{"id":1288,"date":"2010-09-10T09:46:06","date_gmt":"2010-09-10T13:46:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/a-desuniversidade\/"},"modified":"2010-09-10T09:46:06","modified_gmt":"2010-09-10T13:46:06","slug":"a-desuniversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/a-desuniversidade\/","title":{"rendered":"A desuniversidade"},"content":{"rendered":"<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Opini\u00e3o &#8211; A desuniversidade, por Boaventura de Sousa Santos<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">O projeto de reforma da universidade europ\u00e9ia corre o risco de virar uma contra-reforma. Caso isso ocorra, os crit\u00e9rios de mercantiliza\u00e7\u00e3o reduzir\u00e3o o valor das \u00e1reas de conhecimento ao seu pre\u00e7o de mercado e o latim, a poesia ou a filosofia s\u00f3 ser\u00e3o mantidos se algum macdonald inform\u00e1tico vir neles utilidade.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Boaventura de Sousa Santos*<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">O processo de Bolonha \u2014 a unifica\u00e7\u00e3o dos sistemas universit\u00e1rios europeus com vista a criar uma \u00e1rea europeia de educa\u00e7\u00e3o superior \u2014 tem sido visto como a grande oportunidade para realizar a reforma da universidade europeia. Penso, no entanto, que os universit\u00e1rios europeus ter\u00e3o de enfrentar a seguinte quest\u00e3o: o processo de Bolonha \u00e9 uma reforma ou uma contra-reforma? A reforma \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o da universidade que a prepare para responder criativamente aos desafios do s\u00e9culo XXI, em cuja defini\u00e7\u00e3o ela ativamente participa. A contra-reforma \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o \u00e0 universidade de desafios que legitimam a sua total descaracteriza\u00e7\u00e3o, sob o pretexto da reforma. A quest\u00e3o n\u00e3o tem, por agora, resposta, pois est\u00e1 tudo em aberto. H\u00e1, no entanto, sinais perturbadores de que as for\u00e7as da contra-reforma podem vir a prevalecer. Se tal acontecer, o cen\u00e1rio dist\u00f3pico ter\u00e1 os seguintes contornos.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Agora que a crise financeira permitiu ver os perigos de criar uma moeda \u00fanica sem unificar as pol\u00edticas p\u00fablicas, a pol\u00edtica fiscal e os or\u00e7amentos do Estado, pode suceder que, a prazo, o processo de Bolonha se transforme no euro das universidades europeias. As consequ\u00eancias previs\u00edveis ser\u00e3o estas: abandonam-se os princ\u00edpios do internacionalismo universit\u00e1rio solid\u00e1rio e do respeito pela diversidade cultural e institucional em nome da efici\u00eancia do mercado universit\u00e1rio europeu e da competitividade; as universidades mais d\u00e9beis (concentradas nos pa\u00edses mais d\u00e9beis) s\u00e3o lan\u00e7adas pelas ag\u00eancias de rating universit\u00e1rio no caixote do lixo do ranking, t\u00e3o supostamente rigoroso quanto realmente arbitr\u00e1rio e subjetivo, e sofrer\u00e3o as consequ\u00eancias do desinvestimento p\u00fablico acelerado; muitas universidades encerrar\u00e3o e, tal como j\u00e1 est\u00e1 a acontecer a outros n\u00edveis de ensino, os estudantes e seus pais vaguear\u00e3o pelos pa\u00edses em busca da melhor ratio qualidade\/pre\u00e7o, tal como j\u00e1 fazem nos centros comerciais em que as universidades entretanto se ter\u00e3o<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">transformado.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">O impacto interno ser\u00e1 avassalador: a rela\u00e7\u00e3o investiga\u00e7\u00e3o\/doc\u00eancia, t\u00e3o proclamada por Bolonha, ser\u00e1 o para\u00edso para as universidades no topo do ranking (uma pequen\u00edssima minoria) e o inferno para a esmagadora maioria das universidades e universit\u00e1rios. Os crit\u00e9rios de mercantiliza\u00e7\u00e3o reduzir\u00e3o o valor das diferentes \u00e1reas de conhecimento ao seu pre\u00e7o de mercado e o latim, a poesia ou a filosofia s\u00f3 ser\u00e3o mantidos se algum macdonald inform\u00e1tico vir neles utilidade.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Os gestores universit\u00e1rios ser\u00e3o os primeiros a interiorizar a orgia classificat\u00f3ria, objetivoman\u00edaca e indiceman\u00edaca; tornar-se-\u00e3o ex\u00edmios em criar receitas pr\u00f3prias por expropria\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias ou pilhagem do descanso e da vida pessoal dos docentes, exercendo toda a sua criatividade na destrui\u00e7\u00e3o da criatividade e da diversidade universit\u00e1rias, normalizando tudo o que \u00e9 normaliz\u00e1vel e destruindo tudo o que o n\u00e3o \u00e9.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Os professores ser\u00e3o proletarizados por aquilo de que supostamente s\u00e3o donos \u2014 o ensino, a avalia\u00e7\u00e3o e a investiga\u00e7\u00e3o \u2014 zombies de formul\u00e1rios, objetivos, avalia\u00e7\u00f5es impec\u00e1veis no rigor formal e necessariamente fraudulentas na subst\u00e2ncia, workpackages, deliverables, milestones, neg\u00f3cios de cita\u00e7\u00e3o rec\u00edproca para melhorar os \u00edndices, compara\u00e7\u00f5es entre o publicas-onde-n\u00e3o-me-interessa-o-qu\u00ea, carreiras imaginadas como exaltantes e sempre paradas nos andares de baixo. Os estudantes ser\u00e3o donos da sua aprendizagem e do seu endividamento para o resto da vida, em permanente deslize da cultura estudantil para cultura do consumo estudantil, aut\u00f4nomos nas escolhas de que n\u00e3o conhecem a l\u00f3gica nem os limites, personalizadamente orientados para as sa\u00eddas do desemprego profissional.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">O servi\u00e7o da educa\u00e7\u00e3o terci\u00e1ria estar\u00e1 finalmente liberalizado e conforme \u00e0s regras da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio. Nada disto tem de acontecer, mas para que n\u00e3o aconte\u00e7a \u00e9 necess\u00e1rio que os universit\u00e1rios e as for\u00e7as pol\u00edticas para quem esta nova normalidade \u00e9 uma monstruosidade definam o que tem de ser feito e se organizem eficazmente para que seja feito. Ser\u00e1 o tema da pr\u00f3xima cr\u00f4nica.<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">* Boaventura de Sousa Santos \u00e9 soci\u00f3logo e professor catedr\u00e1tico da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).<\/div>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;\">Fonte: Ag\u00eancia Carta Maior<\/div>\n<p><em>Boaventura de Sousa Santos*<\/em><\/p>\n<p>O projeto de reforma da universidade europ\u00e9ia corre o risco de virar uma contra-reforma. Caso isso ocorra, os crit\u00e9rios de mercantiliza\u00e7\u00e3o reduzir\u00e3o o valor das \u00e1reas de conhecimento ao seu pre\u00e7o de mercado e o latim, a poesia ou a filosofia s\u00f3 ser\u00e3o mantidos se algum macdonald inform\u00e1tico vir neles utilidade.<\/p>\n<p>Boaventura de Sousa Santos*<\/p>\n<p>O processo de Bolonha \u2014 a unifica\u00e7\u00e3o dos sistemas universit\u00e1rios europeus com vista a criar uma \u00e1rea europeia de educa\u00e7\u00e3o superior \u2014 tem sido visto como a grande oportunidade para realizar a reforma da universidade europeia. Penso, no entanto, que os universit\u00e1rios europeus ter\u00e3o de enfrentar a seguinte quest\u00e3o: o processo de Bolonha \u00e9 uma reforma ou uma contra-reforma? A reforma \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o da universidade que a prepare para responder criativamente aos desafios do s\u00e9culo XXI, em cuja defini\u00e7\u00e3o ela ativamente participa. A contra-reforma \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o \u00e0 universidade de desafios que legitimam a sua total descaracteriza\u00e7\u00e3o, sob o pretexto da reforma. A quest\u00e3o n\u00e3o tem, por agora, resposta, pois est\u00e1 tudo em aberto. H\u00e1, no entanto, sinais perturbadores de que as for\u00e7as da contra-reforma podem vir a prevalecer. Se tal acontecer, o cen\u00e1rio dist\u00f3pico ter\u00e1 os seguintes contornos.<\/p>\n<p>Agora que a crise financeira permitiu ver os perigos de criar uma moeda \u00fanica sem unificar as pol\u00edticas p\u00fablicas, a pol\u00edtica fiscal e os or\u00e7amentos do Estado, pode suceder que, a prazo, o processo de Bolonha se transforme no euro das universidades europeias. As consequ\u00eancias previs\u00edveis ser\u00e3o estas: abandonam-se os princ\u00edpios do internacionalismo universit\u00e1rio solid\u00e1rio e do respeito pela diversidade cultural e institucional em nome da efici\u00eancia do mercado universit\u00e1rio europeu e da competitividade; as universidades mais d\u00e9beis (concentradas nos pa\u00edses mais d\u00e9beis) s\u00e3o lan\u00e7adas pelas ag\u00eancias de rating universit\u00e1rio no caixote do lixo do ranking, t\u00e3o supostamente rigoroso quanto realmente arbitr\u00e1rio e subjetivo, e sofrer\u00e3o as consequ\u00eancias do desinvestimento p\u00fablico acelerado; muitas universidades encerrar\u00e3o e, tal como j\u00e1 est\u00e1 a acontecer a outros n\u00edveis de ensino, os estudantes e seus pais vaguear\u00e3o pelos pa\u00edses em busca da melhor ratio qualidade\/pre\u00e7o, tal como j\u00e1 fazem nos centros comerciais em que as universidades entretanto se ter\u00e3o<\/p>\n<p>transformado.<\/p>\n<p>O impacto interno ser\u00e1 avassalador: a rela\u00e7\u00e3o investiga\u00e7\u00e3o\/doc\u00eancia, t\u00e3o proclamada por Bolonha, ser\u00e1 o para\u00edso para as universidades no topo do ranking (uma pequen\u00edssima minoria) e o inferno para a esmagadora maioria das universidades e universit\u00e1rios. Os crit\u00e9rios de mercantiliza\u00e7\u00e3o reduzir\u00e3o o valor das diferentes \u00e1reas de conhecimento ao seu pre\u00e7o de mercado e o latim, a poesia ou a filosofia s\u00f3 ser\u00e3o mantidos se algum macdonald inform\u00e1tico vir neles utilidade.<\/p>\n<p>Os gestores universit\u00e1rios ser\u00e3o os primeiros a interiorizar a orgia classificat\u00f3ria, objetivoman\u00edaca e indiceman\u00edaca; tornar-se-\u00e3o ex\u00edmios em criar receitas pr\u00f3prias por expropria\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias ou pilhagem do descanso e da vida pessoal dos docentes, exercendo toda a sua criatividade na destrui\u00e7\u00e3o da criatividade e da diversidade universit\u00e1rias, normalizando tudo o que \u00e9 normaliz\u00e1vel e destruindo tudo o que o n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Os professores ser\u00e3o proletarizados por aquilo de que supostamente s\u00e3o donos \u2014 o ensino, a avalia\u00e7\u00e3o e a investiga\u00e7\u00e3o \u2014 zombies de formul\u00e1rios, objetivos, avalia\u00e7\u00f5es impec\u00e1veis no rigor formal e necessariamente fraudulentas na subst\u00e2ncia, workpackages, deliverables, milestones, neg\u00f3cios de cita\u00e7\u00e3o rec\u00edproca para melhorar os \u00edndices, compara\u00e7\u00f5es entre o publicas-onde-n\u00e3o-me-interessa-o-qu\u00ea, carreiras imaginadas como exaltantes e sempre paradas nos andares de baixo. Os estudantes ser\u00e3o donos da sua aprendizagem e do seu endividamento para o resto da vida, em permanente deslize da cultura estudantil para cultura do consumo estudantil, aut\u00f4nomos nas escolhas de que n\u00e3o conhecem a l\u00f3gica nem os limites, personalizadamente orientados para as sa\u00eddas do desemprego profissional.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o da educa\u00e7\u00e3o terci\u00e1ria estar\u00e1 finalmente liberalizado e conforme \u00e0s regras da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio. Nada disto tem de acontecer, mas para que n\u00e3o aconte\u00e7a \u00e9 necess\u00e1rio que os universit\u00e1rios e as for\u00e7as pol\u00edticas para quem esta nova normalidade \u00e9 uma monstruosidade definam o que tem de ser feito e se organizem eficazmente para que seja feito. Ser\u00e1 o tema da pr\u00f3xima cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>* Boaventura de Sousa Santos \u00e9 soci\u00f3logo e professor catedr\u00e1tico da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).<\/p>\n<p><em>Fonte: Ag\u00eancia Carta Maior<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o &#8211; A desuniversidade, por Boaventura de Sousa Santos O projeto de reforma da universidade europ\u00e9ia corre o risco de virar uma contra-reforma. 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