{"id":1375,"date":"2010-11-05T11:39:06","date_gmt":"2010-11-05T15:39:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/ricardo-coutinho-novo-bloco-historico-ou-circulacao-das-elites-no-poder\/"},"modified":"2010-11-05T11:39:06","modified_gmt":"2010-11-05T15:39:06","slug":"ricardo-coutinho-novo-bloco-historico-ou-circulacao-das-elites-no-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/ricardo-coutinho-novo-bloco-historico-ou-circulacao-das-elites-no-poder\/","title":{"rendered":"Ricardo Coutinho: novo bloco hist\u00f3rico ou circula\u00e7\u00e3o das elites no poder?"},"content":{"rendered":"<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Ricardo Coutinho: novo bloco hist\u00f3rico ou circula\u00e7\u00e3o das elites no poder?<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Jaldes Reis de Meneses (Professor PPGH-UFPB)<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, a vit\u00f3ria de Ricardo Coutinho ao cargo de governador da Para\u00edba produziu uma corrente de expectativas e esperan\u00e7as compar\u00e1vel a primeira vit\u00f3ria de Lula \u00e0 presid\u00eancia do Brasil em 2002 (ou mesmo de Barack Obama nos Estados Unidos em 2008). Raramente, mesmo que seja t\u00e3o somente um raio em c\u00e9u azul, um di\u00e1fano feixe de ilus\u00e3o, o nosso povo d\u00e1-se ao prazer de sorrir de felicidade \u201cda\u201d e \u201ccom\u201d a pol\u00edtica. Indubitavelmente, a vit\u00f3ria de Ricardo Coutinho \u00e9 um desses casos.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Como explicar uma vit\u00f3ria que a muitos, menos ao pr\u00f3prio candidato, parecia uma miss\u00e3o quase imposs\u00edvel? A pergunta conduz a um dos problemas mais complexos do pensamento pol\u00edtico: a quest\u00e3o da previs\u00e3o.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">A prop\u00f3sito das ciladas de quem se arisca a prever em pol\u00edtica, Gramsci escreveu uma atraente frase: s\u00f3 prev\u00ea quem age ou opera, ou seja, a melhor previs\u00e3o \u00e9 feita por quem vive o processo pol\u00edtico de dentro, situado no pr\u00f3prio olho do furac\u00e3o. Em pol\u00edtica, prever, discernir horizontes e cen\u00e1rios, \u00e9 uma necessidade imperiosa da a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, por isso a pol\u00edtica \u00e9, antes de tudo, uma atividade essencialmente pr\u00e1tica.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Dessa maneira, a convic\u00e7\u00e3o de objetivos, que o candidato Ricardo Coutinho transmitia \u00e0 sua milit\u00e2ncia, em seguida a mais de um milh\u00e3o de eleitores, longe de um devaneio, funcionou como um est\u00edmulo direto \u00e0 a\u00e7\u00e3o. A a\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava feita \u00e0 priori, mas foi se fazendo: come\u00e7ou devagarzinho e no desfecho das elei\u00e7\u00f5es virou uma onda.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">No m\u00eas de fevereiro, tendo em vista o an\u00fancio do embate pr\u00f3ximo entre Ricardo Coutinho e Jos\u00e9 Maranh\u00e3o, em algumas entrevistas sobre a conjuntura eleitoral, formulei uma conjectura explicativa do processo vindouro. Uma singela conjectura, nada mais. Est\u00e1vamos na fase de campanha relati va \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as e coliga\u00e7\u00f5es. Discernia que o ent\u00e3o Prefeito de Jo\u00e3o Pessoa poderia vir a assumir o papel do que intitulei de \u201ccandidato da mensagem\u201d, ao passo que ao governador caberia o desempenhar o papel do \u201ccandidato das estruturas\u201d.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">As estruturas s\u00e3o r\u00edgidas, n\u00e3o criam ondas. Nelas e atrav\u00e9s deles, configura-se o coeficiente de conservantismo de nosso sistema pol\u00edtico, brasileiro e nordestino, um imenso aparelho que inclui prefeitos das cidades pequenas e m\u00e9dias, vereadores, deputados estaduais de bases municipalistas, cabos eleitorais partid\u00e1rios, etc. Raimundo Faoro, no cl\u00e1ssico \u201cOs donos do poder\u201d, chamou as estruturas por outro nome, o patronato pol\u00edtico brasileiro, uma forma de poder que mistura a institucionalidade pol\u00edtica e o mandonismo de um patr\u00e3o ditador. Participam das estruturas, igualmente, um ins\u00f3lito aparato de intelectuais, bachar\u00e9is, advogados, professores, jornalistas, pessoas que refor\u00e7am o tempo inteiro, no plano das id\u00e9ias, um realismo pol\u00edtico superficial, expresso no bord\u00e3o de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa, as estruturas s\u00e3o eleitoralmente imbat\u00edveis\u201d.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Desde quando assumiu o mais novo mandado, em seguida \u00e0 cassa\u00e7\u00e3o do ex-governador C\u00e1ssio Cunha Lima, Jos\u00e9 Maranh\u00e3o comportou-se como um t\u00edpico candidato das estruturas. Comp\u00f4s as secretarias econ\u00f4micas de governo com os velhos e carcomidos quadros do PMDB paraibano, n\u00facleo duro a partir do qual se encaminhou a encetar uma pol\u00edtica de alian\u00e7as exclusivamente com as dire\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, nos mais das vezes burocracias fisiol\u00f3gicas sem voto. A moeda de troca sendo a ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os nas secretarias de governo e, no caso do PT, um cargo secund\u00e1rio de vice-governador na chapa majorit\u00e1ria. Assim procedeu o governador &#8211; oferecendo cargos sem aos donos dos partidos e \u00e0s burocracias partid\u00e1rias sem contrapartida program\u00e1tica real -, com todos os demais partidos da base de seu governo, no plano nacional alinhados com o governo Lula: PTB, PP, PCdoB, etc.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Dessa maneira, cometeu um s\u00e9rio erro de avalia\u00e7\u00e3o: no nordeste, as estruturas mais at\u00e1vicas do sistema pol\u00edtico est\u00e3o em decl\u00ednio. Na verdade, a Para\u00edba &#8211; afora talvez o Estado do Maranh\u00e3o -, tem sido um dos estados nordestinos imperme\u00e1veis \u00e0 renova\u00e7\u00e3o, basta constatar a inacredit\u00e1vel bancada federal rec\u00e9m-eleita e o s\u00e9quito de filhos, m\u00e3es e av\u00f3s que v\u00e3o nos representar, cidad\u00e3os paraibanos, no Congresso Nacional. Somente faltou eleger o papagaio da fam\u00edlia.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">No come\u00e7o do ano, a possibilidade de vit\u00f3ria do partido da mensagem era apenas uma pot\u00eancia. Havia prec\u00e1rios ind\u00edcios de transforma\u00e7\u00e3o da mensagem em realidade palp\u00e1vel, enquanto, ao contr\u00e1rio, as estruturas aparentavam uma sedutora solidez. A possibilidade de a mensagem rebentar e virar onda, feito um paradoxo geogr\u00e1fico, somente poderia acontecer em um movimento da capita l em dire\u00e7\u00e3o ao sert\u00e3o. Confesso que a mim mesmo, embora jamais tenha afastado a possibilidade e at\u00e9 previsto a possibilidade da onda da mensagem de meu horizonte de previs\u00f5es, de in\u00edcio, considerei remotas as possibilidades de sua cria\u00e7\u00e3o. Jos\u00e9 Maranh\u00e3o pareceria ter erguido uma cortina de ferro.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Romper aos poucos a cortina de ferro foi precisamente a aposta de Ricardo Coutinho. Largou a prefeitura e preencheu a agenda de pequenos debates e reuni\u00f5es. Recordo de uma reuni\u00e3o na UFPB, no audit\u00f3rio da Faculdade de Direito com no m\u00e1ximo 50 pessoas, no qual o candidato exp\u00f4s por mais de tr\u00eas horas os problemas das Para\u00edba. At\u00e9 o per\u00edodo das conven\u00e7\u00f5es, aconteceram centenas de reuni\u00f5es semelhantes; somente na UFPB, pelo menos, umas tr\u00eas. Os sabich\u00f5es convencionais do \u201cpartido das estruturas\u201d, certamente, diriam que tudo isso era perda de tempo ou que o candidato, por falta de dinheiro de campanha, havia regredido \u00e0s pequenas reuni\u00f5es. Engan o. O candidato trabalhava uma paciente t\u00e1tica de guerrilha, minava aos poucos Jos\u00e9 Maranh\u00e3o entre os formadores de opini\u00e3o.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">O \u00fanico discurso de Jos\u00e9 Maranh\u00e3o dirigido aos formadores de opini\u00e3o era o chav\u00e3o do \u201coportunismo\u201d e da &#8220;incoer\u00eancia&#8221; da alian\u00e7a com C\u00e1ssio Cunha Lima. N\u00e3o passou disso. Embora muito se tenha criticado a alian\u00e7a Ricardo Coutinho-C\u00e1ssio Cunha Lima, faltou aos estrategistas do PMDB o perceber o alcance elitoral do fato que Ricardo conseguiu havia logrado sair do isolamento pol\u00edtico, imposto pela cortina ferro, e concertado um surpreendente arco de alian\u00e7as, num espectro ideol\u00f3gico que anelou desde o MST ao DEM. Sem d\u00favida, uma engenharia pol\u00edtica incomum formou uma coliga\u00e7\u00e3o de potencial.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Ao que saiba o caso da coliga\u00e7\u00e3o que o PSB concertou na Para\u00edba n\u00e3o se repetiu formalmente em nenhum outro Estado da federa\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Como explic\u00e1-lo?<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Em primeiro lugar, do lado da esquerda social , devido \u00e0 absoluta incapacidade da coliga\u00e7\u00e3o do PMDB demonstrar alguma capacidade de formular um programa consistente de reforma agr\u00e1ria e de participa\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais no governo. Dois fatores suplementares foram importantes: a banda do PT paraibano que se acostou a Jos\u00e9 Maranh\u00e3o, no fundo, tem pouca inser\u00e7\u00e3o real nos movimentos sociais (\u00e0 exce\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro, do Frei Anast\u00e1cio, totalmente a reboque do centro de decis\u00f5es da campanha) e o pr\u00f3prio governador, no mandato anterior, se indisp\u00f4s com v\u00e1rios segmentos sociais, dos professores da UEPB ao pr\u00f3prio movimento de reforma agr\u00e1ria. A esquerda social paraibana \u00e9 gato escaldado, quando se trata do governador.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Do lado do DEM e C\u00e1ssio Cunha Lima (sem esquecer que C\u00e1ssio tem enorme lideran\u00e7a popular, vem das estruturas, mas, al\u00e9m disso, \u00e9 mensagem), acostar-se \u00e0 t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o que lhe foi lan\u00e7ada em um momento pol\u00edtico extremamente dif\u00edcil de eros\u00e3o de poder pol\u00edtico. Pu ro instinto de sobreviv\u00eancia.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Tornou-se lugar comum afirmar que a vit\u00f3ria de Ricardo Coutinho abre um novo ciclo na hist\u00f3ria pol\u00edtica paraibana. O conte\u00fado do ciclo somente vai ficar claro com o desenvolvimento do governo. As expectativas s\u00e3o enormes. Ricardo vem se preparando para ser governador h\u00e1 alguns anos, adquirindo experi\u00eancia administrativa e estudando sistematicamente os problemas da Para\u00edba. Para incumb\u00eancia de governar o nosso Estado, \u00e9 o melhor quadro de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Na fase final da campanha, o PMDB esbo\u00e7ou a cr\u00edtica de que o programa de Ricardo se resumia a subordinar a Para\u00edba \u00e0 Pernambuco. Fiquei surpreso com o car\u00e1ter chauvinista da cr\u00edtica: ora, \u00e9 inevit\u00e1vel, em fun\u00e7\u00e3o da proximidade territorial, que a Para\u00edba participe das cadeias produtivas de Pernambuco. Ali\u00e1s, tem sido assim desde o s\u00e9culo XVII. Somos dois Estados nordestinos, de forma\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica comum, e n\u00e3o dois pa\u00edses distintos.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Evidentemente, a integra\u00e7\u00e3o regional \u00e9 insuficiente. A pergunta correta a ser feita em termos de desenvolvimento \u00e9 a seguinte: como vamos fazer para nos integrarmos divis\u00e3o nacional e internacional do trabalho?<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Em s\u00edntese, h\u00e1 duas maneiras de faz\u00ea-lo: 1) aceitar o papel cativo que nos reserva o manual dos \u00f3rg\u00e3os econ\u00f4micos internacionais: estimular exclusivamente as atividades econ\u00f4micas cujas cadeias produtivas s\u00e3o circunscritas \u00e0 regi\u00e3o, por conseq\u00fc\u00eancia, atuar no fomento da tecnologia e inova\u00e7\u00e3o que t\u00eam alcance local, simplesmente \u2013 tipo fruticultura, floricultura, cabrinocultura, commodities minerais, turismo, etc.; 2) sem menosprezar o fomento \u00e0s culturas regionais, ousar montar uma base de desenvolvimento e pesquisa de alta tecnologia e inova\u00e7\u00e3o na Para\u00edba, cujas cadeias produtivas e o circuito de realiza\u00e7\u00e3o do valor s\u00e3o necessariamente nacionais e internacionais.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">O problema n\u00e3o \u00e9 meramente econ\u00f4mico, passa pelo pol\u00edtico. Dessa maneira, s\u00e3o duas as possibilidades do futuro governo Ricardo Coutinho: ou t\u00e3o somente operar um processo de circula\u00e7\u00e3o, renova\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de novas elites no poder (um desenvolvimento de tipo regional, cultural e local, \u00e9 adequado a esta alternativa), ou apostar na possibilidade de um novo bloco hist\u00f3rico, socialmente inclusivo, enfim, um governo estimulador da ascens\u00e3o social dos de baixo pela educa\u00e7\u00e3o formal e pelo desenvolvimento baseado na cria\u00e7\u00e3o e na inova\u00e7\u00e3o. Temos intelig\u00eancia para tanto. Falta-nos a pol\u00edtica. Chegou a hora.<\/div>\n<p><em>Jaldes Reis de Meneses (Professor PPGH-UFPB)<\/em><\/p>\n<p>Guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, a vit\u00f3ria de Ricardo Coutinho ao cargo de governador da Para\u00edba produziu uma corrente de expectativas e esperan\u00e7as compar\u00e1vel a primeira vit\u00f3ria de Lula \u00e0 presid\u00eancia do Brasil em 2002 (ou mesmo de Barack Obama nos Estados Unidos em 2008). Raramente, mesmo que seja t\u00e3o somente um raio em c\u00e9u azul, um di\u00e1fano feixe de ilus\u00e3o, o nosso povo d\u00e1-se ao prazer de sorrir de felicidade \u201cda\u201d e \u201ccom\u201d a pol\u00edtica. Indubitavelmente, a vit\u00f3ria de Ricardo Coutinho \u00e9 um desses casos.<\/p>\n<p>Como explicar uma vit\u00f3ria que a muitos, menos ao pr\u00f3prio candidato, parecia uma miss\u00e3o quase imposs\u00edvel? A pergunta conduz a um dos problemas mais complexos do pensamento pol\u00edtico: a quest\u00e3o da previs\u00e3o.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito das ciladas de quem se arisca a prever em pol\u00edtica, Gramsci escreveu uma atraente frase: s\u00f3 prev\u00ea quem age ou opera, ou seja, a melhor previs\u00e3o \u00e9 feita por quem vive o processo pol\u00edtico de dentro, situado no pr\u00f3prio olho do furac\u00e3o. Em pol\u00edtica, prever, discernir horizontes e cen\u00e1rios, \u00e9 uma necessidade imperiosa da a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, por isso a pol\u00edtica \u00e9, antes de tudo, uma atividade essencialmente pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Dessa maneira, a convic\u00e7\u00e3o de objetivos, que o candidato Ricardo Coutinho transmitia \u00e0 sua milit\u00e2ncia, em seguida a mais de um milh\u00e3o de eleitores, longe de um devaneio, funcionou como um est\u00edmulo direto \u00e0 a\u00e7\u00e3o. A a\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava feita \u00e0 priori, mas foi se fazendo: come\u00e7ou devagarzinho e no desfecho das elei\u00e7\u00f5es virou uma onda.<\/p>\n<p>No m\u00eas de fevereiro, tendo em vista o an\u00fancio do embate pr\u00f3ximo entre Ricardo Coutinho e Jos\u00e9 Maranh\u00e3o, em algumas entrevistas sobre a conjuntura eleitoral, formulei uma conjectura explicativa do processo vindouro. Uma singela conjectura, nada mais. Est\u00e1vamos na fase de campanha relati va \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as e coliga\u00e7\u00f5es. Discernia que o ent\u00e3o Prefeito de Jo\u00e3o Pessoa poderia vir a assumir o papel do que intitulei de \u201ccandidato da mensagem\u201d, ao passo que ao governador caberia o desempenhar o papel do \u201ccandidato das estruturas\u201d.<\/p>\n<p>As estruturas s\u00e3o r\u00edgidas, n\u00e3o criam ondas. Nelas e atrav\u00e9s deles, configura-se o coeficiente de conservantismo de nosso sistema pol\u00edtico, brasileiro e nordestino, um imenso aparelho que inclui prefeitos das cidades pequenas e m\u00e9dias, vereadores, deputados estaduais de bases municipalistas, cabos eleitorais partid\u00e1rios, etc. Raimundo Faoro, no cl\u00e1ssico \u201cOs donos do poder\u201d, chamou as estruturas por outro nome, o patronato pol\u00edtico brasileiro, uma forma de poder que mistura a institucionalidade pol\u00edtica e o mandonismo de um patr\u00e3o ditador. Participam das estruturas, igualmente, um ins\u00f3lito aparato de intelectuais, bachar\u00e9is, advogados, professores, jornalistas, pessoas que refor\u00e7am o tempo inteiro, no plano das id\u00e9ias, um realismo pol\u00edtico superficial, expresso no bord\u00e3o de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa, as estruturas s\u00e3o eleitoralmente imbat\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>Desde quando assumiu o mais novo mandado, em seguida \u00e0 cassa\u00e7\u00e3o do ex-governador C\u00e1ssio Cunha Lima, Jos\u00e9 Maranh\u00e3o comportou-se como um t\u00edpico candidato das estruturas. Comp\u00f4s as secretarias econ\u00f4micas de governo com os velhos e carcomidos quadros do PMDB paraibano, n\u00facleo duro a partir do qual se encaminhou a encetar uma pol\u00edtica de alian\u00e7as exclusivamente com as dire\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, nos mais das vezes burocracias fisiol\u00f3gicas sem voto. A moeda de troca sendo a ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os nas secretarias de governo e, no caso do PT, um cargo secund\u00e1rio de vice-governador na chapa majorit\u00e1ria. Assim procedeu o governador &#8211; oferecendo cargos sem aos donos dos partidos e \u00e0s burocracias partid\u00e1rias sem contrapartida program\u00e1tica real -, com todos os demais partidos da base de seu governo, no plano nacional alinhados com o governo Lula: PTB, PP, PCdoB, etc.<\/p>\n<p>Dessa maneira, cometeu um s\u00e9rio erro de avalia\u00e7\u00e3o: no nordeste, as estruturas mais at\u00e1vicas do sistema pol\u00edtico est\u00e3o em decl\u00ednio. Na verdade, a Para\u00edba &#8211; afora talvez o Estado do Maranh\u00e3o -, tem sido um dos estados nordestinos imperme\u00e1veis \u00e0 renova\u00e7\u00e3o, basta constatar a inacredit\u00e1vel bancada federal rec\u00e9m-eleita e o s\u00e9quito de filhos, m\u00e3es e av\u00f3s que v\u00e3o nos representar, cidad\u00e3os paraibanos, no Congresso Nacional. Somente faltou eleger o papagaio da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>No come\u00e7o do ano, a possibilidade de vit\u00f3ria do partido da mensagem era apenas uma pot\u00eancia. Havia prec\u00e1rios ind\u00edcios de transforma\u00e7\u00e3o da mensagem em realidade palp\u00e1vel, enquanto, ao contr\u00e1rio, as estruturas aparentavam uma sedutora solidez. A possibilidade de a mensagem rebentar e virar onda, feito um paradoxo geogr\u00e1fico, somente poderia acontecer em um movimento da capita l em dire\u00e7\u00e3o ao sert\u00e3o. Confesso que a mim mesmo, embora jamais tenha afastado a possibilidade e at\u00e9 previsto a possibilidade da onda da mensagem de meu horizonte de previs\u00f5es, de in\u00edcio, considerei remotas as possibilidades de sua cria\u00e7\u00e3o. Jos\u00e9 Maranh\u00e3o pareceria ter erguido uma cortina de ferro.<\/p>\n<p>Romper aos poucos a cortina de ferro foi precisamente a aposta de Ricardo Coutinho. Largou a prefeitura e preencheu a agenda de pequenos debates e reuni\u00f5es. Recordo de uma reuni\u00e3o na UFPB, no audit\u00f3rio da Faculdade de Direito com no m\u00e1ximo 50 pessoas, no qual o candidato exp\u00f4s por mais de tr\u00eas horas os problemas das Para\u00edba. At\u00e9 o per\u00edodo das conven\u00e7\u00f5es, aconteceram centenas de reuni\u00f5es semelhantes; somente na UFPB, pelo menos, umas tr\u00eas. Os sabich\u00f5es convencionais do \u201cpartido das estruturas\u201d, certamente, diriam que tudo isso era perda de tempo ou que o candidato, por falta de dinheiro de campanha, havia regredido \u00e0s pequenas reuni\u00f5es. Engan o. O candidato trabalhava uma paciente t\u00e1tica de guerrilha, minava aos poucos Jos\u00e9 Maranh\u00e3o entre os formadores de opini\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u00fanico discurso de Jos\u00e9 Maranh\u00e3o dirigido aos formadores de opini\u00e3o era o chav\u00e3o do \u201coportunismo\u201d e da &#8220;incoer\u00eancia&#8221; da alian\u00e7a com C\u00e1ssio Cunha Lima. N\u00e3o passou disso. Embora muito se tenha criticado a alian\u00e7a Ricardo Coutinho-C\u00e1ssio Cunha Lima, faltou aos estrategistas do PMDB o perceber o alcance elitoral do fato que Ricardo conseguiu havia logrado sair do isolamento pol\u00edtico, imposto pela cortina ferro, e concertado um surpreendente arco de alian\u00e7as, num espectro ideol\u00f3gico que anelou desde o MST ao DEM. Sem d\u00favida, uma engenharia pol\u00edtica incomum formou uma coliga\u00e7\u00e3o de potencial.<\/p>\n<p>Ao que saiba o caso da coliga\u00e7\u00e3o que o PSB concertou na Para\u00edba n\u00e3o se repetiu formalmente em nenhum outro Estado da federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como explic\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, do lado da esquerda social , devido \u00e0 absoluta incapacidade da coliga\u00e7\u00e3o do PMDB demonstrar alguma capacidade de formular um programa consistente de reforma agr\u00e1ria e de participa\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais no governo. Dois fatores suplementares foram importantes: a banda do PT paraibano que se acostou a Jos\u00e9 Maranh\u00e3o, no fundo, tem pouca inser\u00e7\u00e3o real nos movimentos sociais (\u00e0 exce\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro, do Frei Anast\u00e1cio, totalmente a reboque do centro de decis\u00f5es da campanha) e o pr\u00f3prio governador, no mandato anterior, se indisp\u00f4s com v\u00e1rios segmentos sociais, dos professores da UEPB ao pr\u00f3prio movimento de reforma agr\u00e1ria. A esquerda social paraibana \u00e9 gato escaldado, quando se trata do governador.<\/p>\n<p>Do lado do DEM e C\u00e1ssio Cunha Lima (sem esquecer que C\u00e1ssio tem enorme lideran\u00e7a popular, vem das estruturas, mas, al\u00e9m disso, \u00e9 mensagem), acostar-se \u00e0 t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o que lhe foi lan\u00e7ada em um momento pol\u00edtico extremamente dif\u00edcil de eros\u00e3o de poder pol\u00edtico. Pu ro instinto de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Tornou-se lugar comum afirmar que a vit\u00f3ria de Ricardo Coutinho abre um novo ciclo na hist\u00f3ria pol\u00edtica paraibana. O conte\u00fado do ciclo somente vai ficar claro com o desenvolvimento do governo. As expectativas s\u00e3o enormes. Ricardo vem se preparando para ser governador h\u00e1 alguns anos, adquirindo experi\u00eancia administrativa e estudando sistematicamente os problemas da Para\u00edba. Para incumb\u00eancia de governar o nosso Estado, \u00e9 o melhor quadro de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na fase final da campanha, o PMDB esbo\u00e7ou a cr\u00edtica de que o programa de Ricardo se resumia a subordinar a Para\u00edba \u00e0 Pernambuco. Fiquei surpreso com o car\u00e1ter chauvinista da cr\u00edtica: ora, \u00e9 inevit\u00e1vel, em fun\u00e7\u00e3o da proximidade territorial, que a Para\u00edba participe das cadeias produtivas de Pernambuco. Ali\u00e1s, tem sido assim desde o s\u00e9culo XVII. Somos dois Estados nordestinos, de forma\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica comum, e n\u00e3o dois pa\u00edses distintos.<\/p>\n<p>Evidentemente, a integra\u00e7\u00e3o regional \u00e9 insuficiente. A pergunta correta a ser feita em termos de desenvolvimento \u00e9 a seguinte: como vamos fazer para nos integrarmos divis\u00e3o nacional e internacional do trabalho?<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, h\u00e1 duas maneiras de faz\u00ea-lo: 1) aceitar o papel cativo que nos reserva o manual dos \u00f3rg\u00e3os econ\u00f4micos internacionais: estimular exclusivamente as atividades econ\u00f4micas cujas cadeias produtivas s\u00e3o circunscritas \u00e0 regi\u00e3o, por conseq\u00fc\u00eancia, atuar no fomento da tecnologia e inova\u00e7\u00e3o que t\u00eam alcance local, simplesmente \u2013 tipo fruticultura, floricultura, cabrinocultura, commodities minerais, turismo, etc.; 2) sem menosprezar o fomento \u00e0s culturas regionais, ousar montar uma base de desenvolvimento e pesquisa de alta tecnologia e inova\u00e7\u00e3o na Para\u00edba, cujas cadeias produtivas e o circuito de realiza\u00e7\u00e3o do valor s\u00e3o necessariamente nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 meramente econ\u00f4mico, passa pelo pol\u00edtico. Dessa maneira, s\u00e3o duas as possibilidades do futuro governo Ricardo Coutinho: ou t\u00e3o somente operar um processo de circula\u00e7\u00e3o, renova\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de novas elites no poder (um desenvolvimento de tipo regional, cultural e local, \u00e9 adequado a esta alternativa), ou apostar na possibilidade de um novo bloco hist\u00f3rico, socialmente inclusivo, enfim, um governo estimulador da ascens\u00e3o social dos de baixo pela educa\u00e7\u00e3o formal e pelo desenvolvimento baseado na cria\u00e7\u00e3o e na inova\u00e7\u00e3o. Temos intelig\u00eancia para tanto. Falta-nos a pol\u00edtica. Chegou a hora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Coutinho: novo bloco hist\u00f3rico ou circula\u00e7\u00e3o das elites no poder? Jaldes Reis de Meneses (Professor PPGH-UFPB) Guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, a vit\u00f3ria de Ricardo Coutinho ao cargo de governador da Para\u00edba produziu uma corrente de expectativas e esperan\u00e7as compar\u00e1vel a primeira vit\u00f3ria de Lula \u00e0 presid\u00eancia do Brasil em 2002 (ou mesmo de Barack&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-1375","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-16","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1375"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1375\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}