{"id":10312,"date":"2015-01-16T11:18:06","date_gmt":"2015-01-16T15:18:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=10312"},"modified":"2015-01-16T11:18:06","modified_gmt":"2015-01-16T15:18:06","slug":"podemos-ser-fundamentalistas-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/podemos-ser-fundamentalistas-1\/","title":{"rendered":"Podemos ser fundamentalistas (1)"},"content":{"rendered":"<p><em>Jaldes Meneses<\/em><\/p>\n<p><em>email: jaldesm@uol.com.br<\/em><\/p>\n<p>Em entrevista concedida em 2002 ao professor brit\u00e2nico Glyn Daly (publicada no livro \u201cArriscar o imposs\u00edvel\u201d), o fil\u00f3sofo popstar Slavoj Zizek &#8211; que escreve livros com a mesma facilidade que aflui multid\u00f5es aos audit\u00f3rios de suas confer\u00eancias -, teceu um belo e improv\u00e1vel elogio da filosofia de Kant, aparentemente (somente na apar\u00eancia) surpreendente para um marxista de ideias revolucion\u00e1rias e radicais. Conforme Zizek, embora o vocabul\u00e1rio idealista transcendental de Kant seja insuficiente e esteja superado (por favor, n\u00e3o confundir as categorias idealistas kantianas com metaf\u00edsica, mas enveredar por esse caminho seria papo obscuro de fil\u00f3sofo), vivemos uma \u00e9poca hist\u00f3rica extremamente interessante porque \u201cuma das principais consequ\u00eancias de avan\u00e7os como a biogen\u00e9tica, a clonagem, a intelig\u00eancia artificial (\u2026) \u00e9 que, talvez pela primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade, temos uma situa\u00e7\u00e3o em que os problemas filos\u00f3ficos [especialmente os levantados por Kant, em forma e conte\u00fado] s\u00e3o agora problemas que dizem respeito a todos, que s\u00e3o amplamente discutidos pelo p\u00fablico.\u201d<\/p>\n<p>A frase citada quer dizer que os grandes dilemas \u00e9ticos e filos\u00f3ficos viraram o p\u00e3o nosso de cada dia, abandonaram as nuvens do olimpo dos c\u00edrculos elitistas de iniciados, adquiriram forma material e concreta, e, por isso, se transformaram em quest\u00f5es de emerg\u00eancia de multid\u00f5es. O maior de todos os problemas filos\u00f3ficos, at\u00e9 mais que os mencionados por Zizek, no passado e no presente, vem a ser exatamente a quest\u00e3o do fen\u00f4meno perene e universal, manifesto em todas as sociedades ou civiliza\u00e7\u00f5es, das religi\u00f5es. Pode-se e at\u00e9 se deve especular, num dia long\u00ednquo do futuro, a exist\u00eancia de uma civiliza\u00e7\u00e3o na qual a necessidade de f\u00e9, m\u00edstica e transcend\u00eancia seja transferida da religi\u00e3o para outra atividade (com isso sonharam Feuerbach e todos os fil\u00f3sofos ate\u00edstas).<\/p>\n<p>Mas o fato \u00e9 que essa sociedade ate\u00edsta dos fil\u00f3sofos n\u00e3o se vislumbra por uma longa dura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e0 frente, por um motivo simples. O principio do ate\u00edsmo &#8211; cujo prefixo grego \u201ca\u201d, significa aus\u00eancia, afastamento, separa\u00e7\u00e3o, trata-se de um princ\u00edpio negativo, gerador uma de lacuna (ou aus\u00eancia, certamente mais voc\u00e1bulo mais preciso) cuja substitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ainda n\u00e3o foi posta de maneira positiva pelos homens em geral &#8211; apenas como exce\u00e7\u00e3o de vanguarda. Qual o princ\u00edpio positivo e organizador a p\u00f4r no lugar de Deus? Apenas negar \u00e1 exist\u00eancia, considerar-se ateu &#8211; Croce dizia algo assim \u201csomos todos ateus do cristianismo\u201d, uma frase da predile\u00e7\u00e3o de Gramsci -, j\u00e1 \u00e9 um come\u00e7o, por\u00e9m, uma estrat\u00e9gia defensiva. A prop\u00f3sito, \u00e9 insuficiente erigir a ci\u00eancia no lugar religi\u00e3o, a exemplo do que faz certa literatura ate\u00edsta, at\u00e9 porque pode a\u00ed ressurgir, pelas portas dos fundos, um outro tipo de religi\u00e3o oculta &#8211; o cientismo. Quando se procurou dar forma ao cientismo &#8211; e foram exatamente os franceses &#8211; elas adquiriram formas bizarras, como o culto ao Ser Supremo de Robespierre ou a Religi\u00e3o da Humanidade de Comte. Sou ateu, e n\u00e3o duvido que chegue o dia da \u00e9poca na qual o princ\u00edpio do ate\u00edsmo seja elaborado socialmente em registro positivo. O poeta diria: o dia ainda tarda.<\/p>\n<p>Por tudo isso, fico espantando com a ignor\u00e2ncia de certos cl\u00e9rigos e te\u00f3logos, quando, a guisa de explica\u00e7\u00e3o do ataque terrorista ao pasquim Charlie Hebdo, resumem a motiva\u00e7\u00e3o daqueles homic\u00eddios \u00e0 \u201cquest\u00e3o social\u201d. Quanta pobreza de pensamento! Como decaiu o n\u00edvel da forma\u00e7\u00e3o nos semin\u00e1rios! Embora \u201cquest\u00e3o social\u201d e \u201cquest\u00e3o religiosa\u201d, sem d\u00favida, componham um feixe complexo de casualidades, especialmente em nossos tempos de capitalismo quase inteiramente dominado pelo culto ao Deus-dinheiro, existe uma part\u00edcula da \u201cquest\u00e3o religiosa\u201d irremiss\u00edvel \u00e0s conjunturas da &#8220;quest\u00e3o social\u201d. Exatamente por ser part\u00edcula est\u00e1-se no limiar de um n\u00facleo duro. Por isso, \u00e9 poss\u00edvel, em alguns casos, revolver a \u201cquest\u00e3o social\u201d agravando a \u201cquest\u00e3o religiosa\u201d &#8211; n\u00e3o falo especificamente a respeito da Fran\u00e7a nem da Uni\u00e3o Europeia, onde, quem sabe?, resolver a quest\u00e3o social desanuvie a quest\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p>Aten\u00e7\u00e3o, eventuais leitores incautos (\u00e0s vezes acho que certos leitores deveriam ser tratados com os improp\u00e9rios que Baudelaire dirige a eles no primeiro poema de \u201cAs flores do Mal\u201d, em benef\u00edcio de despert\u00e1-los do \u201csono dogm\u00e1tico&#8221;), evidentemente o fundamento de toda religi\u00e3o \u00e9 social. Desconhe\u00e7o haver religi\u00e3o em Marte. No entanto, seria um erro grasso, que s\u00f3 pode denotar falta de treino intelectual, confundir as determina\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas da sociabilidade &#8211; Luk\u00e1cs diria: as termina\u00e7\u00f5es ontol\u00f3gicas &#8211; com as determina\u00e7\u00f5es da quest\u00e3o social, sempre situadas no tempo e no espa\u00e7o (Fran\u00e7a, 07 de janeiro de 2015).<\/p>\n<p>Subordinar sem as devidas media\u00e7\u00f5es, desconhecendo a presen\u00e7a de um \u201cpequeno objeto a\u201d irredut\u00edvel na rela\u00e7\u00e3o &#8220;quest\u00e3o religiosa\u201d\/\u201cquest\u00e3o social\u201d, bem pensado, \u00e9 a suprema, dogm\u00e1tica e preconceituosa forma de desrespeito ao Isl\u00e3. Significa dizer que os \u201cfundamentalistas s\u00e3o eles\u201d, que cultuam uma esp\u00e9cie de \u201cDeus inferior\u201d, impossibilitados de alcan\u00e7ar as formas m\u00e1ximas de transcend\u00eancia m\u00edstica, sem que lhes escore a providencial \u00e2ncora profana da \u201cquest\u00e3o social\u201d. Na verdade, querendo assumir ares de apar\u00eancia politicamente correta, tamb\u00e9m podemos ser fundamentalistas. Esta \u00e9 a outra parte do problema. Que tratarei no artigo da pr\u00f3xima semana.<\/p>\n<p><em>blog: http:\/\/jaldes-campodeensaio.blogspot.com\/<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Meneses email: jaldesm@uol.com.br Em entrevista concedida em 2002 ao professor brit\u00e2nico Glyn Daly (publicada no livro \u201cArriscar o imposs\u00edvel\u201d), o fil\u00f3sofo popstar Slavoj Zizek &#8211; que escreve livros com a mesma facilidade que aflui multid\u00f5es aos audit\u00f3rios de suas confer\u00eancias -, teceu um belo e improv\u00e1vel elogio da filosofia de Kant, aparentemente (somente na&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,15],"tags":[],"class_list":["post-10312","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-noticias","category-16","category-15","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10312","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10312"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10312\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10313,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10312\/revisions\/10313"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10312"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10312"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10312"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}