{"id":11253,"date":"2015-06-09T21:52:12","date_gmt":"2015-06-10T01:52:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=11253"},"modified":"2015-06-09T21:52:12","modified_gmt":"2015-06-10T01:52:12","slug":"greve-na-universidade-publica-objecoes-frequentes-respostas-incomodas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/greve-na-universidade-publica-objecoes-frequentes-respostas-incomodas\/","title":{"rendered":"Greve na Universidade P\u00fablica \u2013 Obje\u00e7\u00f5es Frequentes, Respostas Inc\u00f4modas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">Publicado em\u00a0<a title=\"19:46\" href=\"https:\/\/capitalismoemdesencanto.wordpress.com\/2015\/05\/27\/greve-na-universidade-publica-objecoes-frequentes-respostas-incomodas\/\">27 de maio de 2015<\/a>\u00a0por\u00a0<a title=\"Ver todos os artigos de Autoras\/es convidadas\/os\" href=\"https:\/\/capitalismoemdesencanto.wordpress.com\/author\/convidadosdotimmarx\/\">Autoras\/es convidadas\/os<\/a><\/p>\n<p align=\"right\"><i>Marcelo Badar\u00f3 Mattos<\/i><\/p>\n<p align=\"right\"><i>Professor do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal Fluminense<\/i><\/p>\n<p align=\"right\">\n<p>Para um professor que como eu, j\u00e1 est\u00e1 trabalhando em institui\u00e7\u00f5es federais de ensino h\u00e1 quase trinta anos, as greves por certo n\u00e3o s\u00e3o novidades. Da mesma forma, tenho dificuldades em encontrar argumentos novos entre aqueles que se manifestam contrariamente ao uso desse instrumento. Percebo que novas gera\u00e7\u00f5es de estudantes (e tamb\u00e9m de docentes e servidores) muitas vezes reproduzem, legitimamente, d\u00favidas e pondera\u00e7\u00f5es que apareceram em momentos passados. S\u00e3o argumentos v\u00e1lidos, que merecem um debate que se enriquece quando experi\u00eancias passadas s\u00e3o resgatadas. H\u00e1, entretanto, tamb\u00e9m, muitos que conhecem essas experi\u00eancias e recorrem aos mesmos argumentos contr\u00e1rios \u00e0s greves que utilizaram em outras ocasi\u00f5es, mesmo tendo sido refutados, por outros argumentos e pela pr\u00f3pria realidade hist\u00f3rica, mas fingem desconhecer essas refuta\u00e7\u00f5es para continuar tentando deslegitimar as organiza\u00e7\u00f5es coletivas e formas de luta dos profissionais de educa\u00e7\u00e3o e estudantes.<\/p>\n<p>Por isso, mesmo correndo o risco de tamb\u00e9m ser repetitivo em rela\u00e7\u00e3o a argumentos que j\u00e1 usei em outros momentos de greve, acredito ser importante comentar e contra-argumentar a respeito de algumas dessas quest\u00f5es recorrentes. Afinal, entre outros resultados poss\u00edveis de uma greve, especialmente na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 a dimens\u00e3o pedag\u00f3gica do compartilhamento de conhecimentos e experi\u00eancias, o que s\u00f3 pode fortalecer a capacidade de entendimento e interven\u00e7\u00e3o no mundo, que aspiramos seja objetivo fundamental de toda institui\u00e7\u00e3o educativa. Vamos ent\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es.<\/p>\n<p><b>A greve n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico\/melhor instrumento de luta. A greve no servi\u00e7o p\u00fablico\/na educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 eficaz. Devemos recorrer a outras formas de luta? Devemos ir para as ruas. A greve esvazia a universidade\u2026<\/b><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, a greve n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico instrumento de luta de trabalhadores. Ela \u00e9 sempre utilizada quando outras tentativas de defesa dos seus interesses fracassam em conquistar resultados em torno de demandas coletivas. No entanto, a greve \u00e9 um direito fundamental dos trabalhadores, que ser\u00e3o sempre a parte mais fraca numa rela\u00e7\u00e3o com seus patr\u00f5es, no setor privado ou no p\u00fablico, e tem nesse instrumento uma forma de tentar equilibrar, mesmo que momentaneamente, o jogo desigual que caracteriza a explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado.<\/p>\n<p>No servi\u00e7o p\u00fablico, e especialmente na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, a greve n\u00e3o tem o mesmo objetivo de causar preju\u00edzo econ\u00f4mico, e com isso pressionar os patr\u00f5es, que possui no setor privado. Ela existe como estrat\u00e9gia de amplia\u00e7\u00e3o do poder de press\u00e3o, atrav\u00e9s da mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva, para que demandas fundamentais, salariais, de condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de defesa da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, ganhem maior audi\u00eancia e criem constrangimentos que obriguem os governos a negociarem.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, n\u00e3o h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o entre greves e outras formas de luta. Pelo contr\u00e1rio, aqueles que defendem de forma consequente a necessidade de ocupar as ruas sabem que s\u00f3 com grande quantidade de pessoas \u00e9 poss\u00edvel obter \u00eaxito em uma manifesta\u00e7\u00e3o desse tipo. Mas, como colocar milhares de educadores e estudantes nas ruas se eles est\u00e3o nas salas de aula? Para muitos o fundamental \u00e9 garantir maior repercuss\u00e3o nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa. Sabemos que a m\u00eddia \u00e9 fundamentalmente composta por grandes oligop\u00f3lios empresariais, cujos interesses est\u00e3o distantes de convergir para a defesa da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e dos trabalhadores. Por mais insist\u00eancia que tenhamos em buscar esses canais em tempos de funcionamento normal das institui\u00e7\u00f5es o resultado \u00e9 quase nulo. Com as greves, a coisa muda de figura. Em nossa \u00faltima paralisa\u00e7\u00e3o de 24h, por exemplo, todas as grandes redes de televis\u00e3o fizeram mat\u00e9rias sobre a situa\u00e7\u00e3o das universidades e a paralisa\u00e7\u00e3o, da mesma forma que os principais jornais impressos e sites de not\u00edcias. Em greves anteriores, a cobertura da m\u00eddia \u2013 mesmo que muitas vezes deturpando nossas reivindica\u00e7\u00f5es \u2013 foi sempre muito mais ampla que em momentos de atividades normais.<\/p>\n<p>Uma greve pode sim esvaziar a universidade. Mas, n\u00e3o precisa ser assim. E muitas vezes n\u00e3o \u00e9 assim. Os tr\u00eas segmentos da comunidade universit\u00e1ria (docentes, servidores t\u00e9cnico-administrativos e estudantes) programam muitas atividades de mobiliza\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os universit\u00e1rios \u2013 debates, rodas de conversa, exibi\u00e7\u00e3o de filmes, atos, acampamentos, etc. \u2013 e aproveitam o momento da greve para discutir das quest\u00f5es mais espec\u00edficas das universidades \u00e0s mais gerais do pa\u00eds e do mundo, com um olhar pedagogicamente cr\u00edtico, que deveria nortear todo o nosso cotidiano nas institui\u00e7\u00f5es, mas que sabemos nem sempre \u00e9 a t\u00f4nica no dia a dia da atividade universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 efic\u00e1cia do instrumento, para quem conhece a hist\u00f3ria das greves universit\u00e1rias e de seus resultados desde o fim dos anos 1970, o argumento de que para nada servem \u00e9 insustent\u00e1vel. Todas as conquistas salariais e referentes \u00e0 carreira docente foram decorrentes de greves nas institui\u00e7\u00f5es de ensino. Al\u00e9m disso, tais greves conquistaram muitas vezes avan\u00e7os significativos para a vida universit\u00e1ria em geral e, em outros momentos, foram barreiras interpostas \u00e0s propostas governamentais danosas \u00e0 universidade p\u00fablica, que n\u00e3o foram aplicadas ou o foram limitadamente gra\u00e7as \u00e0 for\u00e7a das greves. Um quadro muito sint\u00e9tico das greves nas institui\u00e7\u00f5es federais de ensino pode ser encontrado nesse\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sedufsm.org.br\/index.php?secao=greve\" target=\"_blank\">link.<\/a><\/p>\n<p>No entanto, vale lembrar, que muitos dos que argumentam que as institui\u00e7\u00f5es se esvaziam nas greves e que era preciso ir para as ruas, em certos casos s\u00e3o docentes h\u00e1 mais tempo que eu e nunca os vi em atividades de mobiliza\u00e7\u00e3o no interior das universidades, antes ou durante as greves, e nunca os encontrei em nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o de rua em defesa da educa\u00e7\u00e3o\/das universidades p\u00fablicas. Outros, n\u00e3o s\u00f3 participaram como at\u00e9 organizaram atividades desse tipo h\u00e1 muitos anos, quando eram estudantes e docentes mais jovens, mas hoje as condenam: eles n\u00e3o mudaram de opini\u00e3o, mudaram de lado.<\/p>\n<p><b>As greves na universidade s\u00f3 param a gradua\u00e7\u00e3o e prejudicam os estudantes de gradua\u00e7\u00e3o\u2026<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 verdade que as greves s\u00f3 param as aulas de gradua\u00e7\u00e3o. Atividades de pesquisa e extens\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o paralisadas pelos que participam das greves. Quando ingressei na universidade essa quest\u00e3o sequer era levantada, porque n\u00e3o se fazia diferen\u00e7a, quando uma greve come\u00e7ava, entre aulas na gradua\u00e7\u00e3o e na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas e meia, cresceu muito a press\u00e3o sobre as p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es para apresentarem indicadores quantitativos de produtividade que s\u00e3o a base central de avalia\u00e7\u00f5es feitas pela CAPES e que podem representar mais ou menos recursos financeiros, bolsas de estudo e prest\u00edgio acad\u00eamico. De l\u00e1 para c\u00e1, cresceu tamb\u00e9m o n\u00famero de argumentos contr\u00e1rios \u00e0 suspens\u00e3o das atividades de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o dessa press\u00e3o da CAPES.<\/p>\n<p>No entanto, muitos docentes e programas inteiros continuam a paralisar suas aulas na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, buscando contornar sempre que poss\u00edvel a press\u00e3o das ag\u00eancias de fomento\/avalia\u00e7\u00e3o, pois percebem que tal press\u00e3o n\u00e3o tem como contrapartida a garantia dos recursos e condi\u00e7\u00f5es de trabalho adequados ao funcionamento dos programas com qualidade. Os comandos locais de greve tamb\u00e9m s\u00e3o cientes de que algumas bancas e atividades s\u00e3o agendadas com muita anteced\u00eancia, significam despesas com passagens e di\u00e1rias j\u00e1 realizadas e autorizam excepcionalmente tais atividades. Os que continuam trabalhando regularmente na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o durante as greves, portanto, o fazem por decis\u00e3o pr\u00f3pria de furar uma greve, utilizando os argumentos da especificidade das p\u00f3s como biombos para suas atitudes, e depois, ironicamente, acusam as greves de s\u00f3 paralisar a gradua\u00e7\u00e3o. Muitas vezes, os que dizem isso, s\u00e3o os mesmos professores que no dia a dia dos cursos, menosprezam as aulas na gradua\u00e7\u00e3o e justificam que sua \u201cexcel\u00eancia\u201d os deveria liberar de tal \u201cfardo\u201d para dedica\u00e7\u00e3o integral \u00e0 pesquisa e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, cabe sempre a pergunta: o que realmente prejudica o estudante \u2013 de gradua\u00e7\u00e3o ou p\u00f3s \u2013 uma greve que pode se estender por algumas semanas, defendendo a universidade p\u00fablica, ou a falta de condi\u00e7\u00f5es adequadas de estudo e perman\u00eancia na Universidade?<\/p>\n<p>Numa greve como a que se iniciar\u00e1 em 28 de maio de 2015, cujo motivo maior, al\u00e9m da defasagem salarial dos docentes (motivo justo e digno, diga-se de passagem, pois todo trabalhador assalariado tem direito \u00e0 prote\u00e7\u00e3o m\u00ednima de seus vencimentos face \u00e0 infla\u00e7\u00e3o) \u00e9 o conjunto de medidas destrutivas \u00e0 universidade p\u00fablica, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas da justeza do movimento para grande parte dos estudantes. Afinal, faltam professores em muitos cursos, h\u00e1 outros em que obras estruturais necess\u00e1rias \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de salas de aulas, bibliotecas e laborat\u00f3rios n\u00e3o foram executadas ou pararam pelo meio, h\u00e1 falta de bandej\u00f5es e alojamentos estudantis, as bolsas s\u00e3o insuficientes e est\u00e3o atrasando, entre muitas outras situa\u00e7\u00f5es. Todas motivadas por uma expans\u00e3o de vagas discentes que n\u00e3o foi acompanhada do necess\u00e1rio crescimento do n\u00famero de docentes e do aporte de recursos para infra-estrutura, manuten\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia estudantil. O que tem sido muito agravado nos \u00faltimos meses pelas pol\u00edticas de \u201cajuste fiscal\u201d do governo federal, que repassar\u00e1 R$15 bilh\u00f5es de reais ao setor privado atrav\u00e9s do FIES (financiamento estudantil), mas corta R$ 9,43 bilh\u00f5es do or\u00e7amento do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso os estudantes da UFF e de outras universidades fizeram suas assembleias e deliberaram pela greve. Porque sabem que essa luta tamb\u00e9m \u00e9 sua.<\/p>\n<p>Curioso que os que argumentam que a greve prejudica os estudantes, desconsideram completamente a posi\u00e7\u00e3o coletiva dos pr\u00f3prios estudantes. O que \u00e9 bem ilustrativo de como enxergam sua atividade docente e seus estudantes: s\u00e3o os portadores do conhecimento e da verdade, que buscam iluminar os pobres e ignorantes estudantes, que sequer percebem que est\u00e3o sendo prejudicados com a greve.<\/p>\n<p><b>H\u00e1 motivos para a mobiliza\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 mesmo a greve, mas esse n\u00e3o \u00e9 o melhor momento\u2026<\/b><\/p>\n<p>Calend\u00e1rios diferenciados, momentos distintos dos semestres letivos, incertezas sobre os processos de negocia\u00e7\u00e3o, s\u00e3o argumentos utilizados para questionar a oportunidade da greve, mesmo que utilizados por vozes que n\u00e3o questionam a legitimidade do instrumento de luta. Nesse caso, cabe lembrar que desde o final do ano de 2014 o governo est\u00e1 implementando as pol\u00edticas de cortes de verbas e as propostas de retirada de direitos dos trabalhadores (vide as Medidas Provis\u00f3rias que dificultam o acesso ao seguro desemprego e abono salarial, assim como restringem pens\u00f5es, bem como o projeto de lei que libera as terceiriza\u00e7\u00f5es, entre outras medidas). Nos \u00faltimos dias, com o an\u00fancio de novos cortes e o avan\u00e7o das medidas no congresso nacional, a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 tem piorado.<\/p>\n<p>No que diz respeito aos servidores p\u00fablicos federais e aos docentes das institui\u00e7\u00f5es federais de ensino, paralisa\u00e7\u00f5es e movimentos, em Bras\u00edlia e nos estados, pressionaram o governo a receber as entidades em reuni\u00f5es, mas nenhuma resposta concreta \u00e0s pautas foi apresentada. Sabemos que tanto as demandas por carreira\/sal\u00e1rio, quanto aquelas referentes a mais verbas para as institui\u00e7\u00f5es (de forma a garantir as condi\u00e7\u00f5es de trabalho\/estudo) dependem de rubricas or\u00e7ament\u00e1rias. A Lei de Diretrizes Or\u00e7ament\u00e1rias do ano de 2016 tem que ser apreciada pelo congresso at\u00e9 agosto. Caso n\u00e3o tenhamos nossas reivindica\u00e7\u00f5es atendidas at\u00e9 l\u00e1, teremos que nos resignar a reajuste zero no pr\u00f3ximo ano e ao aprofundamento do caos na vida universit\u00e1ria. Por isso o momento da greve \u00e9 este. Ela acontece quando as condi\u00e7\u00f5es para sua constru\u00e7\u00e3o caminham mais rapidamente e a necessidade de uma interven\u00e7\u00e3o coletiva que garanta a negocia\u00e7\u00e3o com o governo j\u00e1 se faz mais que urgente.<\/p>\n<p><b>O ANDES-Sindicato Nacional e as suas Se\u00e7\u00f5es Sindicais n\u00e3o s\u00e3o representativos. As Assembleias Gerais que decidem as greves n\u00e3o s\u00e3o representativas\/leg\u00edtimas. Seu funcionamento e suas decis\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o democr\u00e1ticas\u2026<\/b><\/p>\n<p>O ANDES-SN \u00e9 o resultado de mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de organiza\u00e7\u00e3o e lutas docentes. Como toda entidade sindical possui limites e problemas. Mas, est\u00e1 organizado pela base, atrav\u00e9s de suas se\u00e7\u00f5es sindicais em praticamente todas as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de ensino superior. Sua dire\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 eleita diretamente pelos associados, atrav\u00e9s das se\u00e7\u00f5es sindicais, e possui secretarias regionais espalhadas por todo o territ\u00f3rio nacional, de forma a dar conta da diversidade de situa\u00e7\u00f5es no pa\u00eds. As taxas de sindicaliza\u00e7\u00e3o nas se\u00e7\u00f5es sindicais s\u00e3o elevadas, muito superiores \u00e0 m\u00e9dia do pa\u00eds. Na ADUFF-SSind, por exemplo, t\u00ednhamos 2.561 docentes associados em 2014, sendo 1381 ativos (cerca de 46% do total de docentes da institui\u00e7\u00e3o) e os demais aposentados.<\/p>\n<p>No sindicato exercita-se a democracia em suas diferentes possibilidades. A diretoria nacional e as diretorias das se\u00e7\u00f5es sindicais s\u00e3o escolhidas diretamente pelo voto dos associados. As inst\u00e2ncias nacionais de delibera\u00e7\u00e3o da categoria (as diretorias s\u00e3o apenas executivas) \u2013 Conselhos de Se\u00e7\u00f5es Sindicais e Congresso, ordinariamente anuais \u2013 s\u00e3o constitu\u00eddas por delegados eleitos em suas bases, atrav\u00e9s das assembleias gerais. E nas Assembleias Gerais, prevalece a democracia direta, com base nas discuss\u00f5es e vota\u00e7\u00f5es dos participantes.<\/p>\n<p>Na UFF, as assembleias gerais s\u00e3o abertas a todo o corpo docente, independentemente de filia\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o ao sindicato, porque entendemos que a luta coletiva se faz por e em nome de todos, portanto todos tem direito a voz e voto nesses espa\u00e7os. O ac\u00famulo de experi\u00eancias hist\u00f3ricas nos leva a conceber que esse \u00e9 o espa\u00e7o deliberativo mais democr\u00e1tico para decis\u00f5es como a constru\u00e7\u00e3o de uma greve. Porque ali os participantes trocam informa\u00e7\u00f5es, an\u00e1lises e avalia\u00e7\u00f5es e \u2013 convergindo ou divergindo \u2013 votam esclarecidos por esse debate e constroem coletivamente suas delibera\u00e7\u00f5es. Esse sentido coletivo da democracia direta em uma entidade de trabalhadores \u00e9 fundamental e n\u00e3o pode ser substitu\u00eddo por consultas plebiscitarias, em que indiv\u00edduos votam isoladamente, a partir de convic\u00e7\u00f5es constru\u00eddas por diversos caminhos, mas sem participarem ativamente de uma discuss\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Da mesma forma, incentivamos e participamos de todo tipo de reuni\u00e3o de docentes em \u00e2mbito departamental, de cursos ou unidades. Todo f\u00f3rum convocado para discutir os problemas docentes e da universidade \u00e9 importante para o avan\u00e7o do conhecimento coletivo da situa\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos docentes. No entanto, esses f\u00f3runs n\u00e3o s\u00e3o espa\u00e7os deliberativos da vida sindical, porque n\u00e3o se organizam para tanto e, especialmente, porque no caso das inst\u00e2ncias institucionais \u2013 departamentos, colegiados, etc. \u2013 est\u00e3o sujeitos a l\u00f3gicas de funcionamento e hierarquia funcional de ordem distinta da l\u00f3gica sindical, que deve ser aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o a todos os n\u00edveis da gest\u00e3o institucional, garantindo que as delibera\u00e7\u00f5es docentes possam estar livres de qualquer press\u00e3o de chefias imediatas ou gest\u00f5es superiores das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b>As dire\u00e7\u00f5es dos sindicatos s\u00e3o \u201cvanguardas iluminadas\u201d, \u201cradicais\u201d, \u201cpseudo-revolucion\u00e1rios\u201d que decretam greves de cima para baixo\u2026<\/b><\/p>\n<p>Seriam argumentos c\u00f4micos, n\u00e3o fosse tr\u00e1gico escuta-los de professores universit\u00e1rios. Tr\u00e1gico porque cada vez que um docente toma emprestado esse tipo de argumento da pena dos articulistas da extrema-direita reacion\u00e1ria dos panfletos mais abjetos da imprensa empresarial (como os colunistas da revista Veja), assume conscientemente o papel de arauto dessa ideologia reacion\u00e1ria, que procura associar todo tipo de movimento social\/sindical e suas lideran\u00e7as a uma nova \u201camea\u00e7a comunista\u201d, no estilo t\u00edpico da Guerra Fria. Em tempos de manifesta\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias como as ocorridas em mar\u00e7o e abril, de debates no Congresso Nacional sobre um projeto de lei que visa estabelecer \u201ccrime de doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d para punir professores que estimulem o pensamento cr\u00edtico e o debate de ideias entre seus alunos, tais argumentos s\u00e3o lament\u00e1veis ecos internos de um reacionarismo crescentemente, incentivado pelas for\u00e7as pol\u00edticas \u00a0e sociais mais conservadoras no pa\u00eds e seus diligentes prepostos na \u201cgrande\u201d imprensa.<\/p>\n<p>Os dirigentes sindicais do movimento docente exercem seus cargos sem qualquer vantagem pessoal, na maioria das vezes sem dispensa da atividade acad\u00eamica regular e por per\u00edodos de tempo limitados (em nosso estatuto nacional e no regimento local, ningu\u00e9m pode permanecer por mais de dois mandatos seguidos nas diretorias). Expressam diferentes posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas, e participam dessas atividades movidos principalmente pela convic\u00e7\u00e3o de que o instrumento sindicato \u00e9 fundamental para qualquer trabalhador, a\u00ed inclu\u00eddo o docente.<\/p>\n<p>De qualquer forma, podem acertar ou errar, podem manifestar posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas as mais distintas, mas nunca o fazem sozinhos, porque procuram agir como representantes de coletivos maiores e discutem suas posi\u00e7\u00f5es pessoais e\/ou coletivas em espa\u00e7os democr\u00e1ticos de delibera\u00e7\u00e3o. Assim, na UFF, por exemplo, a \u00faltima assembleia geral dos docentes, que aprovou a deflagra\u00e7\u00e3o da greve, contou com a participa\u00e7\u00e3o de 281 professores, que assinaram a lista de presen\u00e7a. No momento da vota\u00e7\u00e3o, 155 votaram favoravelmente \u00e0 proposta, 46 contr\u00e1rios e uma absten\u00e7\u00e3o. Outras assembleias, com mais de uma centena de presentes, aconteceram nas semanas anteriores, levantando os problemas e discutindo os encaminhamentos que antecederam a delibera\u00e7\u00e3o sobre a greve. Muitas acontecer\u00e3o durante a greve. Como eu disse, todas s\u00e3o abertas \u00e0 participa\u00e7\u00e3o, voz e voto de todo e qualquer docente. Quando algu\u00e9m se recusa a participar de um espa\u00e7o t\u00e3o aberto quanto esse e depois questiona a legitimidade do espa\u00e7o ou procura detratar as organiza\u00e7\u00f5es, militantes e dirigentes, devemos desconfiar um pouco mais da cr\u00edtica.<\/p>\n<p><b>Em s\u00edntese<\/b><\/p>\n<p>Nenhuma forma de luta \u00e9 perfeita e nenhum processo democr\u00e1tico pode ser considerado acabado numa sociedade regida por uma l\u00f3gica que \u00e9 estranha e contr\u00e1ria aos interesses da maioria trabalhadora da popula\u00e7\u00e3o. Por isso, todo o esfor\u00e7o coletivo para debater e aperfei\u00e7oar nossas formas de organiza\u00e7\u00e3o e nossos m\u00e9todos de luta deve ser saudado como sinal de vitalidade do movimento.<\/p>\n<p>No entanto, muitas das cr\u00edticas \u00e0 greve e ao sindicato t\u00eam raiz em outro tipo de preocupa\u00e7\u00e3o e concep\u00e7\u00e3o. H\u00e1 ainda quem na universidade resista a compreender-se como trabalhador e por isso rejeite toda e qualquer forma de organiza\u00e7\u00e3o e luta coletiva associada aos trabalhadores. S\u00e3o aqueles que consideram que seu trabalho intelectual os eleva acima dos terreno comum dos mortais e, consciente ou inconscientemente, acabam por aderir aos argumentos e instrumentos dos que buscam deslegitimar ou mesmo desmontar as organiza\u00e7\u00f5es e lutas dos trabalhadores. H\u00e1 tamb\u00e9m os que, por ades\u00e3o a um determinado projeto pol\u00edtico levantam argumentos falaciosos contra os movimentos dos docentes, porque colocam a defesa de seu projeto\/governo acima da defesa da universidade p\u00fablica. N\u00e3o podemos deixar de reconhecer que esse projeto tem tentado, ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, fragmentar e enfraquecer as organiza\u00e7\u00f5es representativas do movimento docente. Basta lembrar o apoio governamental \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da entidade Proifes, que antes mesmo de ser formalizada j\u00e1 era chamada a sentar-se \u00e0s mesas dos gabinetes ministeriais. As greves s\u00e3o uma amea\u00e7a a entidades fantoche desse tipo, porque como elas n\u00e3o possuem representatividade de base real, em momentos como esse sua fachada de legitimidade desmorona. Basta lembrar de 2012, quando os docentes foram \u00e0 greve em praticamente todas as institui\u00e7\u00f5es (houve uma exce\u00e7\u00e3o) em que o movimento docente supostamente seria dirigido por essa entidade, que se contrapunha ao movimento, e reconheceram o ANDES-SN como seu efetivo representante naquele momento.<\/p>\n<p>Cada greve \u00e9 um processo \u00fanico de aprendizado. Podemos conseguir mais ou menos conquistas com elas, mas em um momento como este que hoje vivemos na universidade \u00e9 fundamental construirmos uma resposta coletiva \u00e0s pol\u00edticas destrutivas que est\u00e3o em curso. A greve se apresenta como oportuna e necess\u00e1ria, justamente porque a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito adversa. Os resultados da mobiliza\u00e7\u00e3o depender\u00e3o, em grande medida, de nossa for\u00e7a coletiva. De qualquer forma, teremos com certeza muito a aprender com ela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado em\u00a027 de maio de 2015\u00a0por\u00a0Autoras\/es convidadas\/os Marcelo Badar\u00f3 Mattos Professor do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal Fluminense Para um professor que como eu, j\u00e1 est\u00e1 trabalhando em institui\u00e7\u00f5es federais de ensino h\u00e1 quase trinta anos, as greves por certo n\u00e3o s\u00e3o novidades. 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