{"id":10634,"date":"2015-03-23T09:19:50","date_gmt":"2015-03-23T13:19:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=10634"},"modified":"2015-03-23T09:19:50","modified_gmt":"2015-03-23T13:19:50","slug":"swiss-leaks-e-petrolao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/swiss-leaks-e-petrolao\/","title":{"rendered":"Swiss Leaks &#8220;E&#8221; Petrol\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Jaldes Meneses<\/em><\/p>\n<p>Neste exato momento, no mundo e no Brasil, dois acontecimentos parelhos envolvendo sujeitos endinheirados do &#8220;andar de cima&#8221; &#8211; a express\u00e3o que os economistas da escola acad\u00eamica do &#8220;capitalismo hist\u00f3rico&#8221; ou &#8220;capital-mundo&#8221;, Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein, criaram e o jornalista \u00c9lio Gaspari popularizou entre n\u00f3s -, por assim dizer, eletrizam a opini\u00e3o p\u00fablica esclarecida.<\/p>\n<p>No primeiro, na Europa, um ex-funcion\u00e1rio franco-italiano do HSBC &#8211; uma casa banc\u00e1ria que nasceu suja, dos capitais amealhados pelos comerciantes ingleses na venda de droga aos chineses, motivo da &#8220;guerra do \u00d3pio&#8221; (1839-1842) -,de nome Herv\u00e9 Falciani, revelou uma lista de 100 mil correntistas vips (entre os quais 8.667 brasileiros) de contas secretas na ag\u00eancia Su\u00ed\u00e7a do banco. As contas cont\u00e9m, na maioria, certamente, dinheiro vindo das falcatruas da evas\u00e3o de divisas, sonega\u00e7\u00e3o fiscal e de lavagem de dinheiro do crime organizado. Esta \u00e9, em resumo, a narrativa do &#8220;Swiss Leaks&#8221;, mais uma vez confirmando a ironia de Brecht &#8211; &#8220;pior que roubar um banco, \u00e9 fundar um banco.&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 no Brasil, uma empresa estatal hist\u00f3rica do ide\u00e1rio nacionalista, a Petrobras &#8211; tornada sociedade an\u00f4nima de capital aberto em 1997 (governo FHC), \u00e9 bom que diga -, acordou de repente, direto do ber\u00e7o esplendido das gl\u00f3rias nacionais de explora\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9-Sal (o &#8220;bilhete premiado&#8221;) e do mais audacioso plano de investimentos de sua trajet\u00f3ria para o inferno da corrup\u00e7\u00e3o, das compras superfaturadas e da forma\u00e7\u00e3o de um &#8220;clube&#8221; (cartel) das maiores empreiteiras brasileiras, cujos principais empres\u00e1rios est\u00e3o presos h\u00e1 quase quatro meses em Curitiba.<\/p>\n<p>Demoro mais do que deveria em repetir hist\u00f3rias sabidas pelo simples motivo de que, entre n\u00f3s brasileiros, a recep\u00e7\u00e3o comum dos dois esc\u00e2ndalos, em vez de reconstruir as pontes anal\u00edticas entre ambos (que s\u00e3o evidentes), optou, numa atitude esquizofr\u00eanica, por contrapor &#8220;esc\u00e2ndalo A&#8221; a &#8220;esc\u00e2ndalo B&#8221;, como se os delitos cometidos, por exemplo, pelo Grupo Queiroz Galv\u00e3o (Petrol\u00e3o) fossem realmente qualitativamente distintos dos cometidos pelo Banco Safra (Swiss Leaks). N\u00e3o s\u00e3o. Swiss Leaks e Petrol\u00e3o s\u00e3o as duas bandas apodrecidas de uma mesma moeda.<\/p>\n<p>Dessa maneira, se cabe o argumento que os grupos da grande imprensa brasileira investem com estardalha\u00e7o na divulga\u00e7\u00e3o do Petrol\u00e3o, em virtude das impress\u00f5es digitais de pessoas ligadas ao PT e \u00e0 base aliada dos governos Lula e Dilma, deixando numa zona de sombras o Swiss Leaks, certamente por envolver at\u00e9 no rol dos bandidos de colarinho branco mesmo nomes dos grupos de m\u00eddia, por outro lado, o verdadeiro debate n\u00e3o pode ser resumir a essa guerra de torcidas organizadas em torno de quem det\u00e9m a maior botija ou quem denunciou primeiro. Menos que eventuais diferen\u00e7as de t\u00e1tica pol\u00edtica, mais est\u00e3o em causa as afinidades eletivas do capitalismo, internacional e nacional.<\/p>\n<p>Deixem-me interpor no artigo uma hist\u00f3ria exemplar.<\/p>\n<p>Esteve visitando recentemente o Brasil o economista franc\u00eas Thomas Piketty, autor do surpreendente bestsellers &#8220;O capital no s\u00e9culo XXI.&#8221; Por que um livro especializado de economia, escrito de maneira elegante, contudo conservando o rigor da pesquisa, tornou-se um fen\u00f4meno editorial e popular? Longe de ser um profeta de mensagem revolucion\u00e1ria, ao estilo de Marx (o autor de o outro &#8220;Capital&#8221;), Piketty, em linguagem da melhor ci\u00eancia cr\u00edtica, retornou, em sofisticada base estat\u00edstica e hist\u00f3rica, para o estudo de caso da economia mundial, um tema que j\u00e1 havia frequentado, em termos parecidos, os registros de Celso Furtado e Francisco de Oliveira, para o caso da economia brasileira sob o regime militar. Qual seja, a tend\u00eancia hist\u00f3rica de concentra\u00e7\u00e3o de renda e riquezas, nos altos escal\u00f5es cosmopolitas do capitalismo contempor\u00e2neo, possidentes das chaves do capital (inclusive da corrup\u00e7\u00e3o do capital), dos meios de produ\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o, remunerados pela renda do capital (dividendos de a\u00e7\u00f5es, b\u00f4nus de &#8220;produtividade&#8221;, sal\u00e1rios sem medida de valor, etc.), que invariavelmente suplantam historicamente a renda do trabalho.<\/p>\n<p>Vale observar, Piketty provou a sua tese em conscienciosa pesquisa. N\u00e3o lhe acoberta a hip\u00f3tese nenhum humanismo, pura e simplesmente, mas n\u00fameros. A tese foi provada atrav\u00e9s do cotejo das declara\u00e7\u00f5es de renda nos principais pa\u00edses capitalistas, e nem os neoliberais brasileiros, em que pese os torneios ret\u00f3ricos, a exemplo de Andr\u00e9 Lara Resende no impag\u00e1vel programa Roda Viva de 09\/02\/2015, ousaram discordar. Resmungam pelos cantos da boca, apenas.<\/p>\n<p>A &#8220;prova de Piketty&#8221;, por assim dizer, de alguma maneira, se tornou, involuntariamente, express\u00e3o sistem\u00e1tica da proposta espont\u00e2nea dos movimentos de rua alternativos ao estilo do Occupy Wall Street, que denunciaram, em 2008\/09, no auge da crise do subprime nos Estados Unidos, o colossal poder de 1% dos detentores em detrimento de 99% do cidad\u00e3os do mundo. Como se sabe, menos que o socialismo, Piketty, at\u00e9 ao contr\u00e1rio das vertentes radicais dos novos movimentos, sugere uma alternativa &#8220;dentro do sistema.&#8221;<\/p>\n<p>Qual a proposta? Taxar as grandes fortunas e as heran\u00e7as, visando corrigir a desigualdade entre os rendimentos de capital e trabalho, fazendo ressurgir uma proposta de engenharia social de capitalismo democr\u00e1tico, tantas vezes tentada por reformadores sociais do passado &#8211; a exemplo dos ingleses da sociedade fabiana (1884) e do conceito de cidadania social proposto por outro Thomas, neste caso Humphrey Marshall -, e tornados caducos nos anos 1970 em diante pela voga neoliberal a exemplo dos ingleses da sociedade fabiana (1884). Deixem-me recordar este breve momento humanista da burguesia liberal e ilustrada, em tudo contr\u00e1rio aos gatunos pragm\u00e1ticos do Swiss Leaks e do Petrol\u00e3o. Vale a pena. Em 1948, em celebre palestra em Cambridge, T. H. Marshall sugeriu construir, atrav\u00e9s da amplia\u00e7\u00e3o do status de cidadania (que nivela a todos, ricos ou pobres, ao menos no plano civil), em doses homeop\u00e1ticas, ir introduzindo igualdade na desigualdade estrutural do capitalismo. Um quadro esclarecido da elite prop\u00f4s e o Estado ingl\u00eas encampou. Generosos tempos e propostas, postas em pr\u00e1tica, tamb\u00e9m por motivos geopol\u00edticos (a guerra fria e o campo advers\u00e1rio socialista da URSS), nas experi\u00eancias de welfare state do p\u00f3s-guerra europeu.<\/p>\n<p>Aqui e acol\u00e1, aparecem iniciativas parlamentares interessantes, a exemplo do senador Lindberg Farias (PT-RJ), propondo a regulamenta\u00e7\u00e3o do imposto sobre a grandes fortunas. Em tese, um imposto sobre as grandes fortunas no Brasil \u00e9 quest\u00e3o das mais prementes. Aqui, 1% dos mais ricos apropriam-se &#8211; inclusive atrav\u00e9s da ilegal &#8220;renda corrup\u00e7\u00e3o&#8221; &#8211; de 25% das rendas nacionais, bem mais que os Estados Unidos, maior pa\u00eds capitalista do mundo, onde o 1% se apropria de 20% da renda. Temo, no entanto, que enquanto predominar no debate pol\u00edtico brasileiro a cortina de fuma\u00e7a da contraposi\u00e7\u00e3o de defesa do &#8220;esc\u00e2ndalo A&#8221; contra o &#8220;esc\u00e2ndalo B&#8221; do advers\u00e1rio, n\u00e3o se ir\u00e1 muito longe no debate proposto por Piketty e os movimentos tipo Occupy Wall Street.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso desanuviar as torcidas organizadas, compor um novo time e uma nova torcida. Para tanto, ainda \u00e9 preciso fazer um balan\u00e7o das transforma\u00e7\u00f5es da Era do Lulismo. Sem d\u00favida, houve em anos recentes no Brasil, e foi detectado pelas estat\u00edsticas de medi\u00e7\u00e3o do consumo, um processo de aproxima\u00e7\u00e3o dos rendimentos dos mais pobres em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais classes que vivem do trabalho. Contudo, n\u00e3o se inverteu, rigorosamente jamais se afrontou, nos anos processamento da aflu\u00eancia social do lulismo, a rela\u00e7\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o das altas fortunas em detrimento dos rendimentos do trabalho. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a Receita Federal \u00e9 arredia em abrir os dados do imposto de renda aos pesquisadores brasileiros, dificuldade sentida por Piketty no Brasil, que por isso resolveu excluir nosso pa\u00eds de seu estudo. Sentiram o drama?<\/p>\n<p>Parafraseando e adaptando livremente a tirada antropof\u00e1gica de Oswald de Andrade em torno do mon\u00f3logo do Principe Hamlet, combater Swiss Leaks &#8220;E&#8221; Petrol\u00e3o, em vez de optar torcer por Swiss Leaks &#8220;OU&#8221; Petrol\u00e3o, eis a quest\u00e3o do Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Meneses Neste exato momento, no mundo e no Brasil, dois acontecimentos parelhos envolvendo sujeitos endinheirados do &#8220;andar de cima&#8221; &#8211; a express\u00e3o que os economistas da escola acad\u00eamica do &#8220;capitalismo hist\u00f3rico&#8221; ou &#8220;capital-mundo&#8221;, Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein, criaram e o jornalista \u00c9lio Gaspari popularizou entre n\u00f3s -, por assim dizer, eletrizam a opini\u00e3o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,15],"tags":[],"class_list":["post-10634","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-noticias","category-16","category-15","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10634","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10634"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10634\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10635,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10634\/revisions\/10635"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10634"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10634"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10634"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}