{"id":10205,"date":"2014-12-01T14:26:10","date_gmt":"2014-12-01T18:26:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/?p=10205"},"modified":"2014-12-01T14:26:10","modified_gmt":"2014-12-01T18:26:10","slug":"de-estelionatos-eleitorais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adufpb.org.br\/site\/de-estelionatos-eleitorais\/","title":{"rendered":"De estelionatos eleitorais"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"font-size: 14px;\">Jaldes Meneses<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14px;\">\u00c0 exce\u00e7\u00e3o do chamamento extraordin\u00e1rio de Sir Winston Churchill, feito no fogo da Segunda Guerra Mundial, quando os avi\u00f5es alem\u00e3es bombardeavam Londres, de que s\u00f3 tinha a oferecer ao povo brit\u00e2nico sangue, suor e l\u00e1grimas, os pol\u00edticos em campanha quase sempre prometem o para\u00edso na terra. Elei\u00e7\u00e3o nunca vai deixar de conter uma dose de escapismo. At\u00e9 certo ponto, toda elei\u00e7\u00e3o \u00e9 um estelionato eleitoral. Ningu\u00e9m aguenta viver em regime integral no mundo sem simbolizar ilus\u00f5es antes dos outros, a si mesmo &#8211; ah, os militantes! O problema \u00e9 passar de rem\u00e9dio a veneno.<\/span><\/p>\n<p>Nesta sexta-feira, quando tenho o prazer de estrear uma coluna semanal de pol\u00edtica em A UNI\u00c3O, o mais importante acontecimento de ontem, ter\u00e1 sido o an\u00fancio oficial, pela presidente Dilma, da nova equipe econ\u00f4mica. Economia realmente n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia neutra como tamb\u00e9m contradit\u00f3ria. As promessas da campanha petista giraram \u00e0 esquerda e contra o neoliberalismo, enquanto os novos ministros econ\u00f4micos (Joaquim Levy, Fazenda; Nelson Barbosa, Planejamento e Alexandre Tombini, Banco Central) s\u00e3o de inclina\u00e7\u00e3o ortodoxa, financista e fiscalista. Est\u00e1 por vir um duro ajuste fiscal (redu\u00e7\u00e3o de gastos e aumento de arrecada\u00e7\u00e3o), que depende da aprova\u00e7\u00e3o no Congresso, por paradoxo, de uma medida heterodoxa, antic\u00edclica e desenvolvimentista: o expurgo do c\u00e1lculo do super\u00e1vit prim\u00e1rio dos investimentos do PAC e da desonera\u00e7\u00e3o de impostos. Pela primeira vez desde maio de 2000, data na qual FHC sancionou a sacra Lei de Responsabilidade Fiscal, o dogma das finan\u00e7as p\u00fablicas veio abaixo. A LRF deixou de ser cl\u00e1usula p\u00e9trea. Como explicar tanta dial\u00e9tica em campanha aos eleitores de um partido? Faltaria tempo para conquistar votos.<\/p>\n<p>Planta-se heterodoxia para colher ortodoxia. O ministro deposto em exerc\u00edcio, Guido Mantega, tentou at\u00e9 onde pode, nos anos dourados de Dilma (2011 e 2012), discutir uma \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d que visava desembarcar do famoso \u201ctrip\u00e9&#8221; de pol\u00edtica macroecon\u00f4mica, instaurado por FHC na seq\u00fc\u00eancia da crise cambial de fevereiro de 1999 &#8211; juros altos, cambio flutuante e super\u00e1vit prim\u00e1rio. Dilma era entusiasta da ideia, tanto que os juros baixaram. Logo a conjuntura mudou. A China deixou de crescer em dimens\u00f5es chinesas. Os pre\u00e7os das commodities ca\u00edram. Os juros recome\u00e7aram a crescer, sabe-se l\u00e1 at\u00e9 onde.<\/p>\n<p>A economia \u00e9 contradit\u00f3ria. Dilma foi reeleita, sen\u00e3o com um programa, que n\u00e3o publicou, de todo modo, com ideias difusas de futuro. Evocando o bord\u00e3o de Stendhal que explica para os frakfurtianos a finalidade da arte, uma promessa de felicidade: &#8220;governo novo de ideias novas\u201d. Depois do encantamento de Pinocchio a realidade de Gepeto. As \u201cideias novas&#8221; de Dilma na TV &#8211; os efeitos especiais ao qual o eleitor teve acesso &#8211; n\u00e3o s\u00e3o colhidas em ajustes fiscais, mas nas manh\u00e3s radiantes de expans\u00e3o das pol\u00edticas sociais e dos investimentos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Leio um manifesto de \u201cintelectuais do PT\u201d condenando o governo. Nem culpo Dilma, mas o &#8220;sistema&#8221;. Desde quando, no Brasil, montagem de minist\u00e9rio tem a ver com milit\u00e2ncia em campanha? Em 1950, Jos\u00e9 Am\u00e9rico votou no Brigadeiro e acabou ministro de Get\u00falio. Francisco Weffort em 1994 coordenou a campanha de Lula e acordou ministro de FHC. Henrique Meirelles foi eleito deputado federal pelo PSDB em 2002. Em 2003, renunciou o mandato e foi empossado por Lula presidente do Banco Central.<\/p>\n<p>Deixemos as promessas de felicidade nas m\u00e1gicas m\u00e3os de Jo\u00e3o Santana. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se Levy votou em Dilma. Por afinidade eletiva, ele votou em A\u00e9cio, que considerou Levy \u201cum agente da CIA no quartel general da KGB\u201d. Sejamos claros: Dilma s\u00f3 convocou uma equipe econ\u00f4mica neoliberal, que promete sangue, suor e l\u00e1grimas, por que se viu acuada pelo resultado eleitoral apertado, o decr\u00e9scimo da bancada parlamentar de esquerda e, principalmente, os poss\u00edveis efeitos arrasa quarteir\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o valente do sistema pol\u00edtico dos resultados da opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, eis o secreto de polichinelo. Dilma virou neoliberal por necessidade antes de por convic\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 feito do lim\u00e3o a limonada? Doravante, a verdadeira discuss\u00e3o passa a ser o objetivo do \u2013 inevit\u00e1vel \u2013 ajuste fiscal. Se esse ajuste ser\u00e1 um programa de transi\u00e7\u00e3o, um freio de arruma\u00e7\u00e3o, visando \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de um novo ciclo de acumula\u00e7\u00e3o (o ciclo da era Lula, baseado no cr\u00e9dito e no consumo, caducou), ou se prevalecer\u00e1 no governo Dilma o programa do novo neoliberalismo de A\u00e9cio Neves. Quem viver ver\u00e1.<\/p>\n<p><em>* Professor Associado do Departamento de Hist\u00f3ria (UFPB), presidente da ADUFPB<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaldes Meneses \u00c0 exce\u00e7\u00e3o do chamamento extraordin\u00e1rio de Sir Winston Churchill, feito no fogo da Segunda Guerra Mundial, quando os avi\u00f5es alem\u00e3es bombardeavam Londres, de que s\u00f3 tinha a oferecer ao povo brit\u00e2nico sangue, suor e l\u00e1grimas, os pol\u00edticos em campanha quase sempre prometem o para\u00edso na terra. 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