{"id":12427,"date":"2015-10-19T07:53:31","date_gmt":"2015-10-19T11:53:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=12427"},"modified":"2015-10-19T09:31:50","modified_gmt":"2015-10-19T13:31:50","slug":"uber-em-joao-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/uber-em-joao-pessoa\/","title":{"rendered":"Uber em Jo\u00e3o Pessoa"},"content":{"rendered":"<p><em>Jaldes Meneses<\/em><\/p>\n<p>No caminho cotidiano de retorno \u00e0 casa do trabalho na Universidade, escuto no r\u00e1dio do carro que a C\u00e2mara Municipal de Jo\u00e3o Pessoa dever\u00e1 pautar, na pr\u00f3xima semana, a pol\u00eamica internacional, que j\u00e1 passou por Bras\u00edlia, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, de admitir, proibir ou regulamentar o servi\u00e7o de \u201cCarona Paga\u201d conhecido internacionalmente como \u201cUber\u201d.<\/p>\n<p>Carona paga, Economia de compartilhamento, Tecnologias emergentes, gritam os defensores do Uber. Qual o significado desses simp\u00e1ticos ardis de linguagem? Menos ci\u00eancia dura e mais psicologia social, n\u00e3o passam de eufemismos de disfarce da crueza da concorr\u00eancia capitalista, uma parte fundamental de uma opera\u00e7\u00e3o planejada de dumping visando amealhar o controle dos tradicionais servi\u00e7os de T\u00e1xi. Mesmo que o Uber n\u00e3o tenha feito a apari\u00e7\u00e3o em nossa cidade &#8211; certamente por motivo de o tamanho de nosso mercado ainda n\u00e3o comportar servi\u00e7os de T\u00e1xi de Luxo \u2013, n\u00e3o tardar\u00e1 o dia de algum novidadeiro atracar em nossas paragens. Melhor prevenir que remediar. Contudo, \u00e9 preciso passar da defensiva de mercados para a ofensiva de esclarecer os verdadeiros termos envolvidos no debate internacional.<\/p>\n<p>Deixei de ser moderno, agora sou eterno, escreveu o nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade. Nunca vi tanta burrice internacional submoderna e provinciana, espalhada brasa quente de asneiras, como no debate dos mercados de T\u00e1xi. Estou sugerindo ao novo Ministro Aloizio Mercadante uma reavalia\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios de nossos cursos de economia e administra\u00e7\u00e3o, tanto disparate tenho lido desse pessoal engomadinho da salada e jantar.<\/p>\n<p>Procura-se resumir a quest\u00e3o do UBER a ado\u00e7\u00e3o de um aplicativo de celular, quando, evidentemente, o tal aplicativo \u00e9 apenas um dos instrumentos que comp\u00f5em um pacote de servi\u00e7os padronizados postos \u00e0 venda no mercado por uma megaempresa \u00e1vida em vender uma franquia internacional do j\u00e1 existente, num verdadeiro processo de desapropria\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Se antes os servi\u00e7os de taxi eram assunto de regula\u00e7\u00e3o municipal, em Jo\u00e3o Pessoa ou Nova Iorque, o pulo do gato da franquia do UBER consiste em centralizar, em uma nova frente de poder mundializado, o controle dos servi\u00e7os de T\u00e1xi.<\/p>\n<p>O aplicativo \u00e9 importante no neg\u00f3cio, mas t\u00e3o importante quanto ele \u00e9 a exig\u00eancia de carro preto, a \u00e1gua mineral e \u2013 principalmente \u2013, no momento de instala\u00e7\u00e3o e fideliza\u00e7\u00e3o dos clientes, um dumping de pre\u00e7os competitivos. Qual a complica\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 que os munic\u00edpios s\u00e3o incapazes de tamb\u00e9m instituir um mercado de T\u00e1xi de luxo com padr\u00e3o de excel\u00eancia, desacoplado da necessidade de aderir ao Uber?<\/p>\n<p>N\u00e3o defendo, \u00e9 claro, as estruturas mafiosas de poder de muitas cooperativas de t\u00e1xis mundo afora &#8211; aparente argumento profil\u00e1tico dos defensores do Uber. Sem d\u00favida, muitas (talvez sequer a maioria) dessas cooperativas, detentoras do monop\u00f3lio do servi\u00e7o, mais assemelham os bandidos, sob as vestes de sindicalistas portu\u00e1rios do cinquenten\u00e1rio filme \u201cSindicato de Ladr\u00f5es, dirigido por Elia Kazan e Marlon Brando mais brilhante que nunca. O dedo em riste da acusa\u00e7\u00e3o de defender servi\u00e7os municipais de T\u00e1xi de Luxo significa defender m\u00e1fia nada mais \u00e9 que um trunque ret\u00f3rico.<\/p>\n<p>Deixemos de mistifica\u00e7\u00e3o. Por ser um pacote de servi\u00e7os no qual se inclui uma ideologia, o Uber \u00e9 vendido no jogo das apar\u00eancias como se fosse uma batalha entre \u201cvelhos\u201d defasados e \u201cnovos\u201d intr\u00e9pidos empreendedores, carcomidos rom\u00e2nticos versus liberais schumpeterianos. Essa armadura mental de comportamento de manada me d\u00e1 pregui\u00e7a. At\u00e9 parece que desenvolver o aplicativo do Uber significa guardar o segredo da bomba at\u00f4mica! Segredo, com certeza, mas de polichinelo.<\/p>\n<p>Permitam-me desembrulhar a caixa com uma constata\u00e7\u00e3o pueril: est\u00e1-se ao alcance de uma universidade m\u00e9dia, caso adotado pol\u00edticas institucionais corretas, construir intelig\u00eancia instalada com capacidade de desenvolver um aplicativo de celular tipo Uber. Deixem contar um caso instrutivo. A nossa UFPB, atrav\u00e9s do grupo de pesquisas do professor Guido Lemos, aqui na Para\u00edba, desenvolveu recentemente a tecnologia do Ginga, de intera\u00e7\u00e3o na TV Digital. O que aconteceu? Como as empresas japonesas s\u00e3o dominantes no mercado de TV Digital brasileiro e j\u00e1 desenvolveram sistemas pr\u00f3prios de intera\u00e7\u00e3o, o mercado \u00e9 interditado ao nosso Ginga. No darwinismo da concorr\u00eancia, a espertise dos mais fracos \u00e9 sem apelo.<\/p>\n<p>Menos que a expertise, o que realmente conta no cart\u00f3rio \u00e9 a trag\u00e9dia anunciada de uma Universidade distante dos grandes centros capitalistas, nem de longe, possuir a proximidade institucional e a cultura ambiente de neg\u00f3cios da dimens\u00e3o das incubadoras de projetos de uma Harvard em Boston ou de uma Stafford em S\u00e3o Francisco. Na sinergia entre tecnologias simples e grandes neg\u00f3cios as universidades americanas s\u00e3o imbat\u00edvies, confluindo na exist\u00eancia de milhares e milhares de servi\u00e7os, novos ou adaptados, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o do complexo da inova\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, intrinsecamente ligado aos grandes mercados de a\u00e7\u00f5es. O UBER, desligado da institucionalidade dos mercados financeiros internacionais nada seria &#8211; no m\u00e1ximo um aplicativo de adolescentes nerds de rosto espinhento. No mundo das inova\u00e7\u00f5es de pacotes de servi\u00e7os tecnol\u00f3gicos, ci\u00eancia sem finan\u00e7as n\u00e3o alcan\u00e7am voar mais alto que a r\u00eas do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Precisamos ter a dimens\u00e3o dos poderes ideol\u00f3gicos envolvidos na contenda do Uber. Mal comparando realidades distintas para fins de didatismo, interponho o caso do desaparecimento da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica. Antes poderosa e internacionalmente articulada, repleta de artistas pop de prest\u00edgio, o mercado de discos morreu na disputa ao jogar na retranca contra os novos softwares de reprodu\u00e7\u00e3o musical. Bem feito. Mas atentem virar o outro lado do disco e ter\u00e3o a necessidade de fabular em modo de expressividade est\u00e9tica o mundo dos neg\u00f3cios: tanto quanto a ineg\u00e1vel intelig\u00eancia empreendedora, que n\u00e3o sou doido de negar, por outro lado n\u00e3o subestimemos o papel estrat\u00e9gico da mitologia constru\u00edda em torno a imagem bacana dos empreendedores jovens e descolados, ao estilo de Mark Zuckerberg, Bill Gates ou Steve Jobs &#8211; substitutos dos antigos e carcomidos astros do rock -, no jogo pesado de substituir antigos servi\u00e7os. Neste caso, procura-se construir o apelo do charme da marca Uber, se me entendem, no mesmo tipo parelho de opera\u00e7\u00e3o que se fez o charme da marca Apple. Realmente, menos que dos s\u00e1bios, o mundo \u00e9 dos mais sabidos.<\/p>\n<p>Aos governos estaduais e municipais n\u00e3o resolve simplesmente \u201cproibir\u201d o Uber, mas instituir e regulamentar outro servi\u00e7o de T\u00e1xi de Luxo, de dimens\u00e3o municipal, sem necessidade de cota\u00e7\u00e3o na bolsa de Wall Street. A prop\u00f3sito, evocando Stanislaw Ponte Preta, j\u00e1 merece o pr\u00eamio FEBEAPA (Festival de Besteiras que Assola o pa\u00eds), nestes 2015 pr\u00f3digo em asneiras, aquele comentarista que se espantou que a cota\u00e7\u00e3o em a\u00e7\u00f5es do Uber superasse por uns dias as da Petrobras, confundindo propriedade material e jogo especulativo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 de parab\u00e9ns o prefeito Fernando Haddad, de S\u00e3o Paulo, em criar uma esp\u00e9cie de \u201cUber do B\u201d (denominado de \u201cT\u00e1xi Preto\u201d) para os servi\u00e7os de T\u00e1xi de Luxo na maior cidade brasileira, que me parece a melhor solu\u00e7\u00e3o. Simplesmente proibir, \u00e9 anacr\u00f4nico. Em S\u00e3o Paulo, o prefeito interditou entregar de bandeja um mercado em acens\u00e3o a um projeto franquia que pretende ganhar de gra\u00e7a o monop\u00f3lio internacional de um servi\u00e7o tradicionalmente municipal, munida, para expans\u00e3o, das facilidades de um discurso charmoso, um aplicativo e um padr\u00e3o de atendimento ao cliente. O logro do Uber \u00e9 que nada impede outro charme, outro aplicativo e padr\u00e3o de servi\u00e7o compar\u00e1vel ser institu\u00eddo e controlado nas esferas de poder estadual e municipal. Por que n\u00e3o? Que a Para\u00edba e Jo\u00e3o Pessoa cotejem a brecha de autonomia de mercado aberta em S\u00e3o Paulo e adotem os pr\u00f3prios caminhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Meneses No caminho cotidiano de retorno \u00e0 casa do trabalho na Universidade, escuto no r\u00e1dio do carro que a C\u00e2mara Municipal de Jo\u00e3o Pessoa dever\u00e1 pautar, na pr\u00f3xima semana, a pol\u00eamica internacional, que j\u00e1 passou por Bras\u00edlia, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, de admitir, proibir ou regulamentar o servi\u00e7o de \u201cCarona Paga\u201d conhecido&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,15],"tags":[],"class_list":["post-12427","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-noticias","category-16","category-15","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12427","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12427"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12427\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12435,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12427\/revisions\/12435"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12427"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12427"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12427"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}