamb\u00e9m consomem a mercadoria que traficam, quando n\u00e3o morrem de bala, cedo s\u00e3o consumidos pelo modo de vida.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Se alguma coisa est\u00e1 chegando ao fim, n\u00e3o \u00e9 o tr\u00e1fico nem o consumo de drogas, mas a fase de acumula\u00e7\u00e3o primitiva desta atividade econ\u00f4mica. O antrop\u00f3logo Luiz Eduardo Soares, ex-Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Rio de Janeiro tem constatado uma decad\u00eancia na economia pol\u00edtica do tr\u00e1fico de drogas, na forma como essa dispendiosa atividade opera, em termos de capital e circula\u00e7\u00e3o da mercadoria. Por conseguinte, encontramo-nos nos limiar de uma reengenharia do tr\u00e1fico de drogas, certamente gerando uma atividade concentrada no comando, mas flex\u00edvel na ponta, de entrega delivery (http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;amp;id=1307 ).<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">O M\u00e9xico e a Col\u00f4mbia, de alguma maneira fizeram cada qual \u00e0 sua maneira, a reengenharia do tr\u00e1fico de drogas. No Brasil, parece que a tend\u00eancia principal do tr\u00e1fico \u00e9 compor mais um dos servi\u00e7os do card\u00e1pio das chamadas mil\u00edcias, fundindo ainda mais em longo prazo tr\u00e1fico, pol\u00edcia e pol\u00edtica. N\u00e3o me pe\u00e7a solu\u00e7\u00f5es, tenho a oferecer somente a arma da cr\u00edtica.<\/div>\n<p><em>Jaldes Reis de Meneses*<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>S\u00e3o Carlos, Morro, Borel\/Subo e nunca chego ao c\u00e9u.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><span style=\"font-size: x-small;\">(S\u00e9rgio Sampaio, in Cruel, de prefer\u00eancia na voz de Luiz Melodia acompanhado pelos meninos da Escola de M\u00fasica da rocinha: http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=thtieD7Aeo8 e a cuja beleza dedico, modestamente, este artigo)<\/span><\/em><\/p>\n<p>\u00c0 bem da verdade, logo de come\u00e7o o mais relevante, desmentindo uma mentira, de tanto repetida, tornada enganoso senso comum: o Estado brasileiro sempre presente nas favelas, principalmente as do Rio de Janeiro (quando nada, importante reduto de massa eleitoral). Quem n\u00e3o est\u00e1 na favela somos n\u00f3s os milh\u00f5es que acompanhamos os acontecimentos atrav\u00e9s da TV a cabo. Dilma Rousseff e S\u00e9rgio Cabral, por exemplo, subiram o morro e fizeram com\u00edcios eleitorais no indigitado complexo do Alem\u00e3o. As obras do PAC estavam a pleno vapor na favela, basta ver a adiantada constru\u00e7\u00e3o de um aut\u00eantico telef\u00e9rico de inspira\u00e7\u00e3o colombiana, meio de transporte destinado a cumprir uma fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de vigil\u00e2ncia, isto \u00e9, uma esp\u00e9cie de Pan\u00f3ptico de inspira\u00e7\u00e3o benthamiana (quem n\u00e3o entender a minha refer\u00eancia, sugiro a leitura de Vigiar e punir, cl\u00e1ssico de M. Foucault).<\/p>\n<p>Dessa maneira, invocando a formula\u00e7\u00e3o de Clausewitz, a guerra contra o tr\u00e1fico \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios. Alguma coisa que precisa ser investigada n\u00e3o deu certo na implanta\u00e7\u00e3o macia das UPPs (Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora), resultando na ordem de comando do tr\u00e1fico em atacar, de pronta respondida em for\u00e7a compacta pelo Estado. Contudo, h\u00e1 que reconhecer que os novos acontecimentos doravante v\u00e3o mudar qualitativamente a mesma presen\u00e7a estatal, militarizando por mui to tempo (quem sabe at\u00e9 a copa do mundo e as olimp\u00edadas) a mesma presen\u00e7a estatal. Se o Estado pretendia ocupar a favela da mesma maneira desconcentrada que ocupa Copacabana ou Cabo Branco, em definitivo o projeto gorou.<\/p>\n<p>Aviso que vou passar por alguns momentos do registro real ao simb\u00f3lico. Nas primeiras p\u00e1ginas de Esa\u00fa e Jac\u00f3, de Machado de Assis, duas sinhazinhas, Natividade e Perp\u00e9tua sobem o Morro do Castelo em busca de consultar uma m\u00e3e de santo visando elucidar agruras sentimentais e familiares. Sup\u00e9rfluo, mas de todo modo naquele tempo a aventura de subir o morro limitava-se ao percal\u00e7o de sujar as botas em um terreno \u00edngreme. Imaginem se passava pela cabe\u00e7a de Machado de Assis o perigo de uma bala perdida! Resultado: o cotidiano da favela n\u00e3o circula na zona sul, opera em circuito fechado.<\/p>\n<p>Para todos n\u00f3s brasileiros distantes do dia-a-dia de c\u00e3o das favelas do Rio de Janeiro \u2013 a n\u00e3o ser que moremos, \u00e9 \u00f3bvio, em alguma favela \u2013, n\u00e3o h\u00e1 como escapar dos simbolismos da imagem na aprecia\u00e7\u00e3o do tema dos acontecimentos do final de semana no chamado complexo do Alem\u00e3o. S\u00e3o simbolismos que aproximam ao mesmo tempo em que distanciam, esclarecem e enganam. Explico-me: na aus\u00eancia do corpo-a-corpo do real, as imagens podem se transformar na seiva dos estere\u00f3tipos, dos preconceitos, dos mitos, seja de admira\u00e7\u00e3o ou de asco.<\/p>\n<p>Em tempos dissemina\u00e7\u00e3o popular do consumo de TV a cabo, tivemos a primeira cobertura direta, ao vivo e online, de uma guerra urbana brasileira. Sem trocadilho: audi\u00eancia em pico m\u00e1ximo. Nem mais o celul\u00f3ide, vale dizer, Cidade de deus (Fernando Meireles) e Tropa de elite I e II (Jos\u00e9 Padilha) \u2013 as refer\u00eancias coletivas do brasileiro em assuntos de guerra urbana.<\/p>\n<p>Quase nenhum de n\u00f3s \u00e9 ou pensa como general ou pol\u00edtico, aprendemos a quest\u00e3o da guerra atrav\u00e9s da fic\u00e7\u00e3o e vemos os acontecimentos reais pelas lentes da fic\u00e7\u00e3o. Compomos a massa bovina chamada opini\u00e3o p\u00fablica. Agora, a partir da guerra urbana, em vez de mera verossimilhan\u00e7a, paradoxalmente, a realidade \u00e9 produzida pelo mesmo corte est\u00e9tico hiperealista da fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o-nos servidas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de um deleite, certamente tenso, imagens de alto quilate, em grau raras vezes deixado filmar pelo ex\u00e9rcito de Israel na Faixa de Gaza, nem pelo ex\u00e9rcito americano no Iraque ou no Afeganist\u00e3o. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma de um v\u00eddeo game, o treino b\u00e1sico em perigo de nossos adolescentes: enquanto nosso cora\u00e7\u00e3o bate mais forte, as c\u00e2meras \u00e1geis e tremulas cumprem o papel de emocionar, seguindo os corajosos rep\u00f3rteres em vielas, no meio do tiroteio. Para al\u00e9m da import\u00e2ncia indiscut\u00edvel do fato em si, este um dos motivos do interesse mundial acontecimentos do Rio de Janeiro. Em suma, enquanto h\u00e1 abund\u00e2ncia de imagens, falta explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a fita n\u00e3o chegou ao cl\u00edmax. O roteiro da vida desobedeceu ao cinema. Canudos n\u00e3o se rendeu, mas o tr\u00e1fico, realista e covarde, escapou. Deixou de haver a batalha final, o banho de sangue \u2013 o enfretamento entre os duzentos bandidos acantonados no alto do morro e os mais de um mil e oitocentos militares das for\u00e7as conjuntas estaduais e federais. Os bandidos se escafederam feito ratos pelo ralo do esgoto (vers\u00e3o controversa sujeita a desmentidos, pelo que leio na internet, por quem conhece a topografia do complexo do alem\u00e3o), sen\u00e3o est\u00e3o sendo ca\u00e7ados numa vistoria em pente fino \u00e0 l\u00e1 Stalingrado. Fala-se, em reuni\u00e3o dos secret\u00e1rios de seguran\u00e7a, num retorno ancestral ao nordeste.<\/p>\n<p>De todo modo, o fato \u00e9 que, na tarde de s\u00e1bado (28\/11\/10), os notici\u00e1rios reverberavam uma media\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica intermediada por um \u201cnegociador social\u201d da ONG Afro-Reggae. Em vez de rendi\u00e7\u00e3o, da parte dos traficantes, a negocia\u00e7\u00e3o parece ter tido o objetivo de ganhar tampo para uma fuga. Enfim, as not\u00edcias s\u00e3o sobejamente conhecidas, chega de repetir. Contudo, cabe uma reflex\u00e3o. Melhor uma anti-cinematogr\u00e1fica batalha de Itarar\u00e9 (o enfrentamento que n\u00e3o houve entre as tropas do Rio Grande do Sul e de S\u00e3o Paulo na revolu\u00e7\u00e3o de 30) do que o mortic\u00ednio de Canudos. Escapamos de ver as sobras de quatro apenas, \u201cum velho, dois homens feitos e uma crian\u00e7a, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados\u201d (parafraseando o celebre desfecho de Os sert\u00f5es, de Euclides da Cunha).<\/p>\n<p>Longe de mim a tenta\u00e7\u00e3o de glamorizar traficantes cru\u00e9is, de reeditar as batidas teorias do \u201cbanditismo social\u201d ou do \u201cprotesto inconsciente\u201d, seja na figura de Lampi\u00e3o no nordeste brasileiro ou da m\u00e1fia siciliana na It\u00e1lia meridional. Traficantes n\u00e3o foram banidos da terra pelo latif\u00fandio.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, deve haver na compara\u00e7\u00e3o entre o velho \u201cbanditismo social\u201d e o novo \u201cinsocial\u201d, pela diferen\u00e7a, um fio da meada esclarecedor: tanto o Canga\u00e7o como a primeira m\u00e1fia compunham o cen\u00e1rio long\u00ednquo de um mundo rural, eram m\u00f3veis e tinham como espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o uma regi\u00e3o. Por seu turno, a atividade do tr\u00e1fico de drogas opera em circuito fechado, ambiente de segrega\u00e7\u00e3o que \u00e9. Nos termos do belo livro do Mike Davis, existe um \u201cplaneta favela\u201d, a que no Rio de Janeiro atendem pelo nome (sociologicamente errado, vale dizer, mas de que vale a sociologia nessas horas?) de comunidade.<\/p>\n<p>Por tudo isso, o privilegiado cen\u00e1rio segregado da favela configura hoje uma for\u00e7a de trabalho sem lugar no mercado formal, jovens tornados incapacitados at\u00e9 de compor a da for\u00e7a de reserva, mas mo\u00eddos numa estranha atividade empresarial alternativa, que mimetiza pelo avesso o empres\u00e1rio \u201clegal\u201d. O ambiente da favela como estrutura de recrutamento de um trabalho armado desqualificado, sorvedouro da produ\u00e7\u00e3o de uma riqueza e de uma mercadoria de valor de uso orgi\u00e1stico. O destino do novo \u201cbanditismo \u2018insocial\u2019\u201d sempre \u00e9 tr\u00e1gico: tamb\u00e9m consomem a mercadoria que traficam, quando n\u00e3o morrem de bala, cedo s\u00e3o consumidos pelo modo de vida.<\/p>\n<p>Se alguma coisa est\u00e1 chegando ao fim, n\u00e3o \u00e9 o tr\u00e1fico nem o consumo de drogas, mas a fase de acumula\u00e7\u00e3o primitiva desta atividade econ\u00f4mica. O antrop\u00f3logo Luiz Eduardo Soares, ex-Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Rio de Janeiro tem constatado uma decad\u00eancia na economia pol\u00edtica do tr\u00e1fico de drogas, na forma como essa dispendiosa atividade opera, em termos de capital e circula\u00e7\u00e3o da mercadoria. Por conseguinte, encontramo-nos nos limiar de uma reengenharia do tr\u00e1fico de drogas, certamente gerando uma atividade concentrada no comando, mas flex\u00edvel na ponta, de entrega delivery (http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;amp;id=1307 ).<\/p>\n<p>O M\u00e9xico e a Col\u00f4mbia, de alguma maneira fizeram cada qual \u00e0 sua maneira, a reengenharia do tr\u00e1fico de drogas. No Brasil, parece que a tend\u00eancia principal do tr\u00e1fico \u00e9 compor mais um dos servi\u00e7os do card\u00e1pio das chamadas mil\u00edcias, fundindo ainda mais em longo prazo tr\u00e1fico, pol\u00edcia e pol\u00edtica. N\u00e3o me pe\u00e7a solu\u00e7\u00f5es, tenho a oferecer somente a arma da cr\u00edtica.<\/p>\n<p><em>*Professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria (UFPB)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Complexo do Alem\u00e3o: subo e nunca chego ao c\u00e9u Jaldes Reis de Meneses Professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria (UFPB). S\u00e3o Carlos, Morro, Borel\/Subo e nunca chego ao c\u00e9u. (S\u00e9rgio Sampaio, in Cruel, de prefer\u00eancia na voz de Luiz Melodia acompanhado pelos meninos da Escola de M\u00fasica da rocinha: http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=thtieD7Aeo8 e a cuja beleza&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-1419","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-16","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1419"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1419\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}