{"id":1153,"date":"2010-07-07T14:15:17","date_gmt":"2010-07-07T18:15:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/radegundis-e-mario-viver-e-morrer\/"},"modified":"2010-07-07T14:15:17","modified_gmt":"2010-07-07T18:15:17","slug":"radegundis-e-mario-viver-e-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/radegundis-e-mario-viver-e-morrer\/","title":{"rendered":"Radegundis e M\u00e1rio: Viver e morrer"},"content":{"rendered":"<p><em>Jaldes Reis de Meneses<\/em><\/p>\n<p>A s\u00fabita not\u00edcia de morte, o redemoinho de uma not\u00edcia em cima da outra, de dois professores \u2013 Radegundis Feitosa e M\u00e1rio Assad \u2013 me deixou com um sentimento incomum de consterna\u00e7\u00e3o, parecido com a vontade de poesia, que s\u00f3 pode ser expiado pela catarse da escrita. A cerim\u00f4nia de adeus aos dois companheiros de profiss\u00e3o me fez voltar \u00e0 mente os temas da vida e da morte num grau parecido com o da morte de meu pai, h\u00e1 dois anos passados.<\/p>\n<p>N\u00e3o fui amigo \u00edntimo de nenhum dos dois, cruzaram o meu caminho na condi\u00e7\u00e3o de colegas de profiss\u00e3o com os quais em certas ocasi\u00f5es compartilhei combates e atividades em comum e de que passei a admirar o evidente valor pessoal. Uma das ora\u00e7\u00f5es do Padre Vieira sentencia: os discursos de quem n\u00e3o viu, s\u00e3o discursos, os discursos de quem viu s\u00e3o profecias. Com a devida v\u00eania de Vieira, vou dar uma de profeta do passado. Tenho a di zer por testemunho direto de quem viu: foram duas vidas plenas de realiza\u00e7\u00e3o do talento. Eram duas personalidades, talvez uma desconhecida da outra &#8211; n\u00e3o sei -, que, ao menos aos meus olhos em retrovisor, agora se completam.<\/p>\n<p>Por manifesto, me abstenho de demorar em dissertar a genialidade musical de Redegundis, como tamb\u00e9m das contribui\u00e7\u00f5es de M\u00e1rio Assad, trabalhador prof\u00edcuo, ao desenvolvimento da ci\u00eancia e tecnologia, principalmente a Internet, na UFPB e na Para\u00edba. Artista e cientista, ambos eram figuras dotadas de enorme senso de humor, sustentado em alta voltagem de senso pr\u00e1tico. Se couber um tru\u00edsmo, a gente n\u00e3o repara, mas a vida realmente \u00e9 bela. N\u00e3o estamos na presen\u00e7a de generais nem de celebridades, de her\u00f3is sacrifi\u00e7ais nem de profetas, mas de talentos de vida comum, cuja ventura encontra-se na fidelidade ao desejo de realizar a condi\u00e7\u00e3o de m\u00fasico e de f\u00edsico.<\/p>\n<p>Alguns, arguindo uma psican\u00e1lise simplificada, tendem a considerar a impossibilidade de realiza\u00e7\u00e3o do desejo um po\u00e7o permanente de infelicidade, de derrota l\u00fagubre do sujeito. \u00c9 preciso ir devagar com o andor: para mim, a fidelidade do desejo guarda dist\u00e2ncia do ato de sublimar o ato sexual em arte e ci\u00eancia, explica\u00e7\u00e3o do senso comum psicanal\u00edtico. A fidelidade ao desejo define a vida tanto de Radegundis como de M\u00e1rio. Fidelidade \u00e9 diferente de f\u00e9 religiosa, que pode vir a ser uma inerte contempla\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica; em ambos, Radegundis e M\u00e1rio, ao contr\u00e1rio, a escolha em ser m\u00fasico ou f\u00edsico, estava al\u00e9m da simples inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, eram projetos criativos em execu\u00e7\u00e3o por toda a exist\u00eancia. Por isso, o senso de humor e o senso pr\u00e1tico eram caracter\u00edsticos nos dois. N\u00e3o sei bem de M\u00e1rio, mas Radegundis carregava o trombone por todo lugar, a qualquer momento de um encontro, sacava do instrumento e punha-se a tocar maravilhosamente: isso \u00e9 que \u00e9 fidelidade ao desejo, aquilo que equivocada mente algumas pessoas chamam de obsess\u00e3o do artista ou do cientista e que nada tem a ver com aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Procuro fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre a admira\u00e7\u00e3o \u00e0 singeleza dos que conseguiram a felicidade atrav\u00e9s de uma persistente fidelidade ao desejo e a falsa grandiloq\u00fc\u00eancia do culto dos grandes \u00eddolos. Os \u00eddolos s\u00e3o como semideuses, preenchem involuntariamente os nossos recalques, mas n\u00e3o necessariamente s\u00e3o fieis ao pr\u00f3prio desejo, por isso muitos deles padecem infelizes. Os \u00eddolos da cultura de massas s\u00e3o os substitutos dos deuses do Olimpo. Nada vale a pena se a alma fica pequena: de nada vale o reconhecimento da obra se ela presta desservi\u00e7o \u00e0 autonomia plena de si mesmo (Foucault tinha uma express\u00e3o que reproduz o que pretendo dizer: uma vida que exercite a liberdade da vontade ao mesmo tempo em que realiza a obra como plenitude, o cuidado de si). Reconhecidos, todavia distantes do estridente sucesso de celebridades, companheiros que j\u00e1 se f oram de nosso cotidiano, a obra de Radegundis e M\u00e1rio ficam como fonte de exemplo: assim que se deve viver a vida, cuidar de si pela fidelidade a si mesmo \u00e9 regar pelo exemplo a vida alheia.<\/p>\n<p>A ta\u00e7a de vinho da vida \u00e9 incomensur\u00e1vel, pois desfrutemo-la seguindo o exemplo de Radegundis e M\u00e1rio.<\/p>\n<p>blog: http:\/\/jaldes-campodeensaio.blogspot.com\/<\/p>\n<p>coluna: http:\/\/www.wscom.com.br\/blog\/jaldesmenezes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Reis de Meneses A s\u00fabita not\u00edcia de morte, o redemoinho de uma not\u00edcia em cima da outra, de dois professores \u2013 Radegundis Feitosa e M\u00e1rio Assad \u2013 me deixou com um sentimento incomum de consterna\u00e7\u00e3o, parecido com a vontade de poesia, que s\u00f3 pode ser expiado pela catarse da escrita. 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