{"id":10395,"date":"2015-02-03T13:35:15","date_gmt":"2015-02-03T17:35:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=10395"},"modified":"2015-02-03T13:35:15","modified_gmt":"2015-02-03T17:35:15","slug":"a-politica-em-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/a-politica-em-marx\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica em Marx"},"content":{"rendered":"<p><em>Jaldes Meneses<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Permitam-me os leitores abordar na coluna de hoje um assunto perene em vez de um dos temas da agitada conjuntura pol\u00edtica. Dos grandes autores cl\u00e1ssicos da pol\u00edtica empenhados na cr\u00edtica ao contrato social burgu\u00eas \u2013 cito, por exemplo, Rousseau \u2013, Marx foi de longe o mais radical. Ningu\u00e9m raspou mais fundo o tacho da cr\u00edtica. Em um movimento te\u00f3rico se encaminha desde a &#8220;Cr\u00edtica (e da Introdu\u00e7\u00e3o) da filosofia do direito de Hegel\u201d (1843), ele afirmou a necessidade de o processo das revolu\u00e7\u00f5es seguir em frente, passar do conte\u00fado &#8220;pol\u00edtico&#8221; do constitucionalismo burgu\u00eas ao &#8220;social&#8221; da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, seguir da &#8220;emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o humana&#8221;. Enfim, Marx realizou a &#8220;cr\u00edtica da pol\u00edtica&#8221; dos resultados dos processos de revolu\u00e7\u00e3o burguesa, mas resta a pergunta do que fazer com a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel superar a pol\u00edtica, desfazer-se dela, jog\u00e1-la no relic\u00e1rio da hist\u00f3ria em alguma sociedade humana (comunista) no futuro? Basta conceber a obra de Marx simplesmente como uma cr\u00edtica negativa da pol\u00edtica? Ou haver\u00e1 em algum ponto da dial\u00e9tica do poder social a possibilidade de haver de um momento positivo, agora sem Estado, \u00e9 claro, contudo persistentemente pol\u00edtico e saturado e mediado por institui\u00e7\u00f5es novas, mas que funcionariam como verdadeiras ant\u00edteses do Estado? Se quisermos estudar e especular \u00e0 s\u00e9rio a quest\u00e3o da extin\u00e7\u00e3o do Estado, a remiss\u00e3o aos textos do jovem Marx constituem um importante ponto de partida, mas insuficiente.<\/p>\n<p>Vale a pena situar, brevemente, os termos exatos da pol\u00eamica: em vez de uma media\u00e7\u00e3o institucional, o jovem Marx defendia a extin\u00e7\u00e3o do Estado e a constitui\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es ad hominem (homem a homem, sem intermedi\u00e1rios.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Marx come\u00e7ou a responder a essa quest\u00e3o do ponto de vista da filosofia pol\u00edtica, superando, ainda na juventude, a influ\u00eancia de Feuerbach e se voltando \u00e0 dial\u00e9tica de Hegel, que nada tinha de \u201ccachorro morto&#8221;. A passagem te\u00f3rica de Marx \u00e9 r\u00e1pida. Ocorre entre 1943 e 1844, e \u00e9 feita em escritos cerrados, repletos das frase altissonantes e repletas de virtuosismo liter\u00e1rio empolgante e apaixonado. Em &#8220;Sobre a quest\u00e3o judaica\u201d, por exemplo (um texto emblem\u00e1tico muito retomado por exegetas atuais, quando o assunto \u00e9 a cr\u00edtica dos direitos humanos), um t\u00edpico texto de 1843, o jovem Marx estava encharcado da influ\u00eancia de Feuerbach e distante da dial\u00e9tica hegeliana. Al\u00e9m do uso e abuso da nomenclatura feuerbachiana (ess\u00eancia humana, homem gen\u00e9rico etc.), neste texto, o fato da aliena\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo-m\u00f4nada-na-sociedade-civil-burguesa era absoluto, direto e imediato. Sem media\u00e7\u00f5es, portanto, quest\u00e3o que muitas vezes passa despercebida por muitos dos exegetas atuais. Havia, neste caso, uma importante lacuna no m\u00e9todo investigativo de Marx: faltava detectar a presen\u00e7a atuante de media\u00e7\u00f5es sociais ativas entre a sociedade civil e o Estado.<\/p>\n<p>Muita gente boa pensa que Marx nasceu dial\u00e9tico, uma evidente bobagem. A dial\u00e9tica em Marx ressurge atrav\u00e9s da supera\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia de Feuerbach, no momento em que o pensador revolucion\u00e1rio alem\u00e3o se volta novamente a Hegel e \u00e0 dial\u00e9tica &#8211; depois de t\u00ea-lo abandonado por um breve tempo (entre os textos mais famosos de aus\u00eancia de dial\u00e9tica, nos termos do di\u00e1logo com Hegel, cito \u201cCr\u00edtica da filosofia do Direito\u201d e \u201cQuest\u00e3o judaica&#8221; ). O di\u00e1logo afirmativo com Hegel, em vez do simples ataque feuerbachiano, s\u00f3 vai ocorrer precisamente no terceiro caderno dos &#8220;Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos\u201d (1844), quando a categoria decisiva da media\u00e7\u00e3o passa a compor o arsenal heur\u00edstico de Marx. Quem muito bem compreendeu a quest\u00e3o foi o fil\u00f3sofo frankfurtiano Theodor W. Adorno, para quem a media\u00e7\u00e3o sempre \u00e9 fundamental. Todas as rela\u00e7\u00f5es humanas que duram, que s\u00e3o permanentes, s\u00e3o mediadas. Se uma rela\u00e7\u00e3o for &#8220;ad hominem &#8220;[homem a homem] e ato cont\u00ednuo n\u00e3o criar raiz pelas media\u00e7\u00f5es que porventura se estabele\u00e7am, as rela\u00e7\u00f5es ser\u00e3o de circunst\u00e2ncia. Em vez de se firmarem, esfumam e desaparecem.<\/p>\n<p>A partir desse ponto, se \u00e9 evidente a dial\u00e9tica nos trabalhos de economia pol\u00edtica, no tratamento da pol\u00edtica a quest\u00e3o ficou mais impl\u00edcita que propriamente explicitada. Por exemplo, a express\u00e3o sociedade civil, junto com outros termos do vocabul\u00e1rio juvenil, v\u00e3o sumir na obra madura de Marx. Nos \u00faltimos anos de vida, contudo, as preocupa\u00e7\u00f5es juvenis acerca das rela\u00e7\u00f5es entre Estado e sociedade civil retornam, em escritos fundamentais, como &#8220;A guerra civil na Fran\u00e7a\u201d (1871) &#8211; sobre a Comuna de Paris &#8211; e &#8220;Cr\u00edtica ao programa de Gotha\u201d (1875) &#8211; sobre o direito e comunismo. Mesmo retornando, Marx n\u00e3o chegou a retrabalhar especificamente o conceito de sociedade civil no sentido de sua &#8220;amplia\u00e7\u00e3o&#8221;. No \u00e2mbito da tradi\u00e7\u00e3o marxista, bem depois, o trabalho do conceito coube a Gramsci.<\/p>\n<p>Gramsci parte de Marx e de Hegel para esbo\u00e7ar um novo conceito de sociedade civil, diferente dos dois, reformulando a teoria a partir do estudo das determina\u00e7\u00f5es sociais novas que a sociedade civil ganhou no Ocidente, principalmente ap\u00f3s a emers\u00e3o definitiva do capitalismo monopolista (come\u00e7o do s\u00e9culo XX). Ele verificou que dois processos dial\u00e9ticos, simult\u00e2neos e contradit\u00f3rios ocorrem na nossa sociedade: o fortalecimento da m\u00e1quina do Estado e a amplia\u00e7\u00e3o da sociedade civil, que n\u00e3o \u00e9 mais simplesmente uma esfera burguesa.<\/p>\n<p>A grande novidade de Gramsci \u00e9 que ele por assim dizer &#8220;ampliou&#8221; o conceito de sociedade civil. Sem desconsiderar as determina\u00e7\u00f5es de Marx, por ele incorporadas, verificou que a sociedade civil contempor\u00e2nea \u00e9 uma estrutura dotada de novas superestruturas que n\u00e3o s\u00e3o Estado. As organiza\u00e7\u00f5es sociais de classe se desenvolvem de tal modo que criam estruturas pr\u00f3prias: os sindicatos, os partidos, os intelectuais etc. Em suma, a sociedade civil contempor\u00e2nea n\u00e3o \u00e9 mais aquela do s\u00e9culo XIX, descrita por Marx. As determina\u00e7\u00f5es primitivas do conceito seguem operando, mas tamb\u00e9m surgem in\u00e9ditas determina\u00e7\u00f5es. Isso se chama dial\u00e9tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Meneses &nbsp; Permitam-me os leitores abordar na coluna de hoje um assunto perene em vez de um dos temas da agitada conjuntura pol\u00edtica. Dos grandes autores cl\u00e1ssicos da pol\u00edtica empenhados na cr\u00edtica ao contrato social burgu\u00eas \u2013 cito, por exemplo, Rousseau \u2013, Marx foi de longe o mais radical. 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