{"id":10662,"date":"2015-03-27T09:20:56","date_gmt":"2015-03-27T13:20:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=10662"},"modified":"2015-03-27T09:20:56","modified_gmt":"2015-03-27T13:20:56","slug":"as-tres-almas-das-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/as-tres-almas-das-ruas\/","title":{"rendered":"As tr\u00eas almas das ruas"},"content":{"rendered":"<p><em>Jaldes Meneses<\/em><\/p>\n<p><em>email: jaldesm@uol.com.br<\/em><\/p>\n<p>Previno o leitor que o meu artigo desta semana estar\u00e1 repleto de datas de dias, meses e anos, inevit\u00e1vel quando o objetivo do texto trata-se de elucidar, ao mesmo tempo em que cria marcos de periodiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Nunca fui um desses tecnocratas m\u00e1gicos, com o dom de iludir atrav\u00e9s n\u00fameros e gr\u00e1ficos tirados da cartola, por isso espere o leitor uma leitura que ambiciona em contraponto \u00e0 assepsia de uma pseudo neutralidade axiol\u00f3gica, a leveza de um curto passeio hist\u00f3rico e pol\u00edtico de ambi\u00e7\u00e3o totalizante.<\/p>\n<p>Quem nos conduzir\u00e1 neste passeio ser\u00e1 uma orgulhosa Coruja. Explico-me arguindo Hegel, al\u00e9m do fil\u00f3sofo da dial\u00e9tica idealista, ou exatamente por isso, um imagista genial. Segundo o famoso fil\u00f3sofo moderno, o trabalho da raz\u00e3o na hist\u00f3ria se aparenta ao mito grego da Coruja de Minerva, uma ave de prontid\u00e3o noturna. Semelhante \u00e0 Coruja, a raz\u00e3o tamb\u00e9m trabalha \u00e0 noite varando a madrugada, examinando o trabalho diurno dos homens no turno em que eles est\u00e3o dormindo.<\/p>\n<p>Da mesma maneira, as explica\u00e7\u00f5es causais mais densas do processo pol\u00edtico brasileiro inaugurado em junho de 2013, quando intensivas mobiliza\u00e7\u00f5es empolgaram as ruas de 483 cidades brasileiras (dados da soci\u00f3loga Maria da Gl\u00f3ria Gohn) &#8211; principalmente S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro &#8211; s\u00f3 come\u00e7am a se revelar mais claras e intelig\u00edveis \u00e0 posteriori. Ou seja, depois de cortejadas com as duas recentes mobiliza\u00e7\u00f5es, em apoio ao governo Dilma, realizado na sexta-feira, 13 de mar\u00e7o (convocadas pela CUT e o MST), e o domingo 15, convocado por movimentos em rede dirigidos por liberais conservadores (o Vem Pr\u00e1 Rua\/VPR, do empres\u00e1rio Rogerio Cherquer \u00e9 o exemplo mais not\u00f3rio), em frente \u00fanica com partidos de oposi\u00e7\u00e3o como o PSDB, DEM, PPS e outros movimentos em rede da direita mais tradicional e xen\u00f3foba.<\/p>\n<p>Um dos poucos consensos anal\u00edticos existentes sobre os acontecimentos de junho de 2013 \u00e9 que eles quebraram o monop\u00f3lio das ruas conquistado, desde o fim da ditadura, pelos movimentos sociais politicamente ligados ao bloco pol\u00edtico no poder, dirigidos pelo PT e aliados. Como se sabe, as manifesta\u00e7\u00f5es de junho foram originalmente convocadas em rede pelo Movimento Passe-Livre (MPL), ao qual logo aderiram movimentos autonomistas, neoanarquistas e os pequenos partidos de esquerda de oposi\u00e7\u00e3o ao lulismo (PSOL, PSTU e PCB). Tais movimentos iniciais de junho (os quais estou denominando de primeira \u201calma&#8221;) lembravam a din\u00e2mica internacional. Parecia a contrapartida brasileira de a\u00e7\u00f5es que ocorreram pouco antes nos Estados Unidos (Occupy Wall Street) ou na Europa (Indignados, Espanha), cr\u00edticos ao capitalismo financeiro neoliberal, mergulhado em greve crise a partir de 2008.<\/p>\n<p>A \u201cprimeira \u2018alma'&#8221; n\u00e3o reinou sozinha. Logo, o espa\u00e7o p\u00fablico das mobiliza\u00e7\u00f5es foi incorporado por mais duas \u201calmas\u201d. A segunda, uma \u201cnova direita\u201d adormecida havia d\u00e9cadas &#8211; rigorosamente, desde as Marchas da Fam\u00edlia com Deus de mar\u00e7o de 1964 -, que de repente saiu do arm\u00e1rio direto para o asfalto. O dia preciso do encontro das \u201cduas almas\u201d foi 20 de junho de 2013, quando nova esquerda (primeira alma) e direita (segunda alma) se cruzaram face a face e se confrontaram, inclusive fisicamente. Correu cacete e sangue, especialmente porque a \u201cnova direita\u201d se dizia anti-partido e exigia que os militantes abdicassem de suas bandeiras vermelhas.<\/p>\n<p>O samba de Vadico Noel Rosa chamava-se \u201ccoisas nossas\u201d, chamando a aten\u00e7\u00e3o para as originalidades nacionais. Deixem-se comparar S\u00e3o Paulo e Nova Iorque. Em 2010, na grande metr\u00f3pole americana, os yuppies de Wall Street n\u00e3o desceram dos pr\u00e9dios das corretoras e consultorias, cruzaram os poucos metros da Av. Broadway e foram engrossar protestos e dividir espa\u00e7os no acampamento do Zuccotti Park. Ao contr\u00e1rio, certamente preferiram ficar olhando, entre enfastiados e zombeteiros, o povo alternativo que se apinhava nos acampamentos. Cruzar direita e esquerda no mesmo espa\u00e7o foi uma particularidade brasileira, uma dessas \u201ccoisas nossas\u201d trovadas por Noel. Neste aspecto pontual, se semelhan\u00e7a houver, nos parecemos mais com o conflito de ruas da Primavera \u00c1rabe eg\u00edpcia (liberais de esquerda x Irmandade Mu\u00e7ulmana no in\u00edcio compartilham o mesmo espa\u00e7o e depois racham, por absoluta incompatibilidade; no mais, por \u00f3bvio, Brasil e Egito s\u00e3o processos de cartografias bastante distintas).<\/p>\n<p>O PT, o movimento sindical cutista e os movimentos sociais ligados ao lulismo, que participaram esporadicamente dos acontecimentos iniciais de junho, principalmente em S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, tamb\u00e9m estavam maci\u00e7amente na avenida no hist\u00f3rico 20 de junho de 2013 &#8211; admito ter havido em outras cidades, especialmente Jo\u00e3o Pessoa, din\u00e2micas diferenciadas, contudo n\u00e3o cabe comentar essa d\u00e9marche no limite deste artigo. Estou designando este setor de a \u201cterceira alma\u201d de junho, uma alma amargurada e insegura porque entrou no jogo a reboque, dai atuando sempre na retranca.<\/p>\n<p>Havia motivos internos causais na atitude defensiva dessa \u201cterceira alma\u201d (a alma que voltou \u00e0s ruas no dia 13 deste m\u00eas). A hist\u00f3ria na maioria das vezes \u00e9 cruel. Daquele dia 20 de junho de 2013 em diante, a governabilidade e a bem-sucedida, at\u00e9 aquele momento, interpela\u00e7\u00e3o lulista, dirigida a todos [todos] os segmentos pol\u00edticos relevantes da sociedade brasileira, come\u00e7ou a ruir. Qual era a interpela\u00e7\u00e3o? Evidentemente, n\u00e3o passava pelo horizonte projetual imediato do lulismo fazer reformais sociais de car\u00e1ter estrutural, nem mesmo fazer uma administra\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e popular de esquerda. Contudo, ele, Lula, com base na jun\u00e7\u00e3o de carisma popular e lideran\u00e7a incontest\u00e1vel na ampla alian\u00e7a pol\u00edtica que lha dava sustenta\u00e7\u00e3o, logrou produzir um acordo de classe que beneficiou tanto a burguesia interna, atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es de renova\u00e7\u00e3o de nosso setor de capitalismo de Estado, agora em est\u00e1gio p\u00f3s-neoliberal, bem como produziu um processo de aflu\u00eancia social relativa ao consumo dos pobres e remediados.<\/p>\n<p>Os fios de causalidades ficam mais claros em retrospectiva, quando a Coruja de Minerva al\u00e7a o v\u00f4o e vai escrutinar na tranquilidade de movimentos da noite o trabalho dos homens.<\/p>\n<p>Foram a segunda e terceira almas de junho que ocuparam ruas brasileiras nos dias 13 e 15 de mar\u00e7o. E da primeira alma, a chama de ascendeu junho, o que foi feito dela? Este novo personagem entrar\u00e1 ou n\u00e3o em cena? A coruja est\u00e1 &#8220;de camarote&#8221; esperando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Meneses email: jaldesm@uol.com.br Previno o leitor que o meu artigo desta semana estar\u00e1 repleto de datas de dias, meses e anos, inevit\u00e1vel quando o objetivo do texto trata-se de elucidar, ao mesmo tempo em que cria marcos de periodiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. 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