{"id":1355,"date":"2010-10-20T10:01:20","date_gmt":"2010-10-20T14:01:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/a-greve-francesa\/"},"modified":"2010-10-20T10:01:20","modified_gmt":"2010-10-20T14:01:20","slug":"a-greve-francesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/a-greve-francesa\/","title":{"rendered":"A Greve Francesa"},"content":{"rendered":"<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">A Greve Francesa<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Jaldes Reis de Meneses<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">H\u00e1 um belo soneto do grande poeta franc\u00eas Charles Baudelaire que come\u00e7a assim: a rua em torno era um fren\u00e9tico alarido (A uma passante).<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Paris, Lyon, Marseille, junho, 1789; fevereiro, 1848; maio, 1968; outubro, 2010: t\u00e3o longe, t\u00e3o perto. Sem d\u00favida, o alarido das multid\u00f5es nas ruas vem a ser, junto com o vinho e os queijos, uma moderna tradi\u00e7\u00e3o francesa. A explica\u00e7\u00e3o estrutural do fen\u00f4meno de protestar nas ruas e erguer barricadas deita no pr\u00f3prio processo da revolu\u00e7\u00e3o francesa de 1789: na radicaliza\u00e7\u00e3o do processo jacobino (1792), os franceses fizeram uma reforma agr\u00e1ria radical, fatiando os antigos feudos em pequenas propriedades camponesas. Dessa maneira, a acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capitais no campo foi relativamente lenta, tendo em vistas o acelerado processo ingl\u00eas. Ou seja: a transfer\u00eancia de renda e capi tal do campo para a cidade se deu de modo constante, mas num ritmo equilibrado, tanto que at\u00e9 os dias de hoje os pequenos propriet\u00e1rios rurais s\u00e3o uma voz pol\u00edtica importante na Fran\u00e7a.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Qual a conex\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o das estruturas econ\u00f4micas da industrializa\u00e7\u00e3o francesa com o mundo da pol\u00edtica? O processo de revolu\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a configurou um tipo de hegemonia no qual as figuras do campon\u00eas e do artes\u00e3o, lado a lado com as formas sociais novas do oper\u00e1rio fabril e do burgu\u00eas, tiveram que estabelecer formas de conviv\u00eancia, certamente conflituosas, de hegemonia burguesa, decerto incorporadora, embora muitas vezes assumindo contornos bonapartistas, das demandas sociais dos de baixo. Enfim, o paradoxo do processo de revolu\u00e7\u00e3o burguesa na Franca l\u00eddimo e simples: o desmoronamento dos estamentos aristocr\u00e1ticos, e do clero, requisitou de um amplo consentimento social.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Foi esta sui generis configura\u00e7\u00e3o da econ\u00f4mica com a pol\u00edtica, o solo no qual germinaram as id\u00e9ias radicais republicanas e socialistas que tanto agradou o jovem Marx e tanto \u00f3dio despertou, em un\u00edssono, de todos os membros, sem exce\u00e7\u00e3o, do pensamento conservador, numa escala de Burke a Nietzsche. Neste \u00ednterim, \u00e9 o caso de recordar o pensamento corporativista de Saint-Simon \u2013 fundamento ideol\u00f3gico do Estado Social Franc\u00eas \u2013, atentando ao fato de que o corporativismo pregava a paz social, mas a partir do acordo entre as partes litigantes.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Deve-se perceber que as ra\u00edzes do Estado de Bem Estar Social franc\u00eas est\u00e3o arraigadas na cultura pol\u00edtica do pa\u00eds. Desmont\u00e1-lo, portanto, se assemelha a uma aut\u00eantica opera\u00e7\u00e3o de guerra. Por isso, o atual movimento grevista contra a lei de Sarkozy, que eleva a idade m\u00ednima de aposentadoria de 60 para 62 anos (na verdade, o fio do novelo de outras medidas), conta a ades\u00e3o, conforme pesquisas, de 71% da popula\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">\u00c9 fato que as bases definitivas do Estado Provid\u00eancia Franc\u00eas \u00e9 relativamente recente: adveio dos chamados acordos de Grenoble, acordo corporativo entre o Estado gaulista e os sindicatos comunistas que selou o fim dos movimentos de 1968, reiterando a tradi\u00e7\u00e3o dos acordos de classe se seguirem aos estertores do movimento revolucion\u00e1rio.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Para entender Sarkozy e os acontecimentos da greve francesa, talvez seja o caso de recuar a maio de 1968.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">No movimento do s\u00e9culo passado, t\u00ednhamos a circunst\u00e2ncia da irrup\u00e7\u00e3o de surpresa de um protesto juvenil, nascido nas Universidades, que se espalhou como um barril de p\u00f3lvora para muito pr\u00f3ximo de uma classe oper\u00e1ria fabril compacta, massiva e sindicalizada. Mais ainda: a alian\u00e7a entre oper\u00e1rios e estudantes estava acompanhada de um audacioso projeto de emancipa\u00e7\u00e3o social e humana \u2013 a imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica estava funcionando a pleno vapor \u2013, no qual os intelectuais tiveram um papel de destaque, sem compara\u00e7\u00e3o em nenhum movimento pol\u00edtico recente, na Europa ocidental.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">N\u00e3o devemos fantasiar 1968, at\u00e9 porque t\u00ednhamos a outra face da moeda, afinal vitoriosa. Do ponto de vista pol\u00edtico, rememorando as melhores tradi\u00e7\u00f5es bonapartistas francesas, tivemos a atua\u00e7\u00e3o do General de Gaulle, que sabia ser fundamental que o aparelho de Estado e as elites agissem sob um comando \u00fanico (o seu) durante a crise, sem apresentar sequer nesgas de dissid\u00eancias.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Todos deram carta branca ao comando unipessoal do general, que agiu em dois flancos: n\u00e3o pestanejou no uso dos instrumentos constitucionais de exce\u00e7\u00e3o ao seu dispor; por\u00e9m, a dissuas\u00e3o aos movimentos de rua foi dura, mas a repress\u00e3o policial seguinte relativamente branda, poucas pessoas foram presas e ningu\u00e9m condenado \u2013 \u201cn\u00e3o se pode prender Sartre, n\u00e3o se pode prender Voltaire\u201d disse o general em plena crise, uma frase de efeito que denota uma estrat\u00e9gia.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Resultado: o movimento deixou poucas cicatrizes (\u00e9 lembrado at\u00e9 com bom humor e saudosismo), e algumas bandeiras do movimento foram sendo paulatinamente absorvidas pelo establishment \u2013 ao menos em sua din\u00e2mica cultural e comportamental \u2013, cont\u00edguo com boa parte das lideran\u00e7as estudantil e os intelectuais, sendo perfeitamente integrados.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Revendo a poeira de 1968, Nicolas Sarkozy, estava ao lado do Estado e contra as barricadas. N\u00e3o mudou de lado. Contudo, h\u00e1 uma novidade de perfil. Trata-se de um pol\u00edtico-camale\u00e3o sem medo de usar o discurso da externa direita.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Bem define o papel de Sarkosy, no atual momento da Europa, o soci\u00f3logo Pierre Rosanvallon, \u201cHouve, sucessivamente, o sarkozysmo liberal, o nacional-colbertista [protecionista], o securit\u00e1rio e o quase xen\u00f3fobo. Berlusconi, na It\u00e1lia, e Cameron, no Reino Unido, s\u00e3o parecidos. Representam uma direita conquistadora e sem complexos. O verdadeiro fen\u00f4meno na Europa \u00e9 essa guinada geral \u00e0 direita. Desde junho de 2009, quando houve as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento europeu, os 13 pleitos legislativos nacionais que ocorreram na Europa deram vit\u00f3ria \u00e0 direita. Mas, ao contr\u00e1rio da direita social e republicana de gente como Jacques Chirac, a ruptura que Sarkozy representa n\u00e3o \u00e9 somente uma quest\u00e3o de estilo. Sarkozy n\u00e3o he sita em tomar emprestado parte da linguagem e da agenda da extrema direita. Mas, a\u00ed tamb\u00e9m, \u00e9 algo comum a todos os pa\u00edses europeus. At\u00e9 a Su\u00e9cia, fortaleza social-democrata, viu a extrema-direita se impor como fiel da balan\u00e7a na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o.\u201d (Folha de S. Paulo, 20\/10\/10).<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Sarkozy, at\u00e9 o momento, n\u00e3o disp\u00f5e da unidade da assustada classe m\u00e9dia e das elites, como De Gaulle em 1968. Vir\u00e1 a ter no futuro pr\u00f3ximo? Dificilmente, pois a crise econ\u00f4mica atual \u00e9 mais grave e profunda que a de 68.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Na greve atual, ao contr\u00e1rio da irrup\u00e7\u00e3o de surpresa do passado, que paralisa os oper\u00e1rios, os transportes p\u00fablicos, as refinarias, as escolas, os hospitais, enfim, a maioria dos servi\u00e7os estatais, era uma queda de bra\u00e7o anunciada pelo menos desde a crise econ\u00f4mica de 2008. A atitude inicial de parecer um pol\u00edtico \u201cdur\u00e3o\u201d foi um completo desastre. Passava pela cabe\u00e7a do marido de Carla Bruni o ganho simb\u00f3lico de derrotar o antagonismo dos sindicatos, cabe\u00e7a ceifada a ser exibida ao mundo dos neg\u00f3cios, e aos consortes chefes de Estado da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Qualquer que seja o desfecho, o Presidente Franc\u00eas encontra-se encurralado. Evidentemente, ele sabe que depois de um \u00e1pice, em algum momento, a greve vai arrefecer. Talvez negocie algumas reivindica\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias dos grevistas, sem abrir m\u00e3o do essencial: o aumento no tempo de aposentadoria. De todo modo, o desgaste \u00e9 irremedi\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 pouco, quando se sabe que a direita europ\u00e9ia tem sido vitoriosa em todas as elei\u00e7\u00f5es recentes, depois de 2008. Pode-se abrir um espa\u00e7o para a esquerda e at\u00e9 para a emers\u00e3o de um projeto pol\u00edtico de classe em um pa\u00eds fundamental do capitalismo mundial.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Tivemos uma greve geral dos servi\u00e7os p\u00fablicos na Franca em 2007. \u00c9 impressionante como a opini\u00e3o p\u00fablica se deslocou de l\u00e1 para c\u00e1: dois anos passados, era dif\u00edcil explicar aos usu\u00e1rios a greve nos servi\u00e7os p\u00fablicos. Hoje, o apoio \u00e9 generalizado. Criou-se uma greve de for\u00e7a popular, no qual a situa\u00e7\u00e3o dos sindicatos \u00e9 de ofensiva. Quando \u00e9 criada uma situa\u00e7\u00e3o dessas, sem negociar as reivindica\u00e7\u00f5es, caso o movimento se mantenha firme e unit\u00e1rio, no limite s\u00f3 resta uma alternativa ao poder do Estado: a repress\u00e3o e at\u00e9 o Estado de S\u00edtio. Vamos aguardar os pr\u00f3ximos acontecimentos.<\/div>\n<p><em>Jaldes Reis de Meneses<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 um belo soneto do grande poeta franc\u00eas Charles Baudelaire que come\u00e7a assim: a rua em torno era um fren\u00e9tico alarido (A uma passante).<\/p>\n<p>Paris, Lyon, Marseille, junho, 1789; fevereiro, 1848; maio, 1968; outubro, 2010: t\u00e3o longe, t\u00e3o perto. Sem d\u00favida, o alarido das multid\u00f5es nas ruas vem a ser, junto com o vinho e os queijos, uma moderna tradi\u00e7\u00e3o francesa. A explica\u00e7\u00e3o estrutural do fen\u00f4meno de protestar nas ruas e erguer barricadas deita no pr\u00f3prio processo da revolu\u00e7\u00e3o francesa de 1789: na radicaliza\u00e7\u00e3o do processo jacobino (1792), os franceses fizeram uma reforma agr\u00e1ria radical, fatiando os antigos feudos em pequenas propriedades camponesas. Dessa maneira, a acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capitais no campo foi relativamente lenta, tendo em vistas o acelerado processo ingl\u00eas. Ou seja: a transfer\u00eancia de renda e capi tal do campo para a cidade se deu de modo constante, mas num ritmo equilibrado, tanto que at\u00e9 os dias de hoje os pequenos propriet\u00e1rios rurais s\u00e3o uma voz pol\u00edtica importante na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Qual a conex\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o das estruturas econ\u00f4micas da industrializa\u00e7\u00e3o francesa com o mundo da pol\u00edtica? O processo de revolu\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a configurou um tipo de hegemonia no qual as figuras do campon\u00eas e do artes\u00e3o, lado a lado com as formas sociais novas do oper\u00e1rio fabril e do burgu\u00eas, tiveram que estabelecer formas de conviv\u00eancia, certamente conflituosas, de hegemonia burguesa, decerto incorporadora, embora muitas vezes assumindo contornos bonapartistas, das demandas sociais dos de baixo. Enfim, o paradoxo do processo de revolu\u00e7\u00e3o burguesa na Franca l\u00eddimo e simples: o desmoronamento dos estamentos aristocr\u00e1ticos, e do clero, requisitou de um amplo consentimento social.<\/p>\n<p>Foi esta sui generis configura\u00e7\u00e3o da econ\u00f4mica com a pol\u00edtica, o solo no qual germinaram as id\u00e9ias radicais republicanas e socialistas que tanto agradou o jovem Marx e tanto \u00f3dio despertou, em un\u00edssono, de todos os membros, sem exce\u00e7\u00e3o, do pensamento conservador, numa escala de Burke a Nietzsche. Neste \u00ednterim, \u00e9 o caso de recordar o pensamento corporativista de Saint-Simon \u2013 fundamento ideol\u00f3gico do Estado Social Franc\u00eas \u2013, atentando ao fato de que o corporativismo pregava a paz social, mas a partir do acordo entre as partes litigantes.<\/p>\n<p>Deve-se perceber que as ra\u00edzes do Estado de Bem Estar Social franc\u00eas est\u00e3o arraigadas na cultura pol\u00edtica do pa\u00eds. Desmont\u00e1-lo, portanto, se assemelha a uma aut\u00eantica opera\u00e7\u00e3o de guerra. Por isso, o atual movimento grevista contra a lei de Sarkozy, que eleva a idade m\u00ednima de aposentadoria de 60 para 62 anos (na verdade, o fio do novelo de outras medidas), conta a ades\u00e3o, conforme pesquisas, de 71% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 fato que as bases definitivas do Estado Provid\u00eancia Franc\u00eas \u00e9 relativamente recente: adveio dos chamados acordos de Grenoble, acordo corporativo entre o Estado gaulista e os sindicatos comunistas que selou o fim dos movimentos de 1968, reiterando a tradi\u00e7\u00e3o dos acordos de classe se seguirem aos estertores do movimento revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para entender Sarkozy e os acontecimentos da greve francesa, talvez seja o caso de recuar a maio de 1968.<\/p>\n<p>No movimento do s\u00e9culo passado, t\u00ednhamos a circunst\u00e2ncia da irrup\u00e7\u00e3o de surpresa de um protesto juvenil, nascido nas Universidades, que se espalhou como um barril de p\u00f3lvora para muito pr\u00f3ximo de uma classe oper\u00e1ria fabril compacta, massiva e sindicalizada. Mais ainda: a alian\u00e7a entre oper\u00e1rios e estudantes estava acompanhada de um audacioso projeto de emancipa\u00e7\u00e3o social e humana \u2013 a imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica estava funcionando a pleno vapor \u2013, no qual os intelectuais tiveram um papel de destaque, sem compara\u00e7\u00e3o em nenhum movimento pol\u00edtico recente, na Europa ocidental.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos fantasiar 1968, at\u00e9 porque t\u00ednhamos a outra face da moeda, afinal vitoriosa. Do ponto de vista pol\u00edtico, rememorando as melhores tradi\u00e7\u00f5es bonapartistas francesas, tivemos a atua\u00e7\u00e3o do General de Gaulle, que sabia ser fundamental que o aparelho de Estado e as elites agissem sob um comando \u00fanico (o seu) durante a crise, sem apresentar sequer nesgas de dissid\u00eancias.<\/p>\n<p>Todos deram carta branca ao comando unipessoal do general, que agiu em dois flancos: n\u00e3o pestanejou no uso dos instrumentos constitucionais de exce\u00e7\u00e3o ao seu dispor; por\u00e9m, a dissuas\u00e3o aos movimentos de rua foi dura, mas a repress\u00e3o policial seguinte relativamente branda, poucas pessoas foram presas e ningu\u00e9m condenado \u2013 \u201cn\u00e3o se pode prender Sartre, n\u00e3o se pode prender Voltaire\u201d disse o general em plena crise, uma frase de efeito que denota uma estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Resultado: o movimento deixou poucas cicatrizes (\u00e9 lembrado at\u00e9 com bom humor e saudosismo), e algumas bandeiras do movimento foram sendo paulatinamente absorvidas pelo establishment \u2013 ao menos em sua din\u00e2mica cultural e comportamental \u2013, cont\u00edguo com boa parte das lideran\u00e7as estudantil e os intelectuais, sendo perfeitamente integrados.<\/p>\n<p>Revendo a poeira de 1968, Nicolas Sarkozy, estava ao lado do Estado e contra as barricadas. N\u00e3o mudou de lado. Contudo, h\u00e1 uma novidade de perfil. Trata-se de um pol\u00edtico-camale\u00e3o sem medo de usar o discurso da externa direita.<\/p>\n<p>Bem define o papel de Sarkosy, no atual momento da Europa, o soci\u00f3logo Pierre Rosanvallon, \u201cHouve, sucessivamente, o sarkozysmo liberal, o nacional-colbertista [protecionista], o securit\u00e1rio e o quase xen\u00f3fobo. Berlusconi, na It\u00e1lia, e Cameron, no Reino Unido, s\u00e3o parecidos. Representam uma direita conquistadora e sem complexos. O verdadeiro fen\u00f4meno na Europa \u00e9 essa guinada geral \u00e0 direita. Desde junho de 2009, quando houve as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento europeu, os 13 pleitos legislativos nacionais que ocorreram na Europa deram vit\u00f3ria \u00e0 direita. Mas, ao contr\u00e1rio da direita social e republicana de gente como Jacques Chirac, a ruptura que Sarkozy representa n\u00e3o \u00e9 somente uma quest\u00e3o de estilo. Sarkozy n\u00e3o he sita em tomar emprestado parte da linguagem e da agenda da extrema direita. Mas, a\u00ed tamb\u00e9m, \u00e9 algo comum a todos os pa\u00edses europeus. At\u00e9 a Su\u00e9cia, fortaleza social-democrata, viu a extrema-direita se impor como fiel da balan\u00e7a na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o.\u201d (Folha de S. Paulo, 20\/10\/10).<\/p>\n<p>Sarkozy, at\u00e9 o momento, n\u00e3o disp\u00f5e da unidade da assustada classe m\u00e9dia e das elites, como De Gaulle em 1968. Vir\u00e1 a ter no futuro pr\u00f3ximo? Dificilmente, pois a crise econ\u00f4mica atual \u00e9 mais grave e profunda que a de 68.<\/p>\n<p>Na greve atual, ao contr\u00e1rio da irrup\u00e7\u00e3o de surpresa do passado, que paralisa os oper\u00e1rios, os transportes p\u00fablicos, as refinarias, as escolas, os hospitais, enfim, a maioria dos servi\u00e7os estatais, era uma queda de bra\u00e7o anunciada pelo menos desde a crise econ\u00f4mica de 2008. A atitude inicial de parecer um pol\u00edtico \u201cdur\u00e3o\u201d foi um completo desastre. Passava pela cabe\u00e7a do marido de Carla Bruni o ganho simb\u00f3lico de derrotar o antagonismo dos sindicatos, cabe\u00e7a ceifada a ser exibida ao mundo dos neg\u00f3cios, e aos consortes chefes de Estado da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>Qualquer que seja o desfecho, o Presidente Franc\u00eas encontra-se encurralado. Evidentemente, ele sabe que depois de um \u00e1pice, em algum momento, a greve vai arrefecer. Talvez negocie algumas reivindica\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias dos grevistas, sem abrir m\u00e3o do essencial: o aumento no tempo de aposentadoria. De todo modo, o desgaste \u00e9 irremedi\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 pouco, quando se sabe que a direita europ\u00e9ia tem sido vitoriosa em todas as elei\u00e7\u00f5es recentes, depois de 2008. Pode-se abrir um espa\u00e7o para a esquerda e at\u00e9 para a emers\u00e3o de um projeto pol\u00edtico de classe em um pa\u00eds fundamental do capitalismo mundial.<\/p>\n<p>Tivemos uma greve geral dos servi\u00e7os p\u00fablicos na Franca em 2007. \u00c9 impressionante como a opini\u00e3o p\u00fablica se deslocou de l\u00e1 para c\u00e1: dois anos passados, era dif\u00edcil explicar aos usu\u00e1rios a greve nos servi\u00e7os p\u00fablicos. Hoje, o apoio \u00e9 generalizado. Criou-se uma greve de for\u00e7a popular, no qual a situa\u00e7\u00e3o dos sindicatos \u00e9 de ofensiva. Quando \u00e9 criada uma situa\u00e7\u00e3o dessas, sem negociar as reivindica\u00e7\u00f5es, caso o movimento se mantenha firme e unit\u00e1rio, no limite s\u00f3 resta uma alternativa ao poder do Estado: a repress\u00e3o e at\u00e9 o Estado de S\u00edtio. Vamos aguardar os pr\u00f3ximos acontecimentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Greve Francesa Jaldes Reis de Meneses H\u00e1 um belo soneto do grande poeta franc\u00eas Charles Baudelaire que come\u00e7a assim: a rua em torno era um fren\u00e9tico alarido (A uma passante). Paris, Lyon, Marseille, junho, 1789; fevereiro, 1848; maio, 1968; outubro, 2010: t\u00e3o longe, t\u00e3o perto. Sem d\u00favida, o alarido das multid\u00f5es nas ruas vem&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-1355","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-16","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1355","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1355"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1355\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1355"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1355"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1355"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}